domingo, 10 de abril de 2011

TRÊS IMAGENS DE PORTUGAL EM CRISE...

Fotos Georges Gobet/AFP

Com a crise a agravar-se em Portugal, quando os portugueses em geral continuam a aguardar, esperançados, uma melhoria que não se vislumbra, talvez seja útil publicar três imagens do nosso país visto por estrangeiros. Duas são visuais, do fotógrafo Georges Gobet, da Agência France Presse. Ambas retratam o ministro das finanças, Teixeira dos Santos, nesta última com a ministra francesa das finanças Christine Lagarde. Para não influenciar, abstenho-me de qualquer comentário, ficando a aguardar os pontos de vistas dos leitores. Que ideia dá do ministro em cada um dos clichés?
A terceira imagem é bem mais detalhada e foi redigida por Marie de Vergès, analista económica do Le Monde.

O longo descontrolo de um país com fraquezas estruturais

"Sem crise imobiliária, sem crise bancária e sem batota nas contas públicas... A pressão extrema dos mercados que levou Portugal a solicitar ajuda externa, na quarta-feira passada, castiga um descontrolo muito diferente daqueles que ditaram o auxílio europeu à Grécia e à Irlanda. É sobretudo a fraqueza de uma economia praticamente sem crescimento  desde há anos que explica a crise portuguesa. Desindustrialização, precariedade, falta de competitividade, eis as três doenças da economia portuguesa na última década.
Entre 2002 e 2008, Portugal registou um crescimento de 0,8%, duas vezes menos que o conjunto da zona euro. Quanto ao PIB por habitante, "estagnou à roda de 72% do nível da zona euro desde 1999, enquanto que durante o mesmo período a Espanha passou de 85% para 95%", refere Sabine Le Bayon, economista do Observatório Francês das Conjunturas Económicas - OFCE. 
Que é feito daquilo a que alguns chamaram outrora o "milagre português"? No final dos anos 90, o governo de  Lisboa foi considerado como o bom aluno da turma europeia, tendo integrado tal como a Alemanha ou a França a primeira carruagem dos Estados que adoptaram a moeda única. Portugal bateu então records de crescimento e registou uma das mais baixas taxas de desemprego da Europa, à roda de 4,5%.
Com a adesão à União Europeia, em 1986, as transferências financeiras europeias tinham permitido uma rápida modernização das infraestruturas. Filiais das grandes empresas europeias implantaram-se no país, atraídas pelos baixos salários. O investimento estrangeiro aumentou consideravelmente, mascarando as fraquezas estruturais herdadas da ditadura.
"Convém não esquecer que quando aderiu à Europa, Portugal era um país quase subdesenvolvido", afirma Michel Drain, geógrafo, investigador jubilado do CNRS e especialista do país. "Não tinha carvão. O tecido económico resumia-se à agricultura e a pequenas indústrias familiares, como o calçado e o vestuário."
Durante toda a década de 90, o nível de vida aumentou rapidamente, sem todavia anular totalmente as enormes desigualdades. "As auto-estradas financiadas pelos fundos europeus atravessavam zonas cuja população tinha fome", resume Jean-Marie Pernot, investigador no Institut de recherches économiques et sociales - IRES.
O país continuou assim a desenvolver-se de forma algo ilusória. Com a entrada no euro, as taxas de juro baixaram. As famílias aproveitaram o crédito barato para se endividarem em excesso, ao mesmo tempo que o governo socialista, no poder até 2002, praticou um política de facilidades.
Portugal foi o primeiro país da união monetária a ser alvo, logo em 2002, de um processo por défice excessivo: em 2001 ultrapassara o célebre limite dos 3% do PIB, fixado pelo pacto de estabilidade. Esta derrapagem assinalou o princípio do desencanto. O milagre português transformou-se em miragem.
Desde então, disciplinado, o país deseja voltar a cumprir as normas europeias, adoptando sucessivos planos de austeridade. A economia entrou em recessão. Aquando da passagem do século, a adesão à UE dos Estados da Europa Central e Oriental foi mais um duro golpe. Privou Portugal da vantagem competitiva dos baixos salários. Muitas empresas deslocalizaram-se para os novos parceiros europeus.
Ficou um território na extremidade da Europa, afastado dos mercados mundiais, com uma população pouco qualificada e uma economia especializada em sectores de fraco valor acrescentado. A indústria têxtil não resistiu às exportações chinesas. A espiral do afrouxamento económico dificultou os esforços para sanear as finanças públicas.
O governo resolveu multiplicar os programas de austeridade, provocando a redução drástica do consumo. "Portugal caiu na ratoeira das políticas restritivas que se vão sucedendo e contribuem para aumentar a precariedade, em detrimento dos investimentos estruturais de longo prazo", afirma Jean-Marie Pernot.
Essa fragilidade é agora cada vez mais evidente no aumento exponencial dos famosos "recibos verdes". Mais de 900 mil portugueses, um em cada cinco trabalhadores, recebem por esse sistema, que os priva de subsídio de desemprego ou por doença."

