segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Vem mesmo a calhar...

Na sequência do post O osso da questão , o nosso estimado leitor-comentador Leão da Estrela enviou um fundamentado texto, logo publicado. Nele, depois de ter procurado sacudir a água do capote, esclarecendo que o carapuço da alergia à liberdade de opinião não lhe serve, usou a conhecida técnica da inversão discursiva -escamotear o essencial, mediante argumentação valorativa de detalhes sem grande relevância na matéria em debate. Quando estava para lhe responder de forma detalhada, após uma primeira reacção tipo "bola para fora", surgiu-me a peça que a seguir reproduzo com muito gosto, pois vem mesmo a calhar.
O que não significa de modo algum que esteja sempre de acordo com o signatário ou com quem quer que seja. Sou um animal livre, mais ou menos racional, consoante as circunstâncias. Já entendi de uma vez para sempre que posso ser contra o frio ou o calor, que isso não invalida, antes salienta, o facto de haver períodos anuais de calor e de frio, consoante o local em que se vive ou está. Outro tanto sucede na área da economia: a realidade não se compadece com opiniões políticas, por muito abalizadas que sejam. Ou colam ou não colam.
 E vamos à anunciada peça.

"Estão a ver o filme?"

"Fala-se da crise há anos. Ouvem-se muitas teorias, protestos, fúrias e desânimos, mas no essencial ainda permanece uma enorme ilusão. As reacções ao recente estudo do FMI mostram acima de tudo profundo irrealismo face à real situação do país.
O texto Rethinking The State -Selected Expendidure Reform Options, pretende "reformar a despesa em Portugal, perante a questão de fundo da dimensão e funções do Estado." (página 6) Chegámos finalmente à questão decisiva. Após ano e meio de medidas pontuais de emergência, tocamos nas reformas estruturais, discutidas há décadas e sempre adiadas. Perante um contributo tão importante para o nosso problema essencial, a grande maioria das reacções foi extravagante. É caso para perguntar se esses comentadores têm andado por cá ultimamente.
Todos sabemos que o país está na "unidade de cuidados intensivos", ligado à máquina da ajuda externa para sobreviver. Todos concordamos que temos uma crise grave e fundamental, que exige medidas profundas. Mas, logo a seguir a este consenso, grande quantidade dos analistas envereda por uma ilusão cómoda, para evitar enfrentar a realidade. Muita gente está plenamente convencida que a crise se deve a um punhado de maus (corruptos, incompetentes, esbanjadores) e, pior, que basta eliminá-los para tudo ficar normal. Nas actuais circunstâncias, esta fantasia é uma irresponsabilidade criminosa. Num momento tão decisivo e doloroso, acreditar em tolices destas só aumenta o sofrimento de tantos, prejudicando a urgente solução do problema.
Portugal tem uma dívida externa bruta total quase duas vezes e meia superior ao produto, e uma dívida pública bem acima do que produzimos. Não há corrupções, incompetências e desperdícios que cheguem para justificar uma coisa destas. Quem fez isso não foram os ricos, políticos, ladrões. Tem de ser a vida comum e os hábitos dos cidadãos honestos a gerá-lo. Muitos nos lembramos como estávamos há vinte anos, e como tudo melhorou tão depressa. Muito disso foi mérito e crescimento sólido, mas a euforia empolgou e foi-se para lá do razoável. Agora a situação nacional não se resolve só eliminando gorduras. É preciso cirurgia profunda e estrutural. Não é sina nacional, até porque vimos igual noutras zonas. Mas tem de ser feito.
A maioria da crítica olha, não para a situação nacional, mas para os interesses afectados. Falam então em "direitos adquiridos", sem notar que esse é outro nome da doença. Existem direitos básicos que o país tem de garantir a todos. Nesses não se pode tocar, nem ninguém quer que se toque. Mas grande parte dos supostos direitos não foram de todo adquiridos, mas atribuídos irresponsavelmente com dinheiro alemão. Foi bom recebê-lo e custa a deixar, mas não há alternativa. Se quisermos um dia lá chegar de forma sustentável.
Cortar 4 mil milhões de euros de forma permanente à despesa pública não é a solução. Apenas o primeiro passo para Portugal voltar a ser um país sério. Temos de viver com a nossas possibilidades. Durante uns tempos até um pouco abaixo, para aliviar as dívidas de se ter vivido demasiado tempo acima delas. A correcção não é o fim do mundo: pouco mais de 5% da despesa total prevista no Orçamento para 2013. Pode-se negar, insultar, protestar, mas a aritmética não se comove.
Isto não é novidade. Aliás todos o dizem há décadas. Perdemos a conta aos relatórios, estudos, programas de governo e discursos de Estado em que foi repetida a necessidade de reformas estruturais. Esse é o outro consenso. Quando uma das instituições mais experientes e reputadas neste tipo de reformas analisa a situação e sugere medidas concretas, será razoável tratar isso como um disparate? Uma imposição externa? Uma aleivosia? Será que não estão a ver o filme?
Perante o estudo do FMI há duas atitudes razoáveis. Pode-se aceitar e também é sensato discordar. Afinal é só um estudo técnico externo, nem sequer um programa político. Mas quem recusa tem de apresentar cortes alternativos de valor equivalente. Senão diz só uma tolice ociosa de quem não está a ver o filme."

