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quarta-feira, 7 de abril de 2010

ELES LÁ EM CIMA, NÓS CÁ EM BAIXO

Geograficamente é uma evidência; olhando para o mapa da Europa, estamos cá em baixo. Mas se fosse só em termos geográficos... Desgraçadamente, na cultura, na organização social, nas estruturas produtivas, nas vias de comunicação, nas mentalidades, até parece que não fazemos parte do mesmo continente. E não será só, nem sobretudo, por causa da localização. Afinal, a Catalunha ou a Galiza também são "cá de baixo" e seria puro pretensiosismo tentarmos a comparação com essas duas regiões autónomas espanholas. Sob todos os pontos de vista, menos um -o improviso. Porque é da improvisação como método de governação que provêm quase todas as nossas maleitas.
Somos os campeões do "logo se vê", "dá-se um jeito", "havemos de nos desenrascar", "remedeia-se", "não vale a pena", "vai dar ao mesmo", "tanto faz", "correu mal", "não estava previsto"... são frases comuns, tanto na função pública, como no privado, tanto na rua como em casa. Com os excelentes resultados que todos conhecemos. E com os quais, infelizmente, somos confrontados todos os dias. Por falta de treino, por falta de formação, por falta de ensino adequado, por falta de hábitos racionais, por falta de persistência, por falta de método, por falta de estruturas, por falta de projectos vinculativos.
Veja-se o caso da política. A nível local, para não complicarmos demasiado. Que situação temos ?
-Péssima ! Quais são as perspectivas ? -As piores ! Porquê ?!?! Qual o projecto do PSD ? E do PS? E dos IpT ? E do CDS ? E da CDU ? E do BE ? E do TPL ?
Onde é que constava que, caso não obtivessem maioria absoluta, PSD e PS juntariam os trapinhos numa coligação ? Quais os reais objectivos de tal consórcio entre os inimigos da véspera?
A estafada desculpa de que é assim por todo o lado, já não colhe. Por lado porque não corresponde à verdade; por outro lado porque, mesmo correspondesse, não seria ainda assim uma situação saudável ou normal numa democracia robusta e participada.
Veja-se a ilustração supra. "O método Aubry: primeiro um programa, a seguir uma candidata ou um candidato. O debate sobre o projecto do PS está a começar: reforma fiscal, reformas e aposentações, "social-ecologia"... As eleições primárias para designar o candidato ao Eliseu (Palácio onde reside e trabalha o presidente da República) serão, em princípio, no Verão de 2011."
Para os mais arredados destas coisas, a senhora Martine Aubry, formada pela ENA, a ultra-selectiva Escola Nacional de Administração (razão porque os seus alunos são designados por "enarcas", igualmente porque dominam a administração e as grandes empresas francesas), é presidente da câmara de Lille, uma grande cidade do nordeste da França, já foi ministra do trabalho e exerce também o cargo de secretária-geral do Partido Socialista Francês, para o qual foi eleita o ano passado. É filha de Jacques Delors, segundo os especialistas o melhor presidente da Comissão Eurpeia até hoje, apesar de nunca ter frequentado o ensino superior.
Pois é uma senhora com tal perfil, tais referências e tal currículo, que decidiu desencadear o processo tendente a eleger o candidato socialista às eleições presidenciais, a realizar em 2012.
Em Portugal, as presidenciais realizam-se um ano antes, conforme é do conhecimento geral. Como estamos de preparação ? Como estamos de estruturas de preparação ? É assim que queremos apanhar de uma vez por todas o comboio europeu ? Quando é que aprendemos que ao sabor da corrente nem sequer sabemos para onde vamos, se é que vamos para algum lado ?

domingo, 18 de outubro de 2009

PSD NABANTINO MELHORA A OLHOS VISTOS

Quase o último a mandar instalar os seus painéis de propaganda eleitoral, o PSD local nabantino melhora a olhos vistos. Agora foi o primeiro a mandar retirar a dita propaganda. Melhor ainda -mandou substituí-la pelo projecto de governança para os próximos quatro anos (se não houver qualquer grave acidente de percurso). Como bem mostra a fotografia, trata-se de um documento transparente, condensado, sucinto, abrangente, maleável e perfeitamente adaptado a conversações com a oposição. Estamos convictos de que não será por incompatibilidade táctica ou estratégica que deixará de haver acordo, ou até acordos de coligação. Com efeito, os projectos conhecidos dos dois agrupamentos que conseguiram eleger vereadores, são praticamente idênticos, em termos de substância, ao do PSD. Em todos os casos, estamos perante a chamada política "albergue espanhol" ou política "contentor chinês". Albergue espanhol porque, tal como nestes antigos estabelecimentos hoteleiros do país vizinho, infelizmente já desaparecidos, cada viajante só lá encontra o que consigo leva; contentor chinês, visto que basta entrar e escolher -com tanta gente a mandar, já lá há de tudo.
Planeamento anti-crise ? Que crise afinal ? Auditoria rigorosa ? Para quê ? Para esbanjar dinheiro ? Reorganização dos serviços ? Algum funcionário se queixou ? Quem foi ele, quem foi ele ? Mudança de atitude dos eleitos e dos funcionários, nas relações com os cidadãos ? Isso era só conversa de campanha eleitoral. Julgam que estamos aqui para aturar faltas de educação com um sorriso nos lábios ? Era o que faltava ! Planos a médio e longo prazo, indicando caminhos a percorrer ?Onde estão as verbas para os custear ? Ouvir com humildade os munícipes ? É tudo uma cambada de chatos que em geral não conseguem ver para além de dois palmos à frente do nariz. Formação permanente para os funcionários ? Julgam que isto aqui é alguma escola, ou algum centro de formação, ou quê ? Os funcionários já sabem que chegue para os gastos. Alguns até já sabem demais. Infelizmente ! Acordos com a oposição ? Que remédio têm eles senão aprovar as nossas propostas. Afinal também têm interesses a defender, que dependem dos nossos votos. A situação económica local agrava-se de dia para dia ? É preciso é manter a calma. Vamos andando e vamos vendo. O caminho faz-se andando.
Acontece em Tomar, na Europa Ocidental, em Outubro de 2009...

sábado, 19 de setembro de 2009

DIA 27 CONTRA A CRISE VOTAR ! VOTAR !


