segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Uma cantilena infantil

Infelizmente para todos os portugueses de boa vontade, são cada vez mais raros no país os políticos com adequada estatura cidadã, que ousem proclamar a verdade sem descolar da realidade. Quase todos procuram, pelo contrário, levar a água ao seu moinho, dizendo aquilo que os cidadãos gostam de ouvir. Aqui temos o exemplo mais recente: "O PS está disponível para modernizar o Estado e para garantir a sustentabilidade das suas funções. A sustentabilidade das funções do Estado garante-se com crescimento. Colocando o país a gerar riqueza e não, como tem vindo a ser feito, empobrecendo Portugal." (António José Seguro, Crescer em vez de cortar, Reformar em vez de destruir, Diário de Notícias, 14/01/2013, página 3).
É uma prática bem conhecida. Perante as crises, os socialistas resolvem quase sempre encetar a fuga para a frente. Ainda não existia o PS português, nem a democracia em Portugal e já para as bandas de Paris os arautos do PSF difundiam a mesma música: com crescimento é que é. Provavelmente porque a França sempre foi mais avançada e os seus cidadãos mais exigentes, nos idos de 60 os socialistas gauleses foram mais explícitos. Ao ansiado crescimento acrescentaram um modo de usar, que foi então o crescimento pela procura. O raciocínio económico era evidente, sustentavam: aumentando os vencimentos da função pública aumenta-se o rendimento disponível e este provoca um  incremento do consumo, o qual por sua vez desencadeia um aumento da produção, que por sua vez exige mais empregados = aumento do emprego e dos salários = mais rendimento disponível = mais incremento do consumo. O perfeito círculo virtuoso, em suma!
Tudo muito bonito no papel, tal como anos mais tarde com a falácia das 35 horas. Infelizmente, a realidade depressa veio desmentir a teoria cor de rosa, provocando o aumento da inflação, das importações e da dívida pública, ao invés do esperado. Mais de meio século volvido, mesmo com outro peso político e com um presidente socialista com largos poderes, a França não está muito melhor que Portugal e o governo gaulês continua a procurar afanosamente, até agora em vão, a fórmula ou fórmulas para desencadear e sustentar o tão almejado crescimento económico.
Entrementes, aqui na ponta ocidental da Europa A. J. Seguro, de seguro pouco ou nada tem. "A sustentabilidade do Estado garante-se com crescimento"? Pois garante, tem toda a razão. Mas o crescimento desencadeia-se, mantém-se e acelera-se como? "Colocando o país a gerar riqueza"? Estamos todos de acordo, incluindo, estou certo, o actual governo. Mas como é que isso se consegue e se dinamiza? 
Continuando nas noções elementares de economia política, conviria até que o ilustre líder PS se desse ao trabalho de especificar qual a via do seu hipotético futuro governo, em matéria de economia: Crescimento pela procura? Pela oferta? Por ambas? Com que meios? Por que vias? Investimento público? Investimento privado? Com que incentivos? Custeados por quem?
Creio oportuno lembrar a Seguro que os megalómanos investimentos públicos e privados (PPP), levados a efeito e/ou patrocinados pelo seu antecessor J. Sócrates não só não conseguiram alavancar qualquer crescimento digno de registo como provocaram a ruína financeira do país, principal causa da alhada em que agora nos encontramos e que o secretário-geral do Largo do Rato tanto critica e lastima.
Mesmo a nível local, os 18 milhões de euros malbaratados por António Paiva não conseguiram originar qualquer crescimento ou sequer estancar a debandada da população, mas deixaram uma dívida municipal que agora muito incomoda os tomarenses mais conscientes. Que os senhores eleitos -incluindo os socialistas- nunca pareceram muito incomodados (até se coligaram durante dois anos com os disciplos de Paiva e executores das suas alambicadas ideias) ou se deram ao trabalho de apresentar aos tomarenses uma alternativa consistente. Tem sido só blábláblá, tanto por aqui como por lá. Até quando?

5 comentários:

tomarense d disse...

"Até quando?"