João César das Neves, Diário de Notícias, 21/01/2013, página 54, naohaalmocosgratis@ucp.pt

A cor é da responsabilidade de Tomar a dianteira

2 comentários:

Leão_da_Estrela disse...

Bom, lá vai professor:

Não entendo como me acusa de sacudir a água do capote em relação à liberdade de opinião, se sei que para o meu caro, liberdade de opinião não é abanar a cabeça e concordar com tudo; o mesmo servirá para mim: liberdade de opinião é permitir e assumir o confronto de ideias e pontos de vista, com argumentação válida! foi o que fiz; e refuto completamente o epíteto de tolo, apenas porque não me revejo e não atribuo qualquer credibilidade a um estudo feito por um senhor do FMI, que no seu twitter pessoal defende soluções completamente antagónicas às que defende no referido estudo. Quanto à credibilidade da coisa, parece estar-mos conversados, a não ser que dêmos crédito a um tipo que dá uma no cravo e outra na ferradura.

Já o senhor João César das Neves é também livre de dizer as tolices que quiser (arvoro-me este direito "de resposta"), mas não entendo, sinceramente, o seu pessimismo, já que ouvindo o FMI a UE, a sr.ª Chanceler, o sr. Junker, etc. e tal, Portugal está a ser um excelente aluno e não tarda nada está aí nos mercados, os abençoados mercados que são a salvação da Pátria! (aqui pra nós, que ninguém nos lê, os culpados de aqui termos chegado) A este propósito, Vitor Gaspar, acaba de fazer aquilo que a oposição há muito defende, a extenção do prazo de pagamento, aquilo que disse nunca iria fazer. Enfim...

Ora o meu caro professor, que recomenda mais acima um livro onde o mote é a corrupção a nível político e as relações perigosas que isso envolve, acha que eu fugi ao essencial. Pois se bem leu o que escrevi (com os dois olhos, sem palas), lá está que também eu defendo que o Estado deve reflectir os novos tempos e deve evoluir, enquanto ferramenta para servir os cidadãos. Mas tal como uma infecção não se trata com Melhoral, o Estado não pode ser reformado sem lhe ser expurgado o maior cancro que o tem assolado nas últimas três décadas! faça o meu caro as mudanças que fizer, se não correr com os corruptos, os interesseiros, os compadrios, essa peçonha alapada à máquina do poder, em menos de nada, o país estará na mesma situação, ou pior. Já viu algum destes personagens preso? Valentim Loureiro, Isaltino Morais, Dias Loureiro, o tipo das sucatas, os do BPP, todos os do BPN, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho e todos os dignos senhores do saco azul dos partidos que paulatinamente fazem a colecta daquilo a que prazenteiramente se chama financiamento dos partidos. Lamentando-se esta gente de que ganha pouco, como explicar as fortunas de políticos, no activo ou fora dele? sim! vivemos num país de corruptos! mas todos honestos, menos o Macário Correia, que se há-de ter sentido o Kalimero, por ter sido o único a perder o mandato. Soubesse ele o desfecho da coisa e teria contratado os advogados do Isaltino...

Vamos reformar o Estado, sim senhor! mas começando no princípio, que é como se devem começar as coisas que se querem bem feitas. O que João César das Neves e o governo defendem (este, um ano e meio depois de ter tomado posse e de ter tomado medidas avulso que deixaram tudo ainda um pouco pior), é que essa reforma seja apenas o corte permanente de 4 mil milhões de Euros e mais, exigem que quem venha traga a faca afiada, considerando que não há outra alternativa. Há! e eu até lhe digo mais: fazendo as coisas bem feitas, pode poupar (bastante diferente de cortar) muito mais!

Assim haja tomates, mesmo que para isso tenha que se passar com os ditos pela porta do elevador...

Tolerantemente,
Edmundo Gonçalves

António Rebelo disse...

Só posso aplaudir. Mas mantenho a minha. Salvo no que concerne ao défice de tolerância, como bem demonstra com este seu comentário, que agradeço. Escreva sempre.

Prazenteiramente,

A.R.