António Rebelo

Quando ainda estava convencido de que, com o agravar da crise, os tomarenses começariam a "dar o corpo à curva", prometi aqui mesmo que, no momento oportuno, revelaria o meu sentido de voto. Chegou a altura de cumprir o prometido, embora já esteja persuadido de que a esmagadora maioria dos tomarenses nada vai ligar ao que agora escrevo, pois como habitualmente são especialistas seja de que assunto for. E então em matéria de política, nem vale a pena tecer mais comentários. Vamos portanto ao âmago da questão.
No próximo dia 27, como em qualquer outra eleição, são múltiplas as hipóteses para os cidadãos responsáveis e respeitadores, que não se refugiam na pseudocomodidade da abstenção, na realidade uma forma encapotada de cobardia. Mais uma. Antes de mais, o cidadão eleitor deve ponderar bem o que pretende fazer e escolher uma de duas possibilidades basilares -Escolher ou protestar. Se optar pela escolha, terá depois de começar por caracterizar melhor o que deseja escolher -O seu partido habitual? O partido que na sua opinião vai vencer? O partido que quanto a si apresentou o melhor projecto para o país, que somos todos?
Se, pelo contrário, optou pelo protesto, então terá de escolher entre o voto branco, nulo, ou num dos pequenos partidos que você considere mais agressivos. O voto branco conta como voto para o apuramento das percentagens finais (o que não sucede com as abstenções), mas se desconfia que alguém poderá acrescentar-lhe depois uma cruz onde mais convier, não arrisque; vote nulo, inutilizando o seu boletim como melhor entender (uma cruz a todo o tamanho do papel, uma cruz em cada quadradinho, para ninguém ficar zangado, ou uma frase curta e saborosa à sua escolha). Além do voto branco e do voto nulo, há o voto nos chamados partidos de protesto ou partidos dos extremos.
Com implantação a nível nacional, há três partidos de protesto, dois na extrema esquerda -CDU e Bloco de Esquerda- e um na extrema direira -o CDS.
Tanto a CDU como o BE são excelentes para protestar e para obstar a que o governo, seja ele qual for, cometa demasiados abusos. Não têm, no entanto, qualquer hipótese de vir a formar governo. Nem essa é a sua intenção. Por isso mantêm nos seus programas respectivos, de forma directa ou subentendida, a nacionalização da banca e das principais empresas nacionais. Dado que o país não teria dinheiro para liquidar indemnizações justas, tal acto seria considerado uma confiscação, o que implicaria a nossa expulsão imediata da União Europeia, com a consequente retirada da zona euro e o inevitável regresso ao escudo, para já não falar da fuga de capitais e de pessoas de posses, como sucedeu em 1974/75/76.
É certamente por isso que o PCP -Partido Comunista de Chipre, está no governo daquela ilha há mais de dois anos, mas limita-se a praticar uma política moderada.
Outra hipótese de protesto consiste em votar à direita, no CDS. Paulo Portas é sem sombra de dúvida um homem inteligente, mas as suas constantes referências à segurança, às forças da ordem, às forças armadas e à necesidade de rever as condições de atribuição do Rendimento Mínimo de Inserção, são algo inquietantes para alguns que ainda não esquecram o passado sombrio. Por volta de 1930, um professor universitário ex-seminarista chegou ao governo para manter a ordem, restabelecer a segurança e equilibrar as contas públicas. Disse então a célebre frase "Sei muito bem o que quero e para onde vou." Tinha razão. Só abandonou a cadeira do poder quando esta se partiu, 38 anos mais tarde.
É claro que Paulo Portas nunca faria uma coisa dessas, acho eu. Em todo o caso, o outro andou no seminário e Portas concluiu a sua formação nos jesuítas, em Paris.
Restam-nos os dois grandes candidatos à liderança do próximo governo: o PS e o PSD. Para muitos eleitores, os socialistas cometeram muitos erros e devem por isso ser punidos. Não partilho de tal opinião, pois nunca conheci um governo que não cometesse erros graves e, também, porque quem está no poder tem quase sempre mais experiência do que a oposição. Houve e há a questão dos professores, mas trata-se de um conflito bem mais amplo do que parece e caracterizado por excessiva hipocrisia de parte a parte. Da parte do ministério, porque pretende avaliar os professores com algum rigor, mas não consente que estes façam outro tanto com os alunos. Da parte dos docentes, porque dizem sempre que querem ser avaliados, mas não ousam acrescentar "nas mesmas condições dos nossos alunos", o que significaria uma avaliação praticamente sem grandes consequências. Acontece que o governo não está, nem nunca estará, de acordo com tais pontos de vista, por duas razões fundamentais: 1 - Porque não quer desagradar aos pais e encarregados de educação; 2 - Porque não tem recursos que lhe permitam pagar a todos os professores mais tarde ou mais cedo no topo da carreira, de acordo com o anterior ECD, pelo que terá sempre de haver barreiras à progressão.
Pelas bandas do PSD, ainda não apresentaram qualquer alternativa credível. Têm-se limitado até agora o dizer que, se vierem a formar governo, anulam isto, rasgam aquilo, modificam assim, corrigem assado. Em pouco tempo, a sua presidente falou em suspender a democracia por seis meses, gabou a actuação do bronco Jardim e hostilizou escusadamente os espanhóis. São demasiadas asneiras em tão curto espaço. Para mais, vindas de quem, quando foi ministra da educação, instituiu o exame obrigatório de acesso ao 8º escalão (mais tarde anulado por Guterres) e proibiu os professores de falarem à comunicação social.
Usando uma linguagem de cariz burocrático, finalizo dizendo que, tudo visto e devidamente ponderado, não posso deixar de votar PS, no próximo dia 27. Que cada eleitor saiba assumir as suas responsabilidades, são os meus votos.

Nota final: "Tomar a dianteira" continuará à inteira disposição dos habituais leitores, mas interrompe aqui as suas publicações diárias. Tencionamos recomeçar no dia 27 de Setembro, ao fim da tarde. Muito obrigado pela vossa atenção.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