-Portugal,dotado como é de politicos de "excelencia", com toda a certeza que será por muitos e "bons" anos.
-Veja-se agora a propósito da reforma do Estado, algum politico fala em reformar o sistema politico, que será na minha modesta opinião o verdadeiro e principal problema do "Estado" que eles tanto querem reformar!?
- Portugal como País independente não tem solução, pois agora é a crise economica e financeira, daqui a uns anos(+- 20 anos)juntar-se-á outra crise de origem demográfica, que ninguem fala, mas vai-se tornando evidente, com os indices de natalidade a bater recordes consecutivos em forte baixa...

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Como é possível defender a camarilha de burlões e golpistas do governo, que anda a gastar centenas de milhões de euros a pedir a estrangeiros relatórios e programas para governarem o nosso País?

Lembremos algumas promessas do canalha do primeiro-ministro que enganou os portugueses na campanha eleitoral:

"Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução"

"Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o governo anunciar que vai reduzie a carga fiscal"

"Se vier a ser necessário algum investimento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas"

"Se formos governo posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar nos salários para sanear o sistema português"

"A ideia que se foi gerando de que o PSD vao aumentar o IVA não tem fundamento"

"A pior coisa é ter um governo fraco. Um governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos"

"Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13º. mês, mas nós nunca falámos nisso e é um disparate"

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Em ano e meio assistiu-se a um falhanço rotundo, a dívida aumentou, a nossa dependência aumentou, etc., etc..

É hoje cada vez mais reconhecido que o PEC IV teria impedido esta tragédia.

É hoje reconhecido que os governos de José Sócrates estavam a implementar reformas com eficiência e ponderação.

O PEC IV e o crime dos que o recusaram, virá a ser, mais cedo que tarde, ponto fulcral de debate na sociedade portuguesa.

E enquanto não forem pedidas contas aos que nos lançaram nesta humilhação, Portugal não sairá do abismo em que o precipitaram.

A história é implacável. Os que não hesitaram em sacrificar a sua própria noção de identidade nacional e de independência política , os que trocaram o seu patriotismo pela proteção dos seus interesses, acagaçados com a eventualidade de uma insurreição popular, hão-de ser chamados a responder pelo seu oportunismo.

Entre eles estão o PCP, BE, os partidos do governo, e o oportunismo de AJSeguro, com as suas venenosas declarações de voto lá no alto do anfiteatro do parlamento.

Haja vergonha!

Não se safarão de um ajuste de contas!

António Rebelo disse...

Antes de mais, está por demonstrar que sejamos governados por uma "camarilha de burlões", de que falas. Até prova do contrário, trata-se do governo legal e legítimo do país, saído de eleições genuinamente livres. Ou não?
Depois, ninguém está a defender o governo. Apenas a anotar que as posições do líder do PS não passam afinal de uma espécie de cantilena, que procura adormecer crianças adultas. É o contrário disto que deves procurar demonstrar, e não recorreres, uma vez mais, a chavões que já não convencem ninguém.
Passos Coelho disse uma coisa em campanha eleitoral e agora está a fazer o oposto? É verdade. Mas o teu querido Zèzito não praticou exactamente a mesma coisa, inclusivé quando já estava no governo e continuou a tentar aldrabar-nos? Alguma vez em Portugal um partido ganhou as eleições, dizendo a verdade aos portugueses? Não, pois não? Então porque te viras agora contra este? Estão-te a ir ao bolso, não é? Tem paciência que eu também sofro do mesmo mal. Num país em que mais de metade da população não paga impostos, e temos de sustentar quase 600 mil funcionários públicos, estavas à espera de quê?
Estou convencido de que com a aproximação das autárquicas, até o governo gostava de poder implementar medidas menos gravosas para todos, afrouxando a austeridade. Mas o raio da herança socratina...
Bem podem espernear, manifestar, alegar "direitos adquiridos", invocar a constituição ou inventar que Passos quer alterar o regime democrático. Não há nada a fazer, a não ser poupar e pagar. Sob pena de virmos a passar fome, caso a troika nos recuse auxílio. É isso que pretendes? Quanto pior melhor, para a revolução proletária? Olha os milhares de guilhotinados, numa revolução que teve a sua origem na falta de pão... ali para os lados de Paris!
De resto, que quase quatro décadas após Abril ainda acredites do MRPP, que ajudaste a fundar, explica a tua reiterada atitude "revolucionária".
Cordialmente, mas sem transigir.

