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segunda-feira, 12 de julho de 2010

ESPECULAÇÕES...

Se houvesse necessidade de caracterizar a opinião pública nabantina com uma só frase, seria "incapacidade total para se adaptar ao mundo em que vive". É patente que a actual maioria autárquica nunca governou, não governa, nem tenciona vir a fazê-lo. Limita-se a gerir "biscates" candidatados ainda por António Paiva, os quais, dado que a conjuntura local, nacional e internacional entretanto mudou radicalmente, tendo passado sucessivamente das vacas gordas às magras, e destas aos ossos de vaca, deixaram de fazer qualquer sentido, dando de barato que alguma vez fizeram. É igualmente claro, para o reduzido meio jornalístico local, que no PSD há dois grupos que se guerreiam. Um, bastante reduzido, obedece à batuta de Miguel Relvas. O outro, liderado por José Delgado, ganhou recentemente as eleições locais e domina a secção tomarense. Os "relvistas" continuam a achar que não há qualquer alternativa ao actual elenco maioritário coligado. Os "delgadistas", pelo contrário, consideram que já houve demasiados erros, pelo que é tempo de mudar de alcaide e de, logo que possível, provocar o fim da coligação.
Pressionado a colocar o lugar à disposição, Corvêlo de Sousa continua a resistir. Como já demonstrou não ter meios para governar, só um detalhe pode justificar a sua teimosia -a necessidade de, antes de abandonar, conseguir tempo de serviço suficiente para uma reforma confortável.
Dizendo-se sucessivamente enganados pelo actual presidente, "delgadistas" desabafaram, em tom irritado, que a proeminência de Relvas na actual direcção laranja é doravante o principal obstáculo a vencer, pelo que urge conseguir alterações locais, antes que seja a 2ª personalidade do futuro governo laranja, com Paiva num ministério técnico. Tudo isto caso o PSD consiga vencer as futuras eleições antecipadas com maioria absoluta. Sabe-se, no entanto, que em política como no resto, é sempre muito arriscado contar com o ovo no oviduto da dita...
Face a tudo isto, gente a mando, ao mesmo tempo que vai indagando pela cidade quais seriam os bons cabeças de lista em futuras autárquicas, susurra que tudo não passa de especulações sem sentido, pois a actual maioria relativa completará normalmente o mandato. Afinal em que ficamos? Se são apenas especulações, para que querem saber quais seriam os melhores cabeças de lista? Normalmente as eleições deverão ter lugar apenas no final de 2o13. Não será prematuro andar já à procura de candidatos?
A realidade parece assim pouco lisongeira para os tomarenses em geral. Manifestamente incapazes de se adaptarem aos tempos que correm, cuidam que o Mundo parou algures no passado, onde aguarda que resolvam as suas trapalhadas, para então retomar a sua marcha. Vai daí, como na verdade a evolução é cada vez mais acelerada, até já começam a não saber mentir em condições. Fazem-no tão mal que se topa à légua. Após a má-língua, após o bota-abaixo, após os críticos encartados, arranjaram agora essa da especulação. Mas que especulação ? Os factos relatados não são verdadeiros? As argoladas da actual maioria não têm sido evidentes? Têm alguma solução global para os próximos três anos? Têm algum programa coerente e adequado aos novos tempos?
Parafraseando um conhecido incitamento, em tempos escrito na Barragem do Alqueva, quando esta ainda estava praticamente em gemas -Expliquem-se porra!!! Deixem-se de tretas!!!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O NEVOEIRO ELEITORAL VAI-SE DISSIPANDO...

Pouco a pouco, vai-se dissipando o nevoeiro eleitoral, provocado por sete candidaturas, menos diferentes entre si do que à primeira vista possa parecer. A tradicional paisagem tomarense, simultaneamente diferente e igual ao que sempre foi desde o 25 de Abril, é agora muito mais nítida aos olhos do observador atento e experiente. Diferente, pois temos por enquanto uma coligação de jure e de facto, o que ocorre pela terceira vez em 35 anos. Tivemos a AD, o PSD + 1 e agora PSD + PS. Igual ao que sempre foi, dado que nem o PSD, nem o PS, nem os IpT, as três forças representadas no executivo, dispõem de quaisquer projectos tácticos (e ainda menos estratégicos), capazes de alterar a nossa marcha rumo a uma cada vez mais evidente decadência.
Foi portanto num clima de mútuo equívoco que laranjas e rosas resolveram, praticamente de supetão, juntar os trapinhos, oficialmente para quatro anos. O que se compreende. Sabendo-se sem planos nem margem de manobra para mais aventuras megalómanas, os do PSD cuidam ter encontrado no PS quem os ajude a descalçar a bota, quando se tratar de reduzir as despesas ou, em alternativa, de aumentar outra vez a água, as várias taxas e as licenças de obras. Os socialistas, por sua vez, julgam ter conseguido enganar a noiva, ao arrebatar vários lugares mais ou menos lautamente remunerados, nos quais presumem poder vir a fazer boa figura. Tal é a visão exterior das coisas.
Indo mais ao âmago da questão, o PSD pode considerar-se desde já o mais beneficiado com o acordo que assinou, caso não venha a cometer erros em excesso. Com efeito, não só o relatório inspectivo agora revelado os deixa num estado lamentável em termos de credibilidade, mas graças ao PS poderá não ter qualquer efeito negativo a médio prazo, como o facto de não terem planos nem folgas orçamentais para fazer o que quer que seja durante este mandado, os obrigava a encontrar um parceiro de sacrifício. Subscrevendo o acordo sem quaisquer exigências, para além dos já citados lugares, os socialistas limitaram-se, na realidade, a colocar o pescoço no cepo, para a tradicional degola dos inocentes. Não podendo, por falta de recursos humanos e materiais, vir a desenvolver qualquer trabalho de relevo nos seus pelouros, apresentar-se-ão ao eleitorado, mais cedo ou mais tarde, tão queimados como os seus comparsas da coligação. E sem qualquer hipótese de cabal justificação do erro cometido no início do mandato. As cadelas apressadas...
Nestas condições, se quiserem e souberem, os IpT poderão vir a ser a única alternativa com peso aquando da próxima consulta eleitoral. Por agora bastar-lhes-á recorrer menos às declarações de voto e mais à cabal e contínua informação dos cidadãos, sobre tudo aquilo que acontece, tanto no executivo como no deliberativo.
A única esperança real do PS eram as alterações ao PDM, no sentido daquilo que vêm apregoando há mais de um ano. Infelizmente para eles, o seu próprio partido acaba de promulgar, a nível nacional, legislação que na prática torna inviável qualquer manigância ou alteração menos ortodoxa, ao sobrepor-se à regulamentação local. Azar das nossas tropas !
Sendo assim, e tudo indica que é, deixa de ter qualquer utilidade prática a guerrilha já iniciada pelos recém-casados contra os IpT, designadamente na Junta de Freguesia de S. João Baptista. Afinal, os independentes de Pedro Marques não têm culpa nenhuma se os socialistas, num momento crucial, foram incapazes de vislumbrar algo para além da ponta do nariz. O poder deslumbra os incautos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

UMA CERIMÓNIA FORMATADA À ANTIGA


Perante uma assistência de cerca de cem munícipes, tomaram posse esta tarde, no salão nobre dos Paços do Concelho, os candidatos eleitos para o executivo e para a Assembleia Municipal. Logo a seguir, teve lugar a eleição da mesa do parlamento local. Apresentaram-se duas listas, uma PSD/PS, com Miguel Relvas (presidente), Fernando de Jesus e José Pereira; outra dos IpT, com Jorge Neves em primeiro lugar. A lista de Miguel Relvas obteve 25 votos, contra 8 para a de Jorge Neves, e 3 votos brancos. Seguiram-se as intervenções de Corvêlo de Sousa e de Miguel Relvas.
Toda a cerimónia foi de uma monotonia e de um convencionalismo como já não se usam em lado nenhum. Não houve um rasgo de imaginação, nem sequer nos dois discursos, totalmente previsíveis, com as tradicionais generosas generalidades, desta vez, ao que nos pareceu, demasiado genéricas. O formato escolhido, ou apenas consentido, revelou-se manifestamente pífio. Em pleno século XXI, na Europa ocidental, e tendo em linha de conta os costumes e as várias leis sobre a protecção de dados pessoais, bem como o respeito pela vida privada, a longa série nome, idade, profissão, morada, número do documento de identificação, de cada eleito, arrastou- nos para a primeira metade do século XX e para os regimes policiais. Haverá certamente quem disso se não tenha dado conta, por estar sempre conformado com as normas do rebanho. Mas é uma coisa ridícula tornar públicos elementos de índole privada, que podem até vir a tornar-se perigosos, sem contudo adiantarem o que quer que seja para a regularidade do acto. Sobretudo numa terra pequena como a nossa, onde todos se conhecem. A haver uma hipotética tentativa de troca de identidade, logo se daria por isso.
Se alguma vez ingleses, americanos ou australianos tentassem copiar este triste formato, estavam bem arranjados - em nenhum destes países existe bilhete de identidade, ou coisa parecida. A não ser o passaporte, por razões óbvias. Mais uma prova de que por estas bandas adoramos a política manuelina e as minhoquices só para mobilar. É o tal problema luso -enquanto os ingleses e outros anglo-saxónicos não se cansam de proclamar que "time is money", nós por cá gostamos mais de dizer que "o tempo dá-o Deus Nosso Senhor de borla. E paga-o o Estado."
Com semelhante mentalidade, havemos de ir longe, havemos !!!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