REALIDADE E PROGRAMAS ELEITORAIS

Como é natural, iniciada a campanha para as legislativas, a preparação das autárquicas passou para segundo plano, pelo menos em termos de comunicação social nacional. Convirá por isso tentar perceber em que ponto estamos, aqui pelas bandas do Nabão. Das sete forças políticas concorrentes, seis já apresentaram cada uma o seu programa eleitoral, no todo ou em parte. Falta portanto uma, exactamente a que neste momento ocupa o poder local, que já nas eleições anteriores se "esqueceu" de apresentar um programa consistente, contentando-se com frases bonitas e um candidato que, segundo as eleitoras, também não é nada de deitar fora. Está tudo dito e entendido.
Lidos com vagar e atenção todos os programas, ou excertos programáticos, já trazidos ao conhecimento dos eleitores, manda a verdade dizer que nenhum deles nos parece susceptível, no seu estado de elaboração actual, de poder vir a ser base de trabalho suficiente para começar a resolver a crise local. O que não significa de modo algum que sejam inúteis. Pelo contrário. Há em cada um deles, na nossa modesta opinião, material bastante útil para eventual uso futuro. Algum desse material possui até uma característica que não tem sido nada comum em programas eleitorais anteriores. Geralmente, todas as forças têm tendência para prometer as mesmas farturas, as mesmas maravilhas, as mesmas facilidades. Apenas se esquecem sempre de indicar como pensam financiar tudo isso.
Desta vez, porém, talvez por causa do acentuar da crise local, ou devido ao sensível aumento da contestação à actual maioria autárquica, parece haver muito mais realismo, pelo menos no estado actual das coisas. Acontece até, ignoramos se por mero acaso, se deliberadamente, que em vez de proporem todos as mesmas coisas, os agrupamentos concorrentes desta vez esmeraram-se. A maioria das propostas que lemos são não só diferentes, como até complementares e compatíveis nalguns aspectos.O mesmo é dizer que, no nosso entendimento, apontam na direcção correcta, conquanto estejam longe de constituir, por si sós, um adequado documento operacional, entendendo-se neste caso por operacional as instruções completas, não só para ler mas, sobretudo, para fazer.
Nesta altura do campeonato, não seria correcto da nossa parte divulgar tais propostas, pois isso iria quebrar a nossa propositada neutralidade, e provocaria a imediata cópia por todos os outros concorrentes. Assim sendo, que os eleitores tomarenses sosseguem um pouco. Há boas propostas em quase todas as listas, sendo que essas propostas, articuladas umas com as outras e adequadamente completadas, poderão vir a colocar-nos novamente na rampa do progresso. Cuidado porém! Nunca as coisas mudaram tão rapidamente à nossa volta, pelo que aquilo que agora é adequado, amanhã, dentro de uma semana, ou no próximo mês, poderá já estar irremediavelmente ultrapassado. Quer queiramos ou não, temos de aceitar que o tempo dos projectos com princípio, meio e fim, seguidos do tradicional repouso à sombra dos louros conquistados, esse tempo já foi. Agora é a evolução cada vez mais rápida e a forçada adaptação à realidade envolvente, numa constante caminhada rumo ao futuro. Sem escolha possível. Ou nos adaptamos constantemente, aperfeiçoando o que ainda for aperfeiçoável e abandonando o obsoleto, ou ficamos irremediavelmente para trás. Dado que o comboio do progresso nunca passa duas vezes na mesma estação, se nele não conseguirmos lugar quando passar, depois será o cabo dos trabalhos até que passe o próximo. E será, de qualquer modo, conveniente perceber quanto antes que a realidade envolvente nunca vai mudar de acordo com aquilo que nos convém. Nós é que temos de nos adaptar à realidade. E quanto mais tarde isso acontecer, pior!

sábado, 12 de setembro de 2009

DISTINÇÃO EM PRIMEIRO LUGAR


Correu francamente bem a apresentação dos candidatos, dos mandatários e da comissão de honra do movimento "Tomar em primeiro lugar", cuja lista para a câmara é liderada por José Lebre. Foi ontem, sexta-feira, no anfiteatro da Biblioteca Municipal, com início às 18 horas, horário pouco conveniente para os comuns mortais. A sala estava composta. Entre 100 e 150 pessoas, incluindo os membros do referido movimento. Menos que na apresentação dos Independentes por Tomar. Mas muito mais distinção.
Na sessão dos "Independentes Pedro Marques", procuraram que estivessem presentes alguns elementos da camada social média-alta. E conseguiram. Ontem foi o exacto inverso. Maioria de casaco azul escuro e calça "caqui", sapato engraxado, camisa sem gravata, como agora se usa. Senhoras com vestuário cuidado e cabelos com indícios de ida ao cabeleireiro. Pessoas "bem nascidas" e outras convencidas disso. Votantes do lado direito do leque partidário. Uma minoria de "gente do povo". Uns para fazer o seu trabalho, outros para observar, outros ainda porque estão convencidos, ou "porque nunca se sabe". À nossa frente estavam três cidadãos com todo o ar de empreiteiros modestos, tipo "pato bravo", naturalmente em mangas de camisa.
Com o filho do candidato como mestre de cerimónias, função que desempenhou com evidente eficácia, usaram da palavra sucessivamente, Manuel Bonet, da comissão de honra, que leu uma mensagem de Jorge Ferreira, ausente por motivo de saúde; embaixador Pinto da França, igualmente da comissão de honta, e o mandatário da candidatura, o Dr. Correia Leal. A fechar, falou o cabeça de lista, arquitecto José Lebre, que reiterou todos os pontos já anteriormente apresentados, tanto no manifesto como na plataforma eleitoral.
Muito curiosa e divertida a animação do acto por um grupo de crianças vestidas "à templário", com bandeiras do movimento TPL e as palavras de ordem costumeiras -"Lebre amigo o povo está contigo" e "Tomar presente, Lebre a presidente". Sabe-se que "é de pequenino que se torce o pepino" e que cabe aos pais formar os filhos. Boa iniciativa, por conseguinte.
A um mês do acto eleitoral, não conseguimos ainda escolher entre uma de quatro possibilidades: 1) - Lebre está a conseguir conquistar os eleitores do CDS; 2) - Está a conseguir conquistar eleitorado ao PSD; 3) - Está a penetrar em ambos; 4) - Não consegue ir além da "mancha tradicionalista" urbana. Pode ser que a campanha eleitoral possibilite uma leitura mais precisa.
No final, como sempre acontece nos eventos promovidos por quem "tem berço", houve um "Porto de honra". Os bolos eram uma maravilha.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

FINALMENTE LUZ AO FUNDO DO TÚNEL ???