Marie de Vergès, Le Monde, 10/04/2011, página 12

6 comentários:

Anónimo disse...

Diz o Le Monde:
"desindustrialização(...)um dos problemas em Portugal...". Mas este jornal não conhece o caso tomarense que, sob a "batuta" do sr. Relvas (o tal com perfil de homem de estado (!), como diz o autor do blogue),acabou com a indústria para não poluir o ambiente e passou a governar-se com a nova economia: o turismo. Mas não de massas, sim o (K)ultural e de alta (K)ualidade. "Assente" no Convento e na Zona Histórica.
Tem cá sido um progresso que nem o Le Monde imagina...

Bravura Lusitana disse...

A crise é dos socialistas e dos "cantoneiros" que vão mamando à custa do erário público.

Está na hora de mudar isto de uma vez por todas, sendo que só o Partido Nacional Renovador se apresenta como uma verdadeira solução nacional e social.

Está na hora da mudança !

ACORDA PORTUGAL.

PNR Tomar

António Rebelo disse...

Para 01:21

Tem toda a razão. Permita-me ainda assim que esclareça um detalhe, que faz toda a diferença. Acontece com o turismo como com qualquer outra actividade: a notória falta de qualidade arruína à partida as melhores intenções. Doravante, com amadorismos serôdios apenas se consegue encurtar o trajecto rumo à desgraça e à miséria.Conviria que os senhores autarcas se despissem das suas ilusões,caindo finalmente na realidade, coisa em que não acredito. Mas continuo esperançado...

Anónimo disse...

Desde há largos anos que venho acompanhando a degradação portuguesa.
Em 1973 partecipei, com Sá Carneiro, Pinto Balsemão, João Salgueiro, António Guterres, Victor Constâncio, banqueiros, e outros, num estudo encomendado pelo Chefe do Governo Marcelo Caetano, para o período 1975- 2005. Avisámos, ainda antes do 25/4, que ou Portugal mudava toda a base económica e industrializava-se ou chegaria a 2005 todo esfarrapado. Como aconteceu
Em 1977 e 1983 analizei as intervenções do FMI concluindo que não iam resolver nada, antes pelo contrário, e que teriam de voltar, mesmo com Portugal na União Europeia.
Ao longo dos anos fiz imensas análises sobre Portugal para multinacionais e outros organismos, a conclusão foi sempre a mesma: Portugal iria para pior e os portugueses nunca o entenderiam.
Em 2003, num trabalho sobre o futuro de Portugal concluí: os portugueses só fizeram disparates no passado; continuarão a fazer os mesmos disparates no futuro; e difícilmente serão um povo desenvolvido, no que tive a concordância de economistas, sociólogos e generais.
Tenho um artigo para saír no Templário onde considero que a austeridade que por aí vem só serve para empobrecer e termino o artigo perguntando, quando é que o FMI voltará de novo para impor mais austeridade.
De PEC em PEC até à miséria final.
Sobre Tomar basta ver o que tenho escrito desde 1987, não falhou nada. E vai continuar. Quantos bancos é que encerrarão agências em Tomar?
SÉRGIO MARTINS

Cantoneiro da borda da Estrada disse...

Bom artigo.

Embora não seja preciso ir a Coimbra ou a qualquer universidade de Paris para saber o que lá está escrito sobre o percurso que fizemos nos últimos 25 anos (somos suficientemente manhosos e sábios para o ter na ponta da língua), este artigo devia ser discutido por todos os órgãos dos partidos para melhor desmascarar o Portugal Velho que se perfila para aceder ao poder. Está lá tudo para perceber a natureza das contradições do combate político actual, a situação trágica em que o país está mergulhado e porque José Sócrates está no centro do debate político no seio da sociedade. Falta a análise aos últimos 10 anos, é certo, mas a Madame Marie só se debruçou sobre os fatores que nos conduziram a esta humilhação.