PSD/PS: ACORDO DE MANCEBIA POLÍTICA

Em conformidade com o aqui noticiado anteriormente, (ler "PS e PSD dialogantes, mas..." e "Relvas:reeleição garantida", de 21 do corrente) Luís Vicente e Hugo Cristóvão, presidentes respectivamente do PSD e do PS, anunciaram e assinaram, hoje ao final da tarde, no Hotel dos Templários, um acordo de mútua colaboração política, tendo em vista a estabilidade do poder autárquico durante os próximos quatro anos. Assistiram ao acto solene, além da comunicação social, todos os nele envolvidos como eleitos (executivo e assembleia), bem como a deputada Anabela Freitas, substituta de Jorge Lacão, entretanto indigitado ministro das relações com o parlamento. As duas intervenções de ocasião pouco ou nada trouxeram de novo, como era expectável. Respondendo depois às perguntas dos jornalistas, foi dito que caberá ao presidente eleito, após tomar posse na próxima segunda-feira, a partir das 17 horas, nos Paços do Concelho, indicar quais ou pelouros e outras funções que irão desempenhar os novos eleitos de ambos os partidos. Apenas Hugo Cristóvão foi um pouco mais além, admitindo que a reeleição de Miguel Relvas está assegurada, confirmando assim o que aqui foi escrito em 21 do corrente (ver mais acima).
Apesar do natural mutismo dos líderes partidários, Tomar a dianteira pode avançar que, na futura mesa da assembleia municipal, haverá um eleito do PS, muito provavelmente Hugo Cristóvão. José Vitorino terá a seu cargo a presidência dos SMAS e, eventualmente, o pelouro do turismo, que já foi seu durante o mandato de Jerónimo Graça. Luís Ferreira, por seu turno, deverá ficar como vereador a tempo inteiro, com os bombeiros, protecção civil, cemitérios e saúde.
Assinale-se igualmente que, apesar de Hugo Cristóvão ter falado de "posição inovadora", referindo-se ao protocolo acabado de firmar, tal não parece ser o caso. Luís Bonet sempre colaborou com a maioria autártica enquanto foi vereador, outro tanto tendo feito Maria Augusta Dias Costa, na presidência de Jerónimo Graça.
Terá portanto início na próxima segunda-feira a primeira fase da lua de mel PSD/PS. Logo veremos quanto tempo vai durar. Certo é que a anunciada política de negociação e entendimento não vai ser nada fácil. Não só devido à ultra-complicada situação da autarquia, designadamente em termos de finanças e de gestão rigorosa das instalações, das máquinas e veículos de transporte e dos recursos humanos, mas também porque os sociais-democratas apenas parecem ter, como programa a implementar, uma série de obras. Umas de duvidosa utilidade, outras de nula oportunidade. Todas por assim dizer francamente irrealistas na actual conjuntura económica. Que solução negociada, por exemplo, para o mercado municipal, o fórum, a ligação pela mata, o parque de estacionamento de 33 lugares a meio da encosta do castelo, os vários museus previstos para a Levada, e a fase seguinte do Polis XXI ? O futuro a nível local, além de negro, promete vir a ser bastante animado. Animador é que não. Mas oxalá estejamos a ser demasiado pessimistas...

domingo, 4 de outubro de 2009

OS ARTISTAS E OS RESPECTIVOS REPORTÓRIOS

Conforme já aqui foi referido, a iniciativa da Rádio Hertz com o conjunto dos cabeças de lista correu bem, como é costume dizer-se, mas não trouxe nada de novo. O formato escolhido, sem dúvida o mais confortável para os intervenientes activos, tal não permitia. A longa série de 28 monólogos de 5 minutos, separados por buchas circunstanciais de Sérgio Martins, umas excelentes, outras nem tanto, permitiu, não obstante, registar alguns detalhes, que reputamos com interesse para aqueles eleitores que fazem o favor de nos ler. Praticamente "em roda livre" durante cada intervenção, os candidatos sentiram que não era necessário pedalar, mas simplesmente aproveitar a descida, pelo que se limitaram a debitar alguns números dos seus respectivos reportórios, mais ou menos vastos. Demo-nos conta disso quando, intrigados com tanta descontracção e conscientes de que no próximo Domingo cada eleitor terá de votar, quer queira quer não, num lote de candidatos, a menos que decida votar branco ou nulo, resolvemos ouvir algumas partes das longas entrevistas por eles concedidas à mesma Rádio Hertz. Conforme já tínhamos suspeitado, ouvimos os mesmos temas, ditos com as mesmas frases, salvo raras excepções. Ou seja, o discurso está em geral bem estudado, mas é apenas isso. Um discurso e nada mais. O importante é ganhar. Depois logo se verá !
Manda a verdade dizer que nos pareceu claro, mais uma vez, haver uma diferença muito nítida entre os cabeças de lista praticamente reincidentes (Pedro Marques, José Vitorino, Corvelo de Sousa), e os restantes quatro. Aqueles voltam a apresentar, em geral, muitos temas já sufragados anteriormente de forma negativa. Agem como se entre 2005 e 2009 não tivesse havido uma gravíssima crise mundial, nem um considerável e evidente agravamento da crise local. Enquanto isso, os quatro estreantes (José Lebre, Ivo Santos, Bruno Graça, António Godinho) trazem algumas ideias novas, havendo até a situação insólita de Bruno Graça, representando uma força que tradicionalmente pensa sobretudo em nacionalizar a mais-valia, ser agora o único a propor o incremento da produção de riqueza a nível local. As voltas que o tio Álvaro deve dar no túmulo! Só falta mesmo Ivo Santos ousar alvitrar a nacionalização da banca... da Platex e da João Salvador!
Dito isto, que não é nada pouco, somos todavia forçados a constatar que nos parece não ter nenhum dos candidatos um projecto susceptível de nos permitir inverter a marcha para o abismo. Particamente, todos acham que terá de ser pelo turismo e pelo lado dos serviços. Porém, quando questionados sobre o modus operandi, cada qual limita-se a falar daquilo que sabe. Arquitectura e urbanismo para Lebre e Vitorino, Legislação adequada para Pedro Marques e Corvêlo de Sousa, Investimento privado para Ivo Santos, Mais investimento público em cultura e turismo, para Bruno Graça e António Godinho. É largamente insuficiente. Com o devido respeito, quer-nos até parecer que estão todos um pouco como aquele galego da anedota. Conta-se que, por volta de 1950, quando os galegos ainda se expatriavam para Lisboa e Porto, um deles foi pedir emprego a uma determinada pastelaria. O hipotético patrão perguntou-lhe o que sabia fazer, ao que o nosso homem respondeu que tudo. -Então também sabes fazer chá ?! Pois sei, patrão ! Então diz-me lá como é que se faz. Pega-se nuns grãozinhos castanhos, põem-se no moínho, dá-se à manivela, sai um pó castanho, põe-se no saco... Mas isso é café !!! Pois é patrão ! Mas afinal sabes fazer chá, ou não !? Sei sim, patrão ! Então explica-me lá como é ! Pega-se nuns grãozinhos castanhos, pôem-se no moínho, dá-se à manivela... Outra vez ??!! Mas isso é café ! Pois é patrão !
Assim parecem estar os candidatos. Concordam que há crise, que a crise é grave, que a situação é calamitosa e que se agrava aceleradamente a cada dia que passa, que é preciso fazer algo com urgência, mas continuam a debitar a mesma cantilena -mais o museu disto, mais o museu daquilo, mais a obra X, mais a obra Y, mais uma repartiçao aqui, mais outra acolá, e por aí adiante, como quem pretende (quiçá sem disso estar consciente) apagar o fogo da crise com a gasolina de mais despesas certas e permanentes, nitidamente sem qualquer hipótese de retorno à altura das necessidades. A continuar por tal caminho, o próximo elenco camarário será forçado não só a contrair novos empréstimos para pagar a fornecedores como até, a partir de certa altura, para assegurar as remunerações dos funcionários. Se houver quem conceda tais empréstimos, pois logo que tome posse, o futuro governo, pressionado pela UE a tomar medidas tendentes a reduzir o assustador défice público, anunciará severas medidas de austeridade. E até nem ficará descontente se alguma, ou algumas autarquias, sobretudo se lideradas pelo PSD, forem forçadas a declarar-se em estado de cessação de pagamentos. Será um excelente ensejo para moderar os tradicionais ímpetos sindicais, bem como os de todos aqueles cuja manifesta ignorância em economia os leva a pensar que o Estado possui uma máquina de fazer notas, pelo que basta pô-la a funcionar para resolver qualquer problema... Isto é que vai uma crise ! Exclamava Ivone Silva no século passado. Há certas coisas que quanto mais mudam, mais estão na mesma. Oh se estão ! Já em 1928, Salazar veio governar para resolver a crise das finanças públicas. Todos sabemos o que aconteceu a seguir...