António Rebelo
Estas autárquicas de 2009 prometem! O movimento Tomar em primeiro lugar apresenta hoje os seus candidatos, às 18 horas, na Biblioteca Municipal. A CDU apresentou ontem, no CIDADE DE TOMAR, (página 7), as bases programáticas que considera essenciais para a cidade e para o concelho. O CDS, por sua vez, apresentará na próxima segunda-feira, em hora e local a designar, o seu programa eleitoral, ao qual "Tomar a dianteira" já teve acesso, o que agradecemos.
Nestas três forças políticas, nota-se perfeitamente a existência de eixos fundamentais diferentes do habitual. Destacamos três -vontade de inovar, vontade de acertar, vontade de mudar para melhor. Daqui resulta, na minha opinião que, pela primeira vez desde 1974, há vontade de ruptura. Nos casos de Bruno Graça e José Lebre porque não fazem nem têm feito parte do primeiro círculo do poder local; no caso de Ivo Santos porque teve a coragem de cortar amarras e fazer-se ao mar encapelado da política citadina, encabeçando a lista de outra força política com fraca implantação.
O que sobremaneira separa (pelo menos por enquanto), estes três candidatos de todos os outros é o facto de já terem apresentado com clareza aquilo que entendem estar mal (Lebre) e aquilo que pensam ser a solução para alguns dos nossos males (Bruno e Ivo). Na área do diagnóstico implícito, será dificil fazer melhor, ou sequer igualar, o pequeno questionário publicado esta semana por José Lebre no CIDADE DE TOMAR. Os mesmo sucede com as propostas englobantes de Bruno Graça, acima referenciadas, ou uma parte das que vai apresentar Ivo Santos, num documento de 23 páginas, que por razões óbvias não revelamos.
O mais extraordinário é que, tratando-se de forças concorrentes de quadrantes diversos, e até antagónicos, tanto os diagnósticos implícitos, como as mazelas detectadas, ou as soluções propostas, são perfeitamente compatíveis, complementares e até articuláveis. O que é notável, acontece pela primeira vez em Tomar, e deixa as restantes forças concorrentes em muito maus lençóis. Se, como diz o outro, em política cada qual tem de pedalar na sua própria bicicleta, PSD, PS, BE e IpT estão nitidamente a perder o contacto com o grupo em fuga. Será só transitório? Em qualquer caso, a subida é íngreme. Muito íngreme mesmo. E evitam de estar à espera de empurrões da assistência...


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

OS 4 CAVALEIROS DO APÓS-CALISTO

Fotos Cidade de Tomar e A.R.

Comecemos pelo "calisto" que, de acordo com os dicionários, significa "indivíduo que dá azar aos jogadores". Realmente, nas eleições locais dos últimos 12 anos, houve sempre um candidato-calisto, perito em azarar os outros concorrentes, que por isso foram vencidos. Agora que esse calisto opera em geral a 80 quilómetros daqui, estas serão as primeiras autárquicas após-calisto.
Explicado o calisto e o após-calisto, (continuando cada leitor com toda a liberdade para interpretar após-calisto de modo diferente), é chegada a altura de esclarecer a dos "cavaleiros". Dizem os nossos irmãos castelhanos que "Hay en la sociedad dos grandes categorias sociales, los de a caballo e los otros. Aquellos son los caballeros, los otros los peones." Temos portanto que "los caballeros" são os nossos cavaleiros. No caso, os que seguem montados no "cavalo do poder local". De modo permanente ou intermitente. Portanto, em termos de romance épico, como por exemplo a obra-prima de Cervantes, cada um dos quatro tem sido, e continuará ser, dependendo das ocasiões, D. Quixote ou D. Que Choque. Então e os outros três? Os outros três, caro leitor, pertencem circunstancialmente à peonagem, sendo cada um, em condições homólogas das dos cavaleiros, Sancho Pança ou Sem Chupança. Neste momento integram esta última, por razões óbvias.
No contexto actual, salvo improvável cataclismo eleitoral, estes quatro cavaleiros do após-calisto incluem não só o futuro alcaide do castelo gualdino, como igualmente a maioria dos novos senescais. Faltando aínda duas campanhas eleitorais e dois escrutínios, seria prematura e forçosamente muito falível qualquer previsão detalhada. Não obstante, nas mesmas condições anteriores, ou seja com a ressalva do tal improvável cataclismo eleitoral e das duas campanhas, não arriscaremos muito prognosticando desde já que as hipóteses de vencer são inversamente proporcionais ao peso físico de cada candidato. O mais magro é o que virá a ter maior peso eleitoral, e assim sucessivamente. Até certo ponto. A partir daí, poderá muito bem vir a suceder o inverso -quanto menos quilos, menos votos. Logo veremos, mas não ficaríamos surpreendidos se os quatro cavaleiros viessem a representar, em conjunto, cinco assentos no mínimo e seis no máximo. E mais não dizemos para não errarmos. Voltaremos a abordar esta questão imediatamente após as legislativas. Até lá, desejamos boa sorte a todos e a cada um.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O TEMPO NUNCA VOLTA PARA TRÁS


António Rebelo
Já o ano passado tentei , pelos vistos sem grande resultado, explicar o drama do comércio na cidade antiga, particularmente na Corredoura (ver série de dez artigos "Tentar perceber a crise", de Novembro de 2008). Li agora no blogue do CDS, http://www.saberdecidir-ivosantos.blogspot.com/ , que o candidato se encontrou com representantes da ACITOFEBA, a quem assegurou que abriria um debate sobre a hipotética reabertura ao trânsito daquela rua. Compreendo a posição do Ivo, que precisa de votos. Não entendo a da ACITOFEBA, cujos sócios manifestamente continuam a não aceitar o presente e a recusar o futuro.
Como também já referi, o drama da cidade e do concelho tem como causa importante, quiçá até principal, o facto de a maior parte dos residentes, em vez de caminharem tranquilamente rumo ao futuro, encarando o novo com serenidade e determinação, continuarem a olhar para o passado de modo doentio, o que os impede de o compreenderem.
Sucintamente, a crise do comércio tradicional da Corredoura e em toda a Rua Direita, tem a sua origem na mudança do mercado, das traseiras da Câmara, onde funcionou durante séculos, para o local onde agora está. Foi há 59 anos. Mas o pessoal ainda não aceitou tal mudança lá bem no seu íntimo. Tal como os ferradores que existiam nas entradas da cidade desapareceram com o fim da tracção animal, também os estabelecimentos dos dois eixos tradicionais -Norte-Sul e Nascente-Poente- nunca mais recuperaram da machadada que foi a mudança dos fluxos humanos, provocada pela deslocação do mercado.
Uma importante população dependente dos militares (Regimento de Infantaria, Fanfarra, Banda de Música, Quartel General, Hospital Militar, Posto Rádio, Farmácia Militar), com recursos importantes e certos, mas sem vias de comunicação nem meios de transporte individuais; tudo isso constituiu, durante mais alguns anos, importante paliativo, tal como as farturas do post-25 de Abril. Depois foi o desastre. O militares e respectivas famílias foram-se, porque as forças armadas sofreram consideráveis reduções; as farturas acabaram; as estradas melhoraram bastante e os automóveis passaram a ser coisa comum. Só os comerciantes da cidade velha, cuja cultura lhes não permite ver mais longe, continuam aguardando que o tempo volte para trás, como no velho e conhecido fado.
Em vez de se preocuparem com originalidade, qualidade, quantidade, preços, atendimento e marketing, continuam com as ideias surgidas imediatamente após a início da crise local: se houvesse trânsito na Corredoura, se os turístas viessem cá abaixo, se a Câmara fizesse animação na rua. Estão completamnente equivocados. E quanto mais tarde o reconhecerem, pior será. O trânsito não tem qualquer hipótese razoável de vir a ser restabelecido, designadamente por causa das esplanadas e porque não é essa a tendência actual. Repare-se que haverá ainda este mês o "dia europeu sem carros" pelo que, incrementar o trânsito automóvel na cidade antiga, iria ao arrepio do progresso. E depois, o tão desejado restabelecimento do trânsito automóvel não passa de um pretexto falacioso para tentar dissimular incapacidades pessoais várias. Afinal, os automóveis circulam normalmente na Rua Direita da Várzea Grande e não consta que os comerciantes aí instalados estejam a ganhar fortunas. Ou estarão? O trânsito automóvel tem as costas largas, bem como uma grande vantagem para os incapazes -nem ouve nem se manifesta.
Tolerância, abertura de espírito e capacidade de adaptação à mudança permanente, PRECISAM-SE! COM URGÊNCIA!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TEMPOS DE ANGÚSTIA E DESALENTO