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Em primeiro lugar, retira lá essa do "Estão-te a ir ao bolso?". Nunca na minha vida pautei as minhas opiniões ou posicionamentos políticos pelos meus interesses económicos pessoais.Mesmo quando fui operário em Tomar durante 8 anos. Não sei o que é isso. Até hoje. O meu estilo de vida e gastos são os mesmos que sempre fiz durante toda a minha vida, adquiridos, não por chulagem ou amiguismo de tipo algum, nunca mamei nas tetas do Estado um cabrão de um tostão e recusei, até, depois de vir da guerra colonial, um emprego numa repartição de finanças em Tomar, que me foi oferecido de bandeja por ação do saudoso Manuel da Silva Guimarães. Foi sempre uma opção minha, daí que tenha constituído para mim um enorme problema psicológico quando pensei reformar-se, sabendo que ia ficar dependente de um Estado português dominado por interesses e elites inimigas do povo português, como se pode ver agora.

Querias que eu te acusasse de estares a auferir uma reforma que não obedeceu à mesma fórmula que a minha, e que andei a pagar durante 46 anos, "cá fora"? Não vou por esse caminho. Seria injusto.

Não venhas para mim com essa lenga-lenga, porque eu sou capaz de comer merda a vergar-me a qualquer sacana, de que o nosso País está cheio. Não venhas para mim com essa conversa relvista. Com essa não. Até porque sei o que custa manter esta posição e, por isso, compreendo perfeitamente o quanto andam acagaçados os funcionários públicos - e com razão.

Não conheço ninguém nem na minha família paternal nem na maternal que seja servidor do Estado, que trabalhe no Estado ou mame à custa dele. Tenho três filhos e trabalham no privado e nunca pedi a ninguém um emprego para eles no Estado (nem cá fora, já agora), nem nunca me passou pela cabeça fazê-lo enquanto fui militante partidário num partido da área chanada de governação. Pára lá, então, com isso. Se usas muitas vezes essa arma com outros no debate político, peço-te para não a usares comigo, porque sei o que custa trabalhar afastado das tetas da Vaca Nacional.

Em segundo lugar, não fui fundador do MRPP, fui, sim, fundador do PCTP/MRPP. O MRPP foi um movimento nascido antes de Abril 74 e não tive a honra de estar no seu nascimento.

Em terceiro lugar, e para terminar, a crise económica nacional e internacional não é culpa de Sócrates, sabe-lo bem, tu e todos os que se vêem agora a contas com a sua consciência. E de terem, cada um à sua maneira, burlado indecorosamente o povo português, indo na onda de camarilhas e bandos da pior malandragem que pisa solo pátrio, e que deviam responder pelo golpe que deram e em que participaram, ultrajando um País de 860 anos, onde os poderosos e elites da merda sempre imploraram pela interferência estrangeira para defenderem os seus interesses: 1383-1385, imploraram por Castela; 40 anos após a abertura da Rota do Cabo, estávamos em bancarrota; mais 40 anos e voltaram a bandear-se para Castela (1580); enriquecidos com ouro e pimenta no séc. XVIII fujiram, no início séc. seguinte, atrás do João VI para o Brasil, abandonando o povo às tropas e governação estrangeiras; 1974, dividiram-se entre dois imperialismos, o soviético e o americano; 2009/2011 clamaram pela intervenção externa; nos dias correntes pedem diretivas ao capitalismo financeiro internacional sobre como governar Portugal, ou seja, defender os seus interesses.

Não sou -nunca fui!-desse campo. E nunca serei.

É por tudo isto que tenho uma admiração extraordinãria pelo primeiro governante em Portugal que ousou enfrentar a canalha que trai consecutivamente a nossa pátria, humilha o nosso povo, semnpre no regaço de forças poderosas estrangeiras.

És muito forte com os fracos, mas amanças perante os poderosos, mesmo que sejam uma escória, como é o caso presente.

António Rebelo disse...

Tens um modo de ver as coisas que naturalmente respeito, mas com o qual a maior parte das vezes não concordo. Julgo que nos separa sobretudo uma questão de mais ou menos tolerância, de mais ou menos realismo perante as pessoas e o país. Só isso. Que nada tem que ver com ser forte ou ser fraco. Apenas condescendente quando necessário.