sábado, 19 de setembro de 2009

DIA 27 CONTRA A CRISE VOTAR ! VOTAR !


António Rebelo

Quando ainda estava convencido de que, com o agravar da crise, os tomarenses começariam a "dar o corpo à curva", prometi aqui mesmo que, no momento oportuno, revelaria o meu sentido de voto. Chegou a altura de cumprir o prometido, embora já esteja persuadido de que a esmagadora maioria dos tomarenses nada vai ligar ao que agora escrevo, pois como habitualmente são especialistas seja de que assunto for. E então em matéria de política, nem vale a pena tecer mais comentários. Vamos portanto ao âmago da questão.
No próximo dia 27, como em qualquer outra eleição, são múltiplas as hipóteses para os cidadãos responsáveis e respeitadores, que não se refugiam na pseudocomodidade da abstenção, na realidade uma forma encapotada de cobardia. Mais uma. Antes de mais, o cidadão eleitor deve ponderar bem o que pretende fazer e escolher uma de duas possibilidades basilares -Escolher ou protestar. Se optar pela escolha, terá depois de começar por caracterizar melhor o que deseja escolher -O seu partido habitual? O partido que na sua opinião vai vencer? O partido que quanto a si apresentou o melhor projecto para o país, que somos todos?
Se, pelo contrário, optou pelo protesto, então terá de escolher entre o voto branco, nulo, ou num dos pequenos partidos que você considere mais agressivos. O voto branco conta como voto para o apuramento das percentagens finais (o que não sucede com as abstenções), mas se desconfia que alguém poderá acrescentar-lhe depois uma cruz onde mais convier, não arrisque; vote nulo, inutilizando o seu boletim como melhor entender (uma cruz a todo o tamanho do papel, uma cruz em cada quadradinho, para ninguém ficar zangado, ou uma frase curta e saborosa à sua escolha). Além do voto branco e do voto nulo, há o voto nos chamados partidos de protesto ou partidos dos extremos.
Com implantação a nível nacional, há três partidos de protesto, dois na extrema esquerda -CDU e Bloco de Esquerda- e um na extrema direira -o CDS.
Tanto a CDU como o BE são excelentes para protestar e para obstar a que o governo, seja ele qual for, cometa demasiados abusos. Não têm, no entanto, qualquer hipótese de vir a formar governo. Nem essa é a sua intenção. Por isso mantêm nos seus programas respectivos, de forma directa ou subentendida, a nacionalização da banca e das principais empresas nacionais. Dado que o país não teria dinheiro para liquidar indemnizações justas, tal acto seria considerado uma confiscação, o que implicaria a nossa expulsão imediata da União Europeia, com a consequente retirada da zona euro e o inevitável regresso ao escudo, para já não falar da fuga de capitais e de pessoas de posses, como sucedeu em 1974/75/76.
É certamente por isso que o PCP -Partido Comunista de Chipre, está no governo daquela ilha há mais de dois anos, mas limita-se a praticar uma política moderada.
Outra hipótese de protesto consiste em votar à direita, no CDS. Paulo Portas é sem sombra de dúvida um homem inteligente, mas as suas constantes referências à segurança, às forças da ordem, às forças armadas e à necesidade de rever as condições de atribuição do Rendimento Mínimo de Inserção, são algo inquietantes para alguns que ainda não esquecram o passado sombrio. Por volta de 1930, um professor universitário ex-seminarista chegou ao governo para manter a ordem, restabelecer a segurança e equilibrar as contas públicas. Disse então a célebre frase "Sei muito bem o que quero e para onde vou." Tinha razão. Só abandonou a cadeira do poder quando esta se partiu, 38 anos mais tarde.
É claro que Paulo Portas nunca faria uma coisa dessas, acho eu. Em todo o caso, o outro andou no seminário e Portas concluiu a sua formação nos jesuítas, em Paris.
Restam-nos os dois grandes candidatos à liderança do próximo governo: o PS e o PSD. Para muitos eleitores, os socialistas cometeram muitos erros e devem por isso ser punidos. Não partilho de tal opinião, pois nunca conheci um governo que não cometesse erros graves e, também, porque quem está no poder tem quase sempre mais experiência do que a oposição. Houve e há a questão dos professores, mas trata-se de um conflito bem mais amplo do que parece e caracterizado por excessiva hipocrisia de parte a parte. Da parte do ministério, porque pretende avaliar os professores com algum rigor, mas não consente que estes façam outro tanto com os alunos. Da parte dos docentes, porque dizem sempre que querem ser avaliados, mas não ousam acrescentar "nas mesmas condições dos nossos alunos", o que significaria uma avaliação praticamente sem grandes consequências. Acontece que o governo não está, nem nunca estará, de acordo com tais pontos de vista, por duas razões fundamentais: 1 - Porque não quer desagradar aos pais e encarregados de educação; 2 - Porque não tem recursos que lhe permitam pagar a todos os professores mais tarde ou mais cedo no topo da carreira, de acordo com o anterior ECD, pelo que terá sempre de haver barreiras à progressão.
Pelas bandas do PSD, ainda não apresentaram qualquer alternativa credível. Têm-se limitado até agora o dizer que, se vierem a formar governo, anulam isto, rasgam aquilo, modificam assim, corrigem assado. Em pouco tempo, a sua presidente falou em suspender a democracia por seis meses, gabou a actuação do bronco Jardim e hostilizou escusadamente os espanhóis. São demasiadas asneiras em tão curto espaço. Para mais, vindas de quem, quando foi ministra da educação, instituiu o exame obrigatório de acesso ao 8º escalão (mais tarde anulado por Guterres) e proibiu os professores de falarem à comunicação social.
Usando uma linguagem de cariz burocrático, finalizo dizendo que, tudo visto e devidamente ponderado, não posso deixar de votar PS, no próximo dia 27. Que cada eleitor saiba assumir as suas responsabilidades, são os meus votos.