António Rebelo

Quem, como diz o outro, ande por aí, constata todos os dias, com tristeza, que estamos em tempos de angústia e de desalento. Angústia, porque muitos começam agora a compreender que a crise local pouco ou nada tinha ou tem a ver com a crise nacional e/ou mundial. Estas apenas têm desempenhado um papel de revelador. Desalento, porque não vislumbram qualquer via de saída, nem se revêem, em muitos casos, nas candidaturas existentes. Por isso há tantas. E tão pouca vontade de ir votar.
Após mais de trinta anos aguardando que as coisas vão sempre melhorando, que o mesmo é dizer aumentando, o eleitorado manifesta agora crescente insatisfação e mesmo alguma irritação. São cada vez mais os que proclamam já não ir votar, porque não vale a pena e porque estão desiludidos. Enquanto isto, os que continuam a cumprir a sua obrigação de cidadania fazem-no de modo crescente sob a forma de protesto. Os resultados das recentes eleições europeias são disso a prova. Os habituais observadores europeus deste jardim à beira-mar plantado, ficaram pasmados ao tomar conhecimento de que a extrema-esquerda ultrapassara os 20%, coisa nunca vista alhures neste continente, desde o desmantelamento do Muro de Berlim. E aqui em Tomar, terra conservadora desde sempre, o Bloco de Esquerda conseguiu de longe o melhor resultado desde que existe. Que significa tudo isto? No meu pobre entendimento, (alicerçado apenas em mais de 50 anos de leituras e de prática política), que os cidadãos anseiam por mudanças positivas. Cansados de as não conseguirem, usam o voto não para escolher mas como protesto, como meio de pressão. Sem resultado, até agora. Mas água mole em pedra dura... exactamente o que sucedeu com a oposição e o parque de campismo. Tanto insistiram...
Em tão difícil contexto, das três forças políticas representadas no executivo, até esta data só uma já se manifestou a favor de algumas mudanças. Em entrevista a um semanário local, salvo erro em Julho, Corvêlo de Sousa afirmou que até final deste mandato tenciona cumprir as grandes linhas de actuação do seu antecessor, mas que, se vencer, no seu mandato fará certamente diferente. Resta portanto aguardar pelo respectivo programa.
IpT e PS parecem, por enquanto (?), persuadidos de que não haverá necessidade de inovar em termos de propostas ou de comportamentos. Aqueles já apresentaram as suas propostas na área social e no domínio cultural, conforme aqui foi referido em tempo oportuno. Os socialistas nem isso. Mas o seu candidato declarou na semana passada à Rádio Hertz que não são necessárias reuniões, pois andam a trabalhar desde há quatro anos. É certamente verdade. Os eleitores em geral é que não têm dado por isso. Pelo menos aqueles com quem tenho contactado.
Se calhar vai sendo tempo de abandonar a velha máxima de Lampeduza "É preciso ir mudando qualquer coisinha para que tudo possa continuar na mesma." Os tempos estão cada vez mais difíceis e os eleitores potenciais começam a intuir que, com ou sem programas inovadores, nada voltará a ser com já foi ou é. Para o bem e para o mal. Infelizmente?

sábado, 29 de agosto de 2009

O DIZER E O FAZER



Estas duas fotografias, ambas colhidas no Largo do Pelourinho, a menos de cem metros dos Paços do Concelho, ilustram bem a situação a que isto chegou, por falta de um quadro de pessoal, ao mesmo tempo equilibrado e dimensionado para as reais necessidades da cidade e do concelho. Em vez disso, temos excesso de chefias superiores e intermédias, mas grande carência de "tropa". A mesma situação que ocorreu nas forças armadas, por causa da guerra colonial. Havia demasiados oficiais subalternos e superiores e nítido excesso de sargentos, para tão pouca tropa. Apesar de milhares de passagens à reserva e/ou à reforma, ainda hoje temos excesso de generais, almirantes e etc. para a real dimensão das forças existentes.
Tudo isto ocorreu e ocorre em virtude de dois princípios -a carreira e as promoções automáticas, ao fim de x anos de serviço. No caso da autarquia, por exemplo, segundo foi divulgado, há 17 lugares de chefe de divisão, dos quais apenas 7 estão preenchidos. E já se fala em directores de departamento, acima portanto dos chefes de divisão. Tendo em conta que um chefe de divisão corresponde a um comandante de batalhão e que um regimento militar costuma ter quatro batalhões e mais ou menos dois mil homens, temos que a Câmara de Tomar, com cerca de 500 funcionários, dispõe de chefes de divisão para três mil e quinhentos funcionários. E um quadro de chefes de divisão (17), não totalmente preenchido, para quatro regimentos, ou 8 mil e 500 homens. Haja verbas que a autarquia terá sempre onde as gastar.
Ante semelhante situação e, ao que consta, com uma dívida de estarrecer, começam os diferentes candidatos a apresentar nos seus programas a necessidade de haver reorganização da autarquia, contenção e mesmo redução de despesas, bem como o progressivo abandono de todos os projectos sem retorno garantido, enquanto a situação económico-financeira não melhorar.
Já era tempo! Falta, porém, informar o eleitorado do mais importante, e de longe -como é que isso se faz? Numa terra e num país onde os cidadãos comungam, na sua esmagadora maioria, da chamada "ilusão da bolsa", de acordo com a qual é tudo sempre a subir -salários, vencimentos, preços, produção, bem-estar, dividendos, juros, lucros, produtividade, cotações- não vai ser nada fácil. Admitindo à partida (o que não é nada garantido) que haverá coragem para ir até ao fim, cortando a direito. Para isso é urgente começar por lembrar que "as árvores nunca cresceram nem crescem até ao céu". E que as comunidades humanas, incluindo a nossa, nascem, desenvolvem-se até certo ponto, definham pouco a pouco e morrem, tal como ocorre com todos os seres vivos. Aqui fica o aviso, para que ninguém se esqueça. Enquanto ainda é tempo, porque depois...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