Teixeira dos Santos está à rasca, acabrunhado, com uma carga pesada às costas provocado por indivíduos a que ninguém "compraria uma BIC, muito menos um programa de governo", como disse Clara Ferreira Alves referindo-se ao Secret.Geral do PSD, Miguel Relvas. Também eu, quando vejo/ouço este incrível exemplar político, e como com a Pátria existe também uma relação de amor, lembro-me sempre do personagem Marcúcio, filho do nobre Montecchio, no "Romeu e Julieta", que à entrada do baile de máscaras implora: "Dai-me uma máscara. (mascarando-se) Ora aqui está uma máscara a cobrir outra. Que importa agora que qualquer olhar curioso venha esmiuçar as minhas deformidades? Esta fronte de espessas sobrancelhas corará por mim"

Artigos como este estão proibidos na imprensa escrita portuguesa e se alguém disser o que lá está em voz alta aparece um miguel relvas qualquer a fazer ruído, à punhalada ao entrevistador ou interlocutor, a abafar as palavras, a monopolizar, acabando sempre aos "coices" a José Sócrates- única mosca que sai da sua boca, porque o resto....

Está lá tudo e da forma mais simples e direta: fraquezas estruturais antigas, economia sem crescimento desde há anos, desindustrialização, falta de competitividade que de 2002 a 2008 cresceu 0,8% (de 2005 a 2008 tivemos que reduzir défice), PIB estagnado desde 1999, o falso "milagre português, o bom aluno que fomos de 1985 a 1995, as empresas estrangeiras que por cá se instalaram pelos baixos salários e que o investimento estrangeiro aumentou "MASCARANDO AS FRAQUEZAS ESTRUTURAIS HERDADAS DA DITADURA"; entretanto veio a globalização, as potências emergentes, a abolição de fronteiras na Europa, vender nabos no Porto é como vender os mesmos nabos em Paris, Bruxelas, etc.. Estas e outras coisas que a Madame sabe, sabichona que ela é, e nós aqui no dia a dia não sabemos.... É claro que todos sabemos isto. Isto e muito mais.

Havia dinheiro e o importante era o mercado de votos, encaixar os familiares e amigos e correligionários na esfera estatal e agora se queremos saber certas coisas sobre o nosso Portugal recoremos a artigos do Le Monde e outros, como fez o filósofo da moda, José Gil, aquele que, em jovem, fugiu de Moçambique atrás de uma Corsa, deixou de ser comunista porque não paravam de lhe lançar piadas por gostar de jazz e, mais tarde, conheceu Portugal e os portugueses numa conversa com o filósofo francês Gilles Deleuze..., e hoje considera-nos invejosos, muito salazaristas, ignorantes, etc. - um dos muitos Doctors Sorbonicus que não se lembraram de coisas tão comezinhas como.....

Continua......

Cantoneiro da Borda da Estrada disse...

..... Continua

É aqui que entra o Sócrates, o malandro que até sabe as novas tecnologias de comunicação, até domina a técnica do Teleponto, movimenta-se belamente no palco, gestos a condizer, bom domínio da expressão, sabe rir e, grande filho da...., até consegue verter uma lagrimazita para obter o efeito da identificação com o auditório, exímio na técnica de Stanislavsky, desprezando a brechtiana... , de distanciamento. Como eles, valentíssimos reacionários, afinal sabem tão bem estas coisas e o que elas podem conseguir para iludir o povo. Bush, Sarkozy, Cameron, Obama são outra loiça. Agora José Sócrates!....

Foi este homem, que carinhosamente trato por "meu Zézito" que começou a fazer aquilo que eles nunca quiseram fazer e tudo fizeram e fazem para que não se faça: desenvolver a Ciência, criar mais doutores, engenheiros e investigadores, criar novas tecnologias, novas energias, mais creches, computadores para a cachopada, maior exigência no corpo docente, atacar corporações, criar uma rede escolar moderna como base de um Portugal novo. Conhecimento. E estamos aí com empresas modernas, etc., etc., etc..

Era isto que nos faltava e nenhum outro PM fez.

Por isso ele é o melhor chefe de governo pós Antigo Regime.

Muitos o odeiam e sabemos porquê.