Nota final: "Tomar a dianteira" continuará à inteira disposição dos habituais leitores, mas interrompe aqui as suas publicações diárias. Tencionamos recomeçar no dia 27 de Setembro, ao fim da tarde. Muito obrigado pela vossa atenção.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

SEM PAPAS NA LÍNGUA

Que saibamos, muitos murmuram, por aqui e por ali, mas nunca ninguém o disse, (pelo menos nestes últimos tempos), com tanta frontalidade. E Saldanha Sanches sabe de certeza daquilo que fala. Intitula-se simplesmente fiscalista, mas é uma das melhores e mais honestas cabeças deste país. Conviveu na faculdade com muitas das actuais figuras de topo, militou na extrema-esquerda bem antes do 25 de Abril, o que não era nada confortável e foi preso pela PIDE. Mas nunca se aproveitou de tão honroso currículo. É casado há muitos anos com a conhecida magistrada Maria José Morgado. Pensamos por isso que valerá a pena ler e meditar este seu escrito, publicado no EXPRESSO. (clique no texto para ampliar)

sábado, 4 de julho de 2009

A VARA TORTA E A SUA SOMBRA

António Rebelo
Nos anos 80 do século passado, quando eu ainda estava na política activa e escrevia, no "Cidade de Tomar", de forma agreste contra a então maioria da AD, o conhecido tomarense Fernando Nini Ferreira disse-me uma vez: -"Tu andas a querer endireitar a sombra de uma vara torta. Por isso nunca vais conseguir nada." Quase trinta anos mais tarde, reconheço de bom grado que o ilustre tomarense viu bem a situação.
Tal como eu então, o novo movimento de independentes critica severamente, com toda a razão, a actual maioria PSD. Escrevem eles, no ponto 2 do manifesto recentemente publicado: "A Câmara tem que apoiar, agilizar procedimentos, rever urgentemente os seus regulamentos e taxas para combater a perda de investimento e definir medidas concretas e reais que tornem Tomar um concelho atractivo e evoluído para investir."
Por outro lado, na reunião camarária da passada terça-feira, 30 de Junho, o vereador do PS leu e entregou uma longa declaração de voto, a qual pode ser lida integralmente (por quem tenha paciência para tal) em www.psdigital.org . Dela destacamos a seguinte passagem: "Temos, por isso mesmo grandes dúvidas sobre a solução de criação de "um estacionamento escavado na encosta e de inserção perpendicular à estrada de acesso ao Convento e à Calçada de Santo André "[Calçada dos Cavaleiros, esclarece Tomar a dianteira], para criar 34 lugares de estacionamento. Este é um projecto repisado da teimosia do anterior presidente da câmara do PSD, que como todos sabemos em cada Parque de Estacionamento que colocou o dedo, fez disparate. Aconselhava o bom senso que não se interviesse na encosta, sem se discutir devidamente o caminho a tomar relativamente ao modo de acesso primordial ao Convento."
Em ambos os casos, os que reclamam providências referem claramente factos importantes, que todavia mais não são que meras consequências de uma determinada situação de facto. E essa situação pode ser resumida da forma seguinte. Os compromissos das diferentes formações partidárias, forçam as várias gestões autárquicas a contentar diversos grupos sociais em presença. Por lado, as empresas de obras públicas, que ajudam a financiar as campanhas eleitorais e pagam assessorias a parlamentares e outros, querem um máximo de concursos públicos, única forma de rentabilizarem os investimentos feitos. E temos assim cada vez mais casos de "obras pelas obras", que o mesmo é dizer empreendimentos cuja utilidade pode ser tudo menos evidente. Em Tomar, temos alguns parques de estacionamento, a ponte do Mouchão para o antigo estádio e o paredão do Flecheiro.
Por outro lado, há que pagar favores e aproveitar para ir colocando "gente de confiança" em lugares estratégicos. É assim que a autarquia, no seu conjunto, aboleta actualmente cerca de 500 funcionários -mais ou menos um funcionário para cada 80 eleitores. É obra! E depois ainda há os professores, os serviços de saúde, as finanças, o tribunal e o quartel. Um verdadeiro exemplo de economia tutelada pelo Estado e, portanto, custeada pelos contribuintes.
Tudo isto para dizer que, tanto a reivindicação sobre as licenças, taxas e trâmites administrativos, como os votos contra as diversas obras sem utilidade óbvia e/ou de prioridade muito duvidosa, mais não são que vãs tentativas para endireitar a sombra da vara torta.
Nos dois casos, sem uma acentuada e urgente racionalização dos recursos humanos da administração local, naturalmente precedida de adequada auditoria externa, e uma vez ouvidos todos os funcionários, a câmara continuará refém da situação actual, tolhida de pés e mãos, na prática incapaz de fazer o que quer que seja em prol do progresso local. Não adianta ter ilusões, pois como gostava de escrever Vítor Cunha Rego, "As coisas são que são." A Câmara só poderá tomar medidas que impliquem redução das receitas, depois de ter conseguido diminuir as despesas. Quem vai ousar fazê-lo e perder assim milhares de votos?

terça-feira, 19 de maio de 2009

SITUAÇÃO POLÍTICA LOCAL

António Rebelo
A três semanas das eleições para o parlamento europeu, a situação nas margens do Nabão parece-me deveras peculiar. Como é hábito, de resto. Quando cheguei a Veneza no passado dia 3, já estavam nos seus devidos lugares os painéis municipais obrigatórios, para a afixação da propaganda eleitoral. No caso, tinham até sido colocados por uma empresa especializada, contratada pela autarquia. O mesmo aconteceu nas restantes cidades que tive o gosto de visitar (Pádua, Verona e Vicenza).
Aqui em Tomar, mais de duas semanas depois, nada. E a oposição também ainda não julgou útil protestar contra tal estado de coisas, que só pode resultar de lamentável falta de zelo. Mais uma.
Devem considerar, tal como a local maioria PSD, que de Bruxelas só interessam os fundos europeus, os substanciais vencimentos dos membros da Comissão Europeia, e os chorudos ordenados dos deputados com assento em Estrasburgo. O resto é sempre uma maçada e das grandes. Só assim se explica o tal esquecimento dos painéis, mas também aquela palavra de ordem de "soberania" na propaganda da CDU. Se calhar estarão convencidos de que, num país que precisou de dinheiro de Bruxelas para acabar a auto-estrada Lisboa-Porto, na qual agora se paga portagem, apesar de feita com o dinheiro dos contribuintes portugueses e europeus; estarão convencidos, dizia eu, de que alguém come "soberania" a alguma das suas refeições diárias.
Das outras formações políticas, só o PS e o Bloco consideraram até agora útil mostrar ao povo votante alguma propaganda. "Nós europeus", para os socialistas, "Justiça na economia" para os bloquistas. Os outros nem ai nem ui. Os seguidores da Dona Manuela têm-se contentado com um algo enigmático "Não desista. Todos somos precisos". Os do senhor Portas são tão raros por estas bandas que nem se manifestam, se calhar com receio de poderem vir a ser confundidos com caça grossa. Numa terra de gente basicamente ainda com terra agarrada aos tacões, rústica portanto, todos os cuidados são poucos.
Outro aspecto que chama a atenção é a corrida autárquica, que nunca mais acaba de começar. Nesta altura da competição, só o PS é que afixou grandes cartazes com o dístico "Geração Tomar". Vai daí, à falta de outras mensagens sobre o mesmo tema, os eleitores não tardaram a reagir à boa maneira tomarense. Segundo aquilo que consegui apurar, mas posso estar parcialmente enganado, face àquela mensagem socialista, as reacções do potencial eleitorado podem ser divididas em três grupos, de tamanho desigual. O mais importante é o daqueles que simplesmente não entendem o que se pretende dizer ou fazer com o tal "Geração Tomar". Um outro grupo, bastante mais pequeno, engloba os que se sentem ofendidos. Dizem que se consideram esta a "Geração Tomar", isso quer dizer que os anteriores e os que vierem a seguir só poderão ser de fora de Tomar, apesar de cá viverem, traidores da cidade ou, pior ainda, filhos de senhoras menos sérias. O terceiro grupo, enfim, é o da malta mais na crista da onda. Gente com menos de 40, para quem os outros são todos ou "velhos" ou "cachopos". Pois dizem eles, em tom da chacota que "Geração Tomar, só se for Tomar atrás." Quando interpelados sobre a eventual falsidade e brejeirice da extensão, logo retrucam -"Falsidade? Acha que Tomar está a avançar ou a ficar atrás?". Não há dúvida, os dirigentes do PS local meteram-se mesmo numa alhada de todo o tamanho. E é pena, que até iam aparentemente bem lançados...
Perante isto que acabo de escrever, o presidente Hugo Cristóvão é capaz de vir tentar outra vez explicar as escolhas feitas. Tem naturalmente todo o espaço deste blogue à sua disposição, mas julgo que será trabalho em pura perda. Digo isto porque, na comunicação em geral e na publicidade em particular, o que conta não é aquilo que se pretende transmitir, mas sim e exclusivamente o que os destinatários recebem. E contra isso batatas! O mal está feito e amanhã é outro dia.
Quanto às outras formações políticas locais, a situação é a habitual -clara como o dorso de um melro. No PSD apenas se sabe quem será o cabeça de lista e o seu segundo, embora se murmure há muito tempo quem será o terceiro. A terceira, para ser mais preciso. Na CDU há fundadas suspeitas de que Bruno Graça acabe por aceitar encabeçar a lista. No Bloco o silêncio é de rigor. Os independentes, por seu lado, anunciaram já os três primeiros, mas quanto a grandes linhas programáticas, nicles. O próprio PS, apesar de liderar a corrida da afixação de cartazes, ainda não julgou útil indicar quem irá conjuntamente com Vitorino.
Há depois a hipótese de outras listas independentes. Naquilo que me diz respeito, julgo já ter sido suficientemente claro. Como nenhum dos candidatos já conhecidos me convence, sou forçado a manter-me disponível para qualquer hipótese viável que os eleitores tomarenses achem útil e até indispensável para a cidade e o concelho. Mas só isso. Ou seja: não me poderei recusar, por uma questão de coerência, e para não ter de ouvir mais tarde que não havia alternativa, mas só avançarei se houver um apoio largamente explicitado. Caso assim não suceda, prefiro continuar aqui no blogue e nas viagens, que são actividades bem mais agradáveis. Como dizia em privado o saudoso Cartaxo da Fonseca, o "pai" da actual biblioteca municipal, "Os tomarenses não são nada fáceis de aturar". E não é que tinha razão!?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