RUMO À (TRISTE) REALIDADE

Até este momento, apresentaram os seus programas, ou pelo menos o essencial de cada um deles, os IpT, o BE, o CDS, o TPL ea CDU, por esta ordem. Quem leu com atenção os documentos distribuídos, e/ou apresentados nas respectivas reuniões públicas, terá constatado que os dois primeiros, o dos Independentes por Tomar e o do Bloco de Esquerda, são aquilo que se poderá designar por algo estratosféricos. Visam bem alto e em quantidade. Seriam óptimos para comunidades locais com excesso de verbas disponíveis. Infelizmente, não estamos nesse caso. Pelo contrário.
Já os manifestos seguintes, do CDS e do TPL, propõem aos eleitores algumas medidas mais terra-a-terra : mudança de atitude da autarquia, reforma da mesma, criação de facilidades para os investidores. Tudo propostas a indiciarem já o necessário e urgente regresso à Terra. Apesar de a lista encabeçada por José Lebre ainda pretender "Fazer de Tomar um centro cultural de categoria internacional".
Até ao momento em que escrevemos, no nosso entendimento, o programa mais adequado para a actual realidade tomarense é o da CDU. É modesto, realista, conciso e devidamente explícito. No fundo, avança uma série de propostas de simples bom-senso. Reforma e reorganização dos serviços camarários, redução de despesas, investimentos unicamente com retorno garantido, etc. Significa isto que estamos perante um programa perfeito? Claro que não. Trata-se apenas do mais adequado até agora. E falta-lhe muita coisa. A indispensável auditoria prévia, por exemplo, pois não se vê outra forma correcta de aplicar uma terapêutica, que não seja começando pelo diagnóstico. Dito isto, o mais provável é que agora as outras forças políticas concorrentes acabem por perfilhar, todas elas, as propostas tidas por mais consensuais junto do eleitorado. E ainda bem que assim é. Só será de lastimar se, como habitualmente, cada candidatura proclamar que é a "mãe da criança". Aguardemos.
Entretanto, os dois pesos pesados a nível nacional, o PS e o PSD, que estão a ficar cada vez mais leves a nível local, uns por isto, outros por aquilo, ainda não julgaram oportuno apresentar as suas propostas ao eleitorado. O que é estranho, ou talvez nem tanto. Devem estar naquela de "o primeiro a avançar perde!" Na verdade, os sociais-democratas já nos habituaram a uma estudada gestão do silêncio e à ausência de programas devidamente estruturados e distribuídos aos eleitores, nos últimos 12 anos. Mais inesperada é a actual reserva dos socialistas locais. Vão proclamando que agem sempre de forma transparente (o que à primeira vista é verdade), que até têm um blogue com tudo o que o PS/Tomar faz (o que também é verdade) e que têm um programa. Pode ser verdade. Mas então ainda não é do domínio público, nem foi apresentado, nem está no blogue http://www.psdigital.blogspot.com/ Que se passa afinal? Têm por aí profusão de cartazes monumentais desde há meses e a seis semanas das autárquicas ainda não apresentaram o respectivo programa? Estão à espera da última moda? A (triste) realidade tomarense não se modifica pela positiva, nem se compadece, com documentios de última hora, ou debatidos à pressa, o que vem a dar no mesmo. Desculpem lá, mas quem cala consente e quem não se sente não é filho de boa gente, para já não mencionar o cá se fazem, cá se pagam, que estaria totalmente fora de contexto. Podem crer.

APRESENTADO PROGRAMA ELEITORAL CDU

Quer se goste ou se deteste, os autarcas e candidatos da CDU têm, junto da opinião pública, uma imagem de honestidade, rigor e organização. É pessoal geralmente pouco extrovertido, que por isso mesmo praticamente nunca brinca em serviço. Foi exactamente o que se notou, ontem à noite, durante a apresentação do programa eleitoral para as próximas autárquicas, na sede local do PCP ("não temos dinheiro para alugar salas"), naturalmente designada como "centro de trabalho". Bruno Graça, o independente cabeça de lista, apresentou de forma calma a súmula do que aquela força política entende ser necessário fazer, caso vença a próxima consulta popular autárquica. Em quatro páginas (surpreendentemente sem numeração...) pode ler-se que a autodesignada "alternativa CDU" é constituída por dois eixos estratégicos e quatro tarefas imediatas, tudo para dinamizar a economia do concelho.
O primeiro eixo visa "recriar condições que permitam o desenvolvimento de forças produtivas" no concelho, sendo sectores prioritários a) -Cultura, turismo e educação; b) -Energias alternativas; c) -Fileira florestal e fileira agrícola.
O segundo eixo assenta na definição de uma política de habitação, o qual passa pela recuperação dos prédios antigos do centro histórico e dos principais centros populacionais das freguesias.
Estes dois eixos têm como objectivos, a médio e longo prazo, a) - um concelho com + ou - 50 mil habitantes "com actividade económica própria"; b) -uma cidade de média dimensão; c) -"Uma cidade e um concelho aonde haja vida e se goste de viver". Na prossecução de tais metas, a CDU designou quatro tarefas como prioritárias: 1 - "Reorganizar e modernizar os serviços municipais"; 2 - "Transformar a área cultural do município num eixo estratégico para o desenvolvimento económico do concelho"; 3 - "Remodelar e modernizar o mercado municipal"; 4 - "Restabelecer o equilíbrio económico e financeiro do município".
Tudo claro, sucinto, objectivo e a dispensar grandes justificações. Ou se gosta ou se detesta, mas trata-se da terapêutica preconizada pela CDU para as graves maleitas já diagnosticadas na autarquia, na cidade e no concelho. Outras haverá ainda por detectar. Assinale-se que, no ponto 4, a CDU fala de "Plano de emergência" e de "redução de despesas". Para uma força política tida geralmente como partidária do aumento do peso da administração pública, e logo das despesas, esta implícita tomada de posição ao arrepio do usual mostra bem, de forma indirecta, o presumível estado das finanças autárquicas. Deve ser por isso, entre outros motivos, que se a actual maioria PSD nada informa, a oposição vai-se calando sobre a matéria. E os eleitores continuam praticamente a zero, nessa e em muitas outras coisas.
Em conclusão provisória: Tudo indica que, na próxima consulta autárquica, vamos ter, grosso modo, três tipos de forças políticas - 1 - as que têm programa, mas não têm implantação; 2 - as que têm implantação, mas não têm programa. nem tencionam vir a ter; 3 - as que nem uma coisa nem outra.
Assim vamos. Ou somos levados?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FALAR DE TURISMO DE QUALIDADE



Agora que se aproxima, a passos largos, a campanha eleitoral autárquica, cada candidatura faz fogo com qualquer arma que encontra à mão. Considerando que, tal como em qualquer outra actividade, não é bom atirador quem quer, sucedem-se, e vão continuar a suceder-se, os tiros só para animar, que por isso nem sequer foram precedidos de treino adequado, nem de tentativa de pontaria. Um desses tiros para animar é a repetitiva referência ao turismo, mais precisamente ao turismo cultural ou turismo de qualidade, como factor determinate para o desenvolvimento de Tomar. É claro que não vamos aqui "entregar o ouro ao bandido". Quem tem um projecto sólido guarda-o, por estar convencido que chegará o momento em que será a única alternativa credível. É só dar tempo ao tempo.
Retornando ao turismo, cultural ou de qualidade, impõe-se desde logo esclarecer que os pequenos destinos, tipo Alcobaça, Batalha, Tomar, praticamente não têm, à priori, qualquer hipótese de influenciar a procura, para além da melhoria acentuada das condições de acolhimento. Sem isso, nada feito! Depois, com o tempo, e continuando sempre a melhorar o que for possível, acabar-se-á por vir a colher alguns frutos saborosos. Mas será longo e trabalhoso.
Atente-se neste excerto de Fernando Barciela, no El País de ontem: "Ser a grande potência em termos de turismo de massa deixou de ser tão interessante como há dez ou quinze anos atrás. O aparecimento de novos destinos no Mediterrâneo, como a Croácia, a Tunísia ou a Turquia, representa um sério desafio para a hegemonia espanhola em termos de turismo modesto. Tanto assim é que este ano Espanha foi o destino mais atingido pela crise na área mediterrânica, com menos 12,9% de entradas de estrangeiros (segundo Exceltur), quando a queda foi de apenas 4,1% na Croácia e 1,5% na Turquia, havendo até a registar subidas de 9,8% em Marrocos e 1,3 na Tunísia." Tudo destinos bem mais baratos que na Península.
Em Portugal, com habitualmente, por enquanto sabe-se apenas que houve um decréscimo acentuado de dormidas no Algarve e em Lisboa. No resto do país é o nevoeiro cerrado. Seja como for, compreende-se que no nosso país haja tendência para falar em turismo de qualidade, mais por basófia que por opção fundamentada na observação da realidade. Na verdade, como se pode ler no gráfico acima, com apenas 17 hotéis de 5 estrelas e dois ou três de luxo, não podemos nem devemos ter grandes ambições nesse nível de procura.
Devemos, isso sim, cultivar o realismo e a modéstia, começando por reconhecer que o turismo pode ser popular ou de massa, de classe média, ou de luxo, sendo que em qualquer das categorias poderá haver ou não turismo de qualidade, em função das características da oferta. Porque a verdade nua e crua é esta -neste momento em Tomar, que temos realmente para oferecer aos turistas, qualquer que seja a sua categoria económica, em termos de criação de riqueza? Almoços, jantares, pastelaria, vinho, alojamento e que mais? Seja franco, leitor amigo -se num qualquer país estrangeiro só tivessem isso para lhe oferecer, juntamente com falta de qualidade, falta de limpeza, falta de sinalização, falta de pessoal habilitado, você regressaria contente? Recomendaria esse destino aos seus amigos? Então se calhar o mais proveitoso será aceitarmos um módico de humildade e começarmos pelo princípio, que isto no turismo em particular, e na economia em geral, não é nada como no Euromilhões. Também podem ganhar-se milhões, mas é preciso saber, trabalho, persistência, humildade e sentido da realidade, que é precisamente o que nos falta. Ainda não conseguimos assimilar que a época dos actos de heroísmo, da epopeia, já lá vai há muitos anos. Agora é a "apagada e vil tristeza", quer nos agrade ou não. E a mudança cada vez mais acelerada não vai de certeza esperar por nós. Assim sendo, como já aconteceu a tantos outros núcleos populacionais, ou nos adaptamos ou morremos. Em linguagem mais popular: Ou damos o corpo à curva ou seremos projectados para fora da estrada e seriamente atingidos. Conseguiremos sobreviver? Ninguém sabe.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DO MTPL

Foto Cidade de Tomar
Coincidindo com a abertura da sede de candidatura, na Rua dos Moinhos, no r/c do prédio habitado pelo candidato, José Lebre, cabeça de lista do Movimento Tomar em Primeiro Lugar, deu uma conferência de imprensa, à qual compareceram os jornalistas do costume, bem como alguns amigos e vários membros do citado movimento, entre os quais Isabel Miliciano e Jorge Ferreira.
Após as saudações e os agradecimentos, o candidato justificou a existência de um segundo movimento de independentes: "O aparecimento do Movimento deve-se como já referido ao descontentamento generalizado, e à desmoralização e derrocada em que se encontra a Câmara Municipal de Tomar. A indignação é geral e a descrença é total."
Mais adiante, José Lebre enumerou algumas das queixas dos munícipes, a que segundo disse urge dar solução: "-Quem quer investir não consegue. -Quem da Câmara precisa nada obtém. Pode estar meses ou anos para obter uma resposta ou a emissão de uma licença. -Pagam-se exorbitâncias por maus serviços. -O regulamento de taxas é completamente desadequado à realidade sócio-económica do concelho. -O cidadão é mal tratado, mal ouvido, incompreendido e sistematicamente multado de forma violenta, na maioria das vezes por questões menores. -Os serviços funcionam de forma desastrosa, exclusivamente por falta de liderança. -As obras são na sua maioria mal executadas, na maior parte das vezes têm um cariz meramente eleitoral. -O PDM e todos os Planos foram e são feitos nas costas de toda a gente e têm contribuído de uma forma decisiva para o empobrecimento geral do concelho."
Antes, já o candidato do MTPL tinha assinalado que "Os nossos adversários são fortíssimos, estão há muitos anos no poder, trabalham para a sua manutenção, que dividem estrategicamente quando convém."
Prosseguiu, anunciando os objectivos gerais do seu movimento, que são três: Devolver a autarquia aos cidadãos, para os servir e ajudar no seu dia-a-dia. Criar condições propícias à atracção de emprego e de riqueza. Afirmar Tomar como uma cidade e um concelho de cultura.
No período de perguntas que se seguiu, o qual foi bastante animado, esclareceu que prefere os acordos pessoais às coligações partidárias, disse que o novo movimento independente se tornou indispensável porque o outro grupo independente não estava a cumprir e que integrava uma oposição menor. Advogou igualmente, como indispensável e prioritária, uma reorganização dos serviços camarários, com chefias fortes.
Questionado por uma jornalista, Jorge Ferreira, outro dos mentores do MTPL e cabeça de lista à Assembleia Municipal, declarou-se "escandalizado com a forma como esta terra é governada". Disse que na única vez que foi a uma sessão da Assembleia Municipal, constatou com grande surpresa que "não havia executivo nem oposição, o que não admira, porque são praticamente sempre os mesmos desde há vinte anos para cá".