TRÊS CARTAZES POLÍTICOS

Quando há 15 dias se criticaram aqui alguns aspectos do primeiro cartaz pré-eleitoral do PS/Tomar (Ver "Candeias, cadelas e cartazes" de 1 dio corrente), houve dois tipos de reacções. O responsável socialista local, Hugo Cristóvão, usando uma linguagem escorreita e cordata, procurou contra-argumentar, de forma a justificar os erros detectados. Outros leitores, a coberto do anonimato e no melhor estilo tomarense, insinuaram que as críticas avançadas tinham origem no facto de haver um administrador deste blogue que estava ressabiado por ter perdido contra o agora candidato oficial José Vitorino. Conhecedores do meio nabantino e das suas taras, decidimos então manter um prudente silêncio sobre essa vertente.
Largos dias têm cem anos, no Público de 11 de, última página, o historiador Rui Tavares, que não foi vencido por Vitorino, não devendo por isso estar ressabiado, escreveu a dado passo: "O cartaz do... ...é também insólito. Oferece-nos um ... ... fotografado de baixo para cima, lá nas alturas e nas dimensões que um outdoor permite (má escolha, como qualquer estudante de fotografia sabe: o plano contrapicado sugere arrogância ou convencimento, tal como o plano picado sugere insignificância ou desorientação). (o negrito é nosso). Dado que o arq. Vitorino sempre foi conhecido na cidade como convencido, orgulhoso, arrogante, maniento, e os outros mimos do género, não há qualquer dúvida de que os mercadólogos do PS acertaram na "mouche". Ou estavam simplesmente com a dita?
E decidimos, por agora, passar sob silêncio a "Geração Tomar" que leva logo a pensar na "geração rasca", de bem triste memória...

Após aquele cartaz de índole "fazendista" (tendência de Luis Fazenda, deputado e dirigente do BE, ex-dirigente da UDP) a proclamar "A todos o que é de todos", referindo-se à Galp, à EDP e aos seus lucros significativos, mas perfeitamente legítimos, desta vez os mercadólogos do BE acertaram plenamente, no nosso entender. Deve ter prevalecido a tendência "sacerdote Louçã", pensamos nós.
Vale a pena olhar com atenção o cartaz: camisa vermelha, mais revolucionária, logo equilibrada com a azul, cor tradicional dos conservadores; ar aberto, dialogante, olhos nos olhos, à mesma altura do logótipo do BE, vê-se "em cada rosto igualdade", como no "Grândola vila morena"; o modesto apelo ao voto, tuteando o leitor, forma subtil de tentar anular o pejorativo epíteto de "esquerda caviar", pois como é sabido, nesse meio o "você" é sempre de rigor, mesmo entre pais e filhos, ou entre marido e mulher.
Há depois a palavra de ordem escolhida. "justiça na economia" (tudo em minúsculas, para não levantar suspeitas de basófia), é uma forma habilidosa de tentar levar a água ao seu moinho sem excluir. Repare-se que o lema até é reversível. Economia na justiça seria bem acolhida e uma das acções mais susceptíveis de melhorar a actual situação catastrófica nesse sector tão criticado por quase todos os cidadãos. "Se eu pudesse dar uma sentença em cinco folhas, não a daria em 25, mas não somos nós que fazemos as leis do país...", disse-nos recentemente um magistrado.

Falar do PCP, do PEV, da CDU ou dos respectivos dirigentes e/ou membros equivale praticamente a caminhar num terreno minado. Apesar disso, como há aqui no blogue um administrador que foi especialista de minas e armadilhas durante o serviço militar obrigatório, parte do qual feito em Angola, tal como Manuel Alegre, decidimos avançar, conscientes dos perigos a que nos expomos, porque sem coragem e exercício das obrigações de cidadania, não pode haver democracia realmente saudável.
Este cartaz da CDU, com as cores do país em fundo, maiúsculas garrafais e termos vagos, não nos parece nada indicado para os tempos conturbados que atravessamos. Marcha para quê? Protesto contra quê? Confiança em quê? Nas tais prometidas auroras radiosas? Luta? Como? Quando? Onde? Contra quê? Contra quem? A favor de quê? Nova política? Pois sim senhor. Mas qual? Uma vida melhor? Inteiramente de acordo. Mas em que aspectos? Com que meios? Onde estão os recursos?
Como qualquer outro país de regime democrático pluralista, precisamos de uma oposição forte, determinada, credível, eficaz, em sintonia com o mundo que "pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança". Com sectarismos, com uma linguagem essencialmente "para dentro", com ilusões, com generosas generalidades atractivas, com omissões intencionais, não conseguiremos ir a lado nenhum.
Com o devido respeito por muitos anos de luta em prol de um país mais livre, mais justo e mais fraterno, permitam-nos o recurso ao estilo típico dos camaradas alentejanos: Sejam dignos dos que muito sofreram! Sejam claros! Expliquem-se, porra!!!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

AS COISAS COMO ELAS SÃO...

Uma vez realizadas as eleições para o Parlamento Europeu, cuja pré-campanha já começou, as diversas formações políticas iniciarão uma longa campanha, visando obter bons resultados, tanto nas legislativas como nas autárquicas. Em ambos os casos, distribuirão pelo eleitorado milhares e milhares de impressos, geralmente muito vistosos e com uma linguagem atractiva. No âmbito autárquico vão até, com toda a certeza, publicar aquilo a que chamarão "programas". Tratar-se-á, na melhor das hipóteses, de meras listagens de (boas) intenções, que supostamente serão executadas durante o mandato, caso ganhem as eleições, caso haja cabimento orçamental, caso a União Europeia subsidie...
No que se refere ao nosso concelho, qualquer dos tais "programas eleitorais", ou de candidatura, deve ser lido e interpretado com todas as cautelas, nunca esquecendo que alinhar argumentos e boas intenções é extremamente fácil. No passar à prática é que aparecem os problemas, em quase todos os casos inultrapassáveis.
O primeiro e enorme obstáculo é o cabal conhecimento da situação da autarquia, condição indispensável para que os redactores dos citados documentos possam produzir trabalhos credíveis. Acontece, todavia, que neste momento ninguém sabe ao certo, nem mesmo a actual maioria PSD que nos governa a nível local, qual é o verdadeiro panorama local em termos de estruturas, eficácia, custos e benefícios dos serviços autárquicos, incluindo os SMAS. Tal "fotografia", ou série de "fotografias", só poderão ser elaboradas após auditoria a todos os serviços. Não uma auditoria do tipo sindicância, visitando apurar responsabilidades, mas uma acção informativa previamente preparada e orientada para a abtenção das respostas que se pretendem. Sem nunca perder de vista que, regra geral, só se encontra aquilo que se procura.
Por motivos que a generalidade dos cidadãos eleitores e pagadores não entendem, basta falar em auditoria para que os responsáveis interessados comecem logo a tentar mudar de assunto, a assobiar para o lado, ou a fingir que não ouviram ou não perceberam nada. Porque será?
É óbvio que tal iniciativa implica gastos relativamente avultados, numa altura em que a situação económica da autarquia pode ser tudo menos brilhante. De qualquer modo, é evidente que sem dados precisos e actuais, qualquer documento eleitoral não passará de mera propaganda, tendo em vista unicamente intrujar os eleitores, apesar de, naturalmente, os seus autores garantirem o contrário, até com as mãos postas, se for preciso.
Perguntarão os leitores, incluindo os autarcas e responsáveis partidários -Mas uma auditoria para apurar o quê? Embora sabendo de antemão que uma vez lido este texto, praticamente todos garantirão que "estava-se mesmo a ver que era assim!", "melhor o gajo estivesse calado!", aqui vão algumas pistas.
Antes de mais, determinar quantos são os funcionários, onde estão colocados, que tarefas desempenham realmente e qual é a cadeia hierárquica, desde quando e porquê. Depois, fazer o rastreio das instalações, serviço a serviço, gabinete a gabinete. A seguir, elencar os edifícios ou parcelas alugadas e respectivas afectações, bem como os imóveis propriedade da autarquia e para que servem concretamente. Finalmente proceder aos cruzamentos necessários para obter custos mensais e anuais, bem como as receitas cobradas. Sem pelo menos isto, nada feito! Subsistirá sempre a desculpa sacramental -"Sabe, nós bem tentámos, mas as dificuldades foram tantas que resolvemos aguardar por melhores dias." Que nunca mais virão, se nada for alterado entretanto. E o progresso não pára, nem os outros concelhos vão ficar à nossa espera...

quarta-feira, 25 de março de 2009

E DEPOIS QUEREM QUE ISTO MUDE... 2

Público

Quando decidimos escrever lateralmente sobre o desporto em geral e o futebol em particular, a propósito dos inscritos nos vários partidos políticos, já nos palpitava que iríamos ter respostas tipo cão "basset", o mesmo é dizer meio cão de altura e cão e meio de comprimento. Por isso, resolvemos seguir o conselho de alguém aqui do blogue, que considera indispensável guardar sempre o dobro das munições da primeira rajada para as rajadas seguintes. Face aos comentários já lidos, que são sempre bem-vindos desde que educados, parece-nos útil acrescentar o que segue. Sem rancor ou espírito de vingança. Apenas para tentar esclarecer.
"A opinião é livre, os factos são sagrados" ouvem os alunos em qualquer escola de jornalismo. Infelizmente nem todos se recordam sempre disso em todas as suas intervenções, escritas ou não. E então quando nem sequer se lá andou, ou se frequentou um estabelecimento menos conceituado, chega a ser uma verdadeira desgraça.
Neste assunto, conforme qualquer leitor poderá verificar, não emitimos qualquer opinião, positiva ou negativa. Houve a preocupação de apenas elencar factos, respeitando-os rigorosamente. Nauseados com o escrito, leitores responderam como quase sempre fazem -com meras opiniões não fundamentadas e procurando, nalguns casos, ofender quem ousou apresentar factos que são incontroversos. É o que se chama, se não erramos, "desviar para fora", aproveitando, pelo menos num caso ou dois, para tentar dar uma canelada no adversário.
Usando novamente apenas factos do conhecimento geral, comparemos duas situações. Um simples erro do árbitro, que ele admitiu na TV 24 horas mais tarde, tem provocado rios de tinta e de saliva, debates, entrevistas, comentários e artigos de fundo, perante o desespero de numerosos telespectadores, que lá vão mudando de canal, para constatarem que andam todos ao mesmo, ou quase. A nível local, os dois semanários de maior difusão publicam suplementos de pelo menos doze páginas. Entretanto a situação degrada-se, tanto a nível nacional como local, sem que a comunicação social dê mostras de se preocupar com tal estado de coisas. Será isto normal?
É muito fácil opinar que A, B ou C embirram com o futebol e/ou com o desporto. Difícil, ou mesmo impossível, será convencer a maioria silenciosa de que não há qualquer relação entre tal estado de coisas e as dificuldades que nos atormentam. "Não há almoços grátis", que é como quem diz que o dinheiro não chega para tudo. E então quando é mal governado, nem se fala...
A concluir, uma chamada de atenção para a reprodução que encabeça este texto. Repare-se como os grandes jornalistas, neste caso do PÚBLICO, conseguem "dar a volta ao texto" -trata-se de factos, de opiniões, ou de ambos?

terça-feira, 24 de março de 2009

E DEPOIS QUEREM QUE ISTO MUDE...

Total 314.128

O gráfico acima reproduzido, retirado do Diário de Notícias de 22 do corrente, mostra bem o país que somos. Grosso modo, só pouco mais de 3% dos cidadãos se encontram inscritos em partidos políticos. Porque será? Mais curioso ainda: o Benfica tem mais sócios do que o PS ou o PCP, o que só poderá surpreender os menos atentos, já que A BOLA vende mais de 120 mil exemplares de cada edição, o mesmo acontecendo com o RECORD, enquanto o DIÁRIO DE NOTÍCIAS ou O PÚBLICO, ambos jornais de referência, andam na casa dos 40 mil. Só o semanário EXPRESSO consegue ultrapassar os 100 mil, ficando mesmo assim aquém dos desportivos. Se a isto acrescentarmos que temos três jornais desportivos de grande tiragem, caso único na Europa, o panorama fica completo e devia conduzir os dirigentes partidários, sobretudo aqui nas margens do Nabão, a procurarem indagar das razões profundas de tal estado de coisas. E não adiantará vir com a desculpa-chavão de "sempre assim foi", pois antes do 25 de Abril havia motivo legal e perigosamente imperativo para isso. Agora não.
Sabendo-se que em termos de Taça de Portugal, ou de Campeonato Nacional, ou em qualquer outra competição, vença quem vencer, os dividendos são nulos para os sócios e/ou admiradores dos diversos clubes desportivos, a presente situação dá que pensar. Tanto mais que tudo aponta para o facto de o futebol, o principal desporto em Portugal, ser afinal uma actividade parasitária. Só assim se pode explicar que apenas existam clubes da 1ª Liga nas regiões com elevada criação de valor acrescentado -Lisboa, Porto, Braga, Setúbal e Leiria. Ou seja, visto doutro ângulo, há mais clubes da 1ª Liga no Norte e depois em Lisboa, concentrando estas duas regiões mais de metade do total de equipas participantes. Abaixo do Mondego e fora da região de Lisboa, só sobrevive a Naval e o União de Leiria. A sul do Tejo, só o Vitória de Setúbal. Porque será?

domingo, 22 de março de 2009

REPTO À OPOSIÇÃO QUE TEMOS

Quem tiver habilidade para ouvir e interpretar a opinião pública e/ou publicada no concelho de Tomar, constatará imediatamente que o sentimento generalizado é de desânimo, com expressões do tipo "é tudo a mesma gente", "tão bom é Pedro como é Paulo", "são farinha do mesmo saco". Exactamente o que acontece, com uma ou outra variante, a nível nacional. Ou seja, em ambos os casos os membros da oposição não conseguiram, pelo menos até agora, inculcar no corpo eleitoral a ideia de que têm soluções susceptíveis de constituirem alternativas credíveis.
A nível nacional, tudo indica neste momento (ver crónica de J. A. Saraiva, no Sol) que Sócrates vencerá as próximas legislativas, com maioria absoluta. Não tanto por mérito próprio, que também o tem, mas sobretudo por ineficácia do PSD, já que PCP e BE servem apenas para ornamentar e acicatar o governo.
A nível local, com o devido respeito por todos, mas igualmente com firmeza republicana e frontalidade democrática, a maioria PSD tem podido errar à vontade e com abundância graças à patente inépcia facilitadora de toda a oposição. E a situação é ainda mais grave e sombria porque os seus protagonistas persistem em negar a realidade. Tanto uns como outros consideram que têm agido muito bem e com total eficácia. Que os erros cometidos por uma das partes foram, naturalmente, culpa da outra parte. Numa frase agreste mas clara: Trabalham mal mas não dão, ou fingem que não dão por isso.
Em tempo de crescimento económico, de fartura, de vacas gordas, as asneiras eram facilmente absorvidas com mais uns fundos por aqui, umas verbas por acolá, uns subsídios mais além. Todavia, tudo indica que esse tempo acabou e não voltará mais. A crise agrava-se de dia para dia, ao mesmo tempo que se vai modificando, passando de imobiliária a financeira, depois a económica, agora a social, dentro de semanas a política. Urge portanto encontrar modelos económicos/políticos alternativos, sobretudo a nível local, onde não é tão complexo.
No caso tomarense, perante a convicção maioritária de que nas próximas autárquicas não teremos nenhuma escolha real, dado que qualquer dos candidatos, conhecidos ou previsíveis até agora, já demonstrou anteriormente não ser de primeira água, é premente intentar modificar em tempo útil tal estado de coisas. Ao contrário do geralmente admitido, as eleições não se ganham no dia do escrutínio mas muito antes. Na data marcada já está tudo decidido, mesmo antes de entrarem nas urnas os primeiros votos.
Conscientes das carências locais a nível humano, que não são unicamente da maioria ou da oposição, mas igualmente de outros sectores, designadamente da comunicação social, os integrantes de Tomar a dianteira decidiram lançar um repto aos eleitos (Câmara e Assembleia Municipal) e à comunicação social (jornais e blogues locais), nos seguintes termos: É-vos concedido um prazo de 60 dias, até sexta-feira, 22 de Maio, para conseguirem
A -Publicar o essencial do projecto "Cerrada dos Cães/Mata dos Sete Montes", ou demonstrar de forma inequívoca que a maioria PSD agiu deliberadamente para impedir tal publicação;
B -Publicar o essencial do projecto "Moagem/Central eléctrica/Lagares da Ordem", ou demonstrar de forma inequívoca que a maioria PSD agiu deliberadamente para impedir tal publicação;
C -Factores convergentes indiciam que algo pode não estar totalmente correcto no que concerne ao tratamento de esgotos e respectiva taxa cobrada em conjunto com o recibo da água. Esta situação pode já durar há vários anos e ascender a alguns milhões de euros. Os eleitores/pagadores têm, naturalmente, o direito de saber circunstanciadamente o que se passa, designadamente nos termos do direito à informação e do artigo 5º da Lei 46/2007, de 24 de Agosto.
Será a oposição, serão os jornais, capazes de desfazer estes três novelos políticos e de publicar o apurado? Em todos os casos, não bastarão generosas generalidades, como é habitual. Pretende-se o tutano de cada uma das questões colocadas, ou seja, publicar tim-tim por tim-tim o que for apurado, pois não estaremos de certeza no domínio da segurança do estado.
Após 22 de Maio, Tomar a dianteira reserva-se o direito de iniciar acções tendentes a esclarecer cabalmente os eleitores interessados.

Redacção de tomaradianteira.blogspot.com

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O HOSPITAL E OS PATRÕES DOS PARTIDOS

Cumprindo a sua obrigação, na qualidade de representantes leais de quem os elegeu, os IpT apresentaram na Assembleia Municipal uma proposta sobre a perigosa situação do nosso hospital. Ainda que demasiado palavrosa, no nosso entendimento, tal tomada de posição vai na direcção correcta -a defesa intransigente dos interesses da comunidade tomarense. Contra tudo e contra todos, se tal for necessário. Assim o entenderam as restantes forças políticas, representadas naquele órgão deliberativo, o que permitiu a aprovação do documento por maioria.
Só os representantes do PS se abstiveram, o que causou alguma surpresa, dado tratar-se de questão magna para o concelho e para a região. Tal atitude veio tornar claro que a oportuna iniciativa dos IpT embaraçou sobremaneira os socialistas locais. Demonstrou também que afinal o PS/Tomar critica por vezes a maioria PSD, por agir de acordo com as orientações de Miguel Relvas, mas acaba fazendo o mesmo, quando instado a pronunciar-se sobre problemas graves para o concelho.
A posição do PS local, que enfraqueceu a proposta apresentada, ao impedir que pudesse ostentar a menção "aprovada por unanimidade", será com certeza do agrado do patrão socialista da zona, que é afinal, segundo tudo indica, quem vai puxando os cordelinhos pela calada. Falta saber qual a reacção do eleitorado concelhio, em Outubro próximo, pois com a crise a agravar-se vai sendo cada vez mais difícil servir dois senhores ao mesmo tempo -o eleitorado e o patrão partidário.
Logo no dia seguinte à votação, já havia quem murmurasse que no PS/Tomar há cada vez menos socialistas e cada vez mais sócios de lista...

Tomaradianteira

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

NÓS TOMARENSES E AS CRISES ACTUAIS

Morrer da cura?
António Rebelo
Na sequência da minha análise anterior, um dos amáveis leitores e posteriores comentadores, mostrou-se agastado. Segundo escreveu, limito-me a apresentar opiniões alheias e a falar de sentimentos, sem nunca apresentar dados de natureza técnica, pelo que não passo de um generalista.
Devo dizer que aceito tais opiniões críticas de boa vontade, pois elas apresentam uma das vertentes da minha actividade neste blogue. Cuido realmente de apresentar variadas opiniões, além da minha, de modo a que os leitores possam optar. Foi assim que me ensinaram. É assim que se procede nas sociedades realmente abertas e tolerantes, desde há pelo menos dois séculos. Naturalmente, outra é a educação nos países profundamente intolerantes, que professam ou professaram princípios contrários aos direitos humanos. Nomeadamente aquele que proclama que todos os homens nascem iguais...
Sou, também, um generalista, pois sempre me inclinei, no quadro da minha formação, para a vertente macro, embora nunca tenha gostado das curvas de Kondratief. Dito isto, que não é pouco, alegra-me que um ex-autarca procure informar-se sobre o mundo exterior e os seus cidadãos. Pode ser que assim consiga um dia ser menos egocêntrico e autocrático, marcas profundas deixadas pela sua formação académica e prática posterior. Adiante.
Decidi voltar ao tema da crise, que sei não ser nada popular, por estar seriamente preocupado, não só com o futuro próximo, mas também com o mais afastado. Como sabemos, a nível local, tanto a maioria PSD como a oposição PS apresentaram propostas ditas "contra a crise". Só os IpT mantiveram até agora um prudente silêncio. Ora acontece que estes são, também, a única força política que dispõe de adequado suporte na área da economia, o que pode muito bem estar na origem da sua atitude, que antes julguei revelar apenas algum embaraço.
Na verdade, tanto o PSD/Tomar como o PS/Tomar se limitaram, ao apresentarem as referidas medidas, a seguir a tendência governamental, em Portugal e na União Europeia. Agiram assim nos termos do chamado "desejo homólogo", ou "desejo mimético", segundo os quais tendemos sempre a desejar aquilo que os outros já desejaram e conseguiram. No caso em apreço, as medidas governamentais. Procedendo assim, é óbvio que não estão minimamente preocupados com a crise a nível local, mas apenas com os futuros resultados eleitorais. Trata-se portanto, no meu entendimento, de mera politiquice, que nem sequer denunciaria, caso não me parecesse tão perigosa.
A questão é a seguinte: Face a uma crise de contornos ainda não totalmente definidos, e com uma origem ainda algo obscura, os diversos governos, na esteira do estado-unidense, decidiram agir no sentido minimizar tanto quanto possível os danos previsíveis. No quadro da União Europeia aprovou-se a necessidade de assegurar a solvabilidade bancária e de fazer o possível para evitar o aumento do desemprego. As medidas tomadas pelo governo de Sócrates obedecem a essas normas, tendo obrigado o primeiro-ministro a um volte-face completo. Ainda recentemente, a prioridade era a austeridade, tendo em vista a redução do défice orçamental. Bruscamente, passou a ser exactamente a oposta. Gastar o mais possível, para manter a actividade económica. Quanto ao défice máximo de 3%, imposto pela UE, depois logo veremos, uma vez ultrapassada a violenta crise.
Neste consenso comunitário europeu de combate aos efeitos da crise, há três grupos de países para outras tantas situações diferentes. Até ao momento, os mais atingidos e com maiores problemas são os que não fazem parte do Euro. Incluem até a orgulhosa Inglaterra, cujo banco central se viu forçado a baixar a taxa de juro de referência para o nível mais baixo dos últimos trezentos anos. A Islândia, que desvalorizou a sua moeda em 45%, os países bálticos, que baixaram vencimentos e pensões, bem como a Polónia, estão igualmente entre os casos mais complicados.
Temos depois o chamado conjunto do Euro, que convém dividir em dois grupos, consoante a situação anterior de cada um. Antes, porém, vale a pena lembrar que, aquando do aparecimento da moeda única europeia, no final do século passado, o insigne economista americano Milton Friedmann, Prémio Nobel de Economia e papa da denominada "Escola de Chicago", prognosticou que, aquando da primeira crise grave, o euro não resistiria. Afinal, passa-se exactamente o contrário. Os países da zona euro são os que melhor têm resistido à crise, de tal forma que até a Inglaterra, tradicionalmente contra, começa agora a encarar a hipótese de aderir. Bem dizia o outro jogador que "prognósticos só no fim do jogo". Sobretudo na política e na economia, acrescento eu. Tudo bem, portanto? Antes pelo contrário.
Embora usando o euro como moeda, imediatamente antes da crise havia países com uma economia saudável e outros que nem tanto. No primeiro grupo figuravam a Alemanha, a França, a Holanda, Espanha, a Finlândia, todos com crescimento aceitável, défice baixo ou mesmo inexistemte e dívida pública inferior a 60% do PIB. O outro grupo integrava Portugal, Itália, Grécia e Irlanda, caracterizando-se por défices elevados e assustadoras dívidas públicas, todas superiores a 80% do PIB.
Volvidos uns meses, o horizonte económico é negro por todo o lado, particularmente naqueles países que, como Portugal, são forçados a aumentar muito a dívida pública para assegurar os fundos necessários às tais medidas de apoio. Há até já três casos exemplares. A Irlanda, que de melhor aluno da UE está agora na contingência de ter de solicitar a ajuda do FMI, tal como nos aconteceu nos anos 80 do século passo. A Grécia, que acaba de ser castigada por uma conceituada empresa de rating, o que vai encarecer os empréstimos a solicitar. A Espanha, enfim, que tinha, no início da crise, um excedente orçamental de 2,8% e agora já admite abertamente que o défice poderá vir a atingir os 6% e o desemprego uns astronómicos 16% (em Portugal a previsão é de menos de 10%). Tudo isto com um PIB a cair 1,6%."Caminhamos para algo de muito excepcional", disse o ministro espanhol da economia.
Os mais apressados, os menos atentos, bem como os que gostam mais de ler jornais desportivos, perguntarão com ar de desprezo -E que temos nós a ver com isso? Nada, evidentemente! A culpa é sempre dos outros! Todavia, se me permitem, gostaria de lembrar que, já antes da crise internacional, havia uma grave crise local, a qual continua a piorar. Provas daquilo que afirmo? As dezenas de casas para arrendar, as dezenas de apartamentos para vender, as dezenas de estabelecimentos para trespassar, as empresas que encerram, os eleitores que vão morar para outros concelhos mais acolhedores e dinâmicos. Afinal, basta andar nas ruas, olhar, saber ver e interpretar.
Tal como a nível nacional, os contornos da crise local são conhecidos. Elevadas despesas correntes custeadas pelos impostos, elevadas dívidas públicas, a liquidar com os impostos, diminuição das receitas e aumento dos diversos encargos. Sendo assim, como poderá a autarquia aumentar as despesas ou reduzir as receitas para acudir à crise, sem aumentar a sua dívida para com os bancos? E assim sendo, se já antes da crise era urgente, mas muito difícil, reduzir as despesas e aumentar as receitas, a que propósito vêm as medidas anunciadas? Para fazer como o governo? Mas o governo a isso foi constrangido pelos seus parceiros europeus. O executivo tomarense foi constrangido por quem ou por quê? Pela necessidade de propaganda eleitoral?
Continuo a olhar o horizonte tomarense e o que vejo deixa-me muito apreensivo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

RESPOSTA A UM DIRIGENTE PS

António Rebelo
QUE BEM PREGA FREI TOMAZ...
Aviso à navegação: O que segue, embora possa não parecer, é um texto político. Como tal, não deve ser lido por três categorias de honestos cidadãos. A saber -1 - Aqueles cujos limites mentais lhes não permitem entender que não são inteligentes. 2 - Aqueles que já sabem não pertencer à plataforma dos inteligentes, mas persistem na tentativa de enganar os incautos.É o chamado chico-espertismo. 3 - O Mega Massa Pro e o Burro, que desempenham muito bem o papel de "idiotas úteis", com as suas palhaçadas e os seus exibicionismos desenfreados, assim conseguindo ir desviando as atenções do pagode daquilo que é essencial. Falta apenas saber se o fazem conscientemente, ou não. Estes três conjuntos de pessoas devem abster-se de continuar a leitura, pois daí poderá resultar alergia aguda, a qual tem geralmente, como principais sintomas, febre, borbulhagem, comichões nas partes íntimas e diarreia. Nos surtos mais agudos, acontece a diarreia subir à cabeça, e daí alguns textos a que já tivemos direito...
Como já referi bastas vezes, a escrita e a palavra são as montras do pensamento. Mais aquela do que esta, porque permite mais ponderação e posterior correcção, sem que os destinatários disso venham a tomar conhecimento. Sucintamente: mostra-me como falas e/ou escreves, dir-te-ei como pensas.
Baseado no que acabo de escrever, fiquei com uma excelente impressão de Hugo Cristóvão, actual leader oficial do PS local. Das poucas vezes que com ele falei, guardei a ideia de que é uma pessoa sincera, honesta, empenhada, fraterna, e por aí adiante. Igualmente muito idealista, porque não tem idade, nem experiência da vida, nem conhece o mundo, nem sabe de economia. Nunca teve fome, nem frio, nem pânico. Nunca esteve na guerra, nem na tropa, nem no hospital, nem no desemprego, nem na emigração. Nunca viu a vida na China, nem nos USA, nem em Cuba, nem na Suécia, nem no Vietnam, nem na Índia, nem no Butão... Não tem mundo, diria o seu camarada M. M. Carrilho. Mas um dia talvez lá chegue. Basta querer.
No seu blogue Algures Aqui, Hugo Cristóvão acaba de publicar um longo post, cuja leitura urgente recomendo a todos, e que está na origem desta resposta. Tal texto vem confirmar e reforçar a ideia muito favorável que acabo de descrever. Caso não se deixe perder nos meandros menos bonitos da política, estou convencido de que teremos ali, dentro de alguns anos, mais um Manuel Alegre. Aquele de "O vento cala a verdade, o vento nada me diz", de antes de 74, mas igualmente de "A mim ninguém me cala!", nos dias que correm. Oxalá!
No supracitado post, Cristóvão faz uma crítica justa e mordaz dos tomarenses, que parece conhecer bem, pois é nabantino assumido, tal como eu. Infelizmente, ficou-se por aí. Descreveu a doença e os seus sintomas, fez portanto a diagnóstico, mas não prescreveu qualquer terapêutica, adequada ou não. Mais grave ainda, hoje mesmo vai presidir, ou pelo menos participar, numa conferência de imprensa do PS, cujo título é um embuste, quiçá involuntário: Medidas contra a crise. Ora na verdade, contra a crise o PS local ainda nada disse, escreveu ou fez. Tem-se limitado a copiar o PS a nível nacional. Num caso como no outro, as medidas tomadas não são anti-crise, mas antes de mera assistência social, ou caridade, visando minorar alguns efeitos da crise, o que é muito diferente de atacar a crise, de forma a acabar com ela.
O leitor mais advertido e atento contraporá que são úteis, e mesmo indispensáveis nalguns casos. Não nego. Mas não será por aí que a crise será ultrapassada. Voltando à linguagem médica, na qual sou apenas um paciente atento, a Câmara PSD, o governo PS e os partidos em geral, têm tomado ou proposto até agora apenas medidas de medicina paliativa, e tanto a cidade como o país precisam, no meu entendimento, é de uma forte prescrição no quadro da medicina curativa. Ou não? Se pensam que estou enganado, far-me-ão um grande favor demonstrando-me o contrário. Com factos, não com blá-blá-blá de circunstância.
Voltando ao excelente texto de Cristóvão, sem propostas concretas, fundamentadas, articuladas a um projecto sólido e, naturalmente, adequadas e realistas, fica-se com a impressão, após a leitura atenta e meditada, de que tinha razão quem um dia disse "Que bem prega Frei Tomaz. Façam como ele diz. Não olhem para o que ele faz."
Para terminar: O diagnóstico feito pelo Hugo é óptimo. Falta a indicação da necessária terapêutica. É certo que o PS já escolheu um candidato. Provavelmente já tem um grupo de militantes a trabalhar. Mas nem um grupo constitui desde logo uma equipa, nem alguma vez as figueiras deram pêssegos. Mesmo quando enxertadas, como é o caso. Boa sorte para todos, apesar de tudo.