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

FINALMENTE ALGUM REALISMO

Termina na próxima segunda-feira, dia 17, a prazo para a entrega no Tribunal da Comarca das listas concorrentes às eleições autárquicas de 11 de Outubro. O CDS, que foi das últimas formações locais a anunciar a sua candidatura, vai apresentar nesse mesmo dia o seu "Compromisso com os eleitores". Tomar a dianteira está em condições de avançar desde já com as grandes linhas do citado documento.
Pela primeira vez, desde o início da pré-campanha, aparece um documento de intenções ao mesmo tempo humilde, realista e adequado à época que atravessamos e ao local em que vivemos. Nele não se fala nem de turismo cultural, nem de orquestras, nem de festivais, nem sequer de escolas superiores ou de aldeias disto ou daquilo. É, portanto, um documento perfeito? Nem lá perto! Mas nota-se que os seus autores tiveram a preocupação de se manterem terra-a-terra. De apresentar unicamente coisas do domínio do possível e do necessário, sem ornamentações nem exageros. Até tiveram a coragem de escrever que "O Município de Tomar precisa, de uma vez por todas, de equilibrar as suas contas, levando muito a sério o controle e a redução de custos, de forma deixar de recorrer sistematicamente a empréstimos bancários para fazer face aos seus compromissos correntes." E logo um pouco mais adiante: "A primeira tarefa será a de reorganizar a autarquia. Sem esse prévio trabalho interno nada poderá ser concretizado."
Confirma-se assim, pela boca de quem ainda faz parte da actual maioria PSD, que a presente situação na autarquia, se não é caótica, pouco lhe faltará. Razão mais do que suficiente para desencadear quanto antes uma auditoria externa, completa, a todos os serviços, como condição prévia para esclarecer o que se poderá e deverá fazer, em vez de insistir nas promessas de "castelos em Espanha" para todos.
Além das acções tendentes a sanear as finanças autárquicas, a candidatura do CDS promete um "Programa de auxílio social" para os próximos quatro anos, um novo parque industrial na Sabacheira, junto ao nó do IC 9 e da Estação de Fátima, uma zona industrial, ao lado de um pólo tecnológico, na Asseiceira, junto à zona industrial da Barquinha, uma especial atenção à Albufeira do Castelo do Bode e à recuperação do património, a resolução do problema dos acampamentos do Flecheiro e, finalmente, "colocar a Câmara Municipal ao serviço do concelho e dos tomarenses", o que parece pouco e fácil, mas será longo e complicado.
Primeira grande e decisiva pedrada no charco das fantasias nabantinas, é óbvio que este compromisso não tardará a ser plagiado, o que até nem seria mau para o concelho se pelo menos houvesse a coragem de mencionar a origem das ideias. Será desta?
Ficamos aguardando com expectativa, posto que pela primeira vez o CDS apresenta uma lista forte, que é a única a integrar um empresário de sucesso, um arquitecto/empresário e um economista, bem como uma antiga vereadora PS, que concorre apenas por obrigação de cidadania, uma vez que não procura nem precisa de lugares remunerados pelo orçamento de estado. Vai ser complicado para as outras listas, mas mais vale ser objectivo, aceitando as coisas como elas são, do que insistir em andar à procura do meio-dia às duas da tarde.

E O RESTO ???

Conhecemos já os cabeças de lista dos sete grupos concorrentes às próximas autárquicas. Conhecemos também as intenções de cinco dessas forças na área cultural. Faltam o PSD e o CDS, o que é curioso, visto que os sociais-democratas estão há doze anos com as mãos na massa. Será que têm vergonha de apresentar as suas intenções? Ou têm alguma empresa especializada a congeminar o último grito em matéria de programas prontos a usar?
Seja como for, urge agora passar do espírito para o físico. Noutros termos -a cultura é muito bonito e até poderá vir a solucionar algumas das nossas actuais carências. Mas ninguém come cultura, circula em cima da cultura ou despeja os detritos domésticos em contentores culturais. E nunca ninguém viu a cultura a cortar relva ou a pavimentar ruas... Há portanto muito coisa além da cultura, que se vier a contribuir para o nosso desenvolvimento, será a médio e longo prazo. SE VIER A CONTRIBUIR... E entretanto? Tencionamos continuar à espera das esmolas do estado e de Bruxelas? Deixaremos a autarquia no estado actual, com burócratas a mais e trabalhadores a menos? Vamos prosseguir na senda dos empréstimos para pagar as nossas manias de grandeza?
É tudo isto que os candidatos terão de fazer o favor de explicar aos eleitores. Apesar de não estarem nada habituados a prestar contas. E de ficarem muito enxofrados quando se lhes colocam perguntas inconvenientes.
O mundo mudou. Já ninguém corre a foguetes, e muito menos vai apanhar as canas, nas áreas urbanas. E quem vencer em Santa Maria e S. João tem as eleições ganhas. Convém não olvidar esta realidade. E ter em conta que, pela primeira vez, há sete listas e pelo menos dois blogues, fora do usual controle do bom gosto, dispostos a escrutinar tudo o que seja necessário e de preferência incómodo. Ficamos a aguardar as respostas dos candidatos. Até lá, em homenagem a Solnado, "Façam o favor de ser felizes!" Se puderem, claro!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CULTURA E CONJUNTURA

Ante a fixação na cultura de todas as forças políticas em compita pelo poder local, será oportuno saber que, de acordo com os dados disponibilizados pelo INE, referentes a 2006, cada agregado familiar dispendeu nesse ano, em média, 997 euros. Tendo em conta o nosso fraco nível de vida, é excessivo, pois coloca-nos praticamente ao nível da França, e vem confirmar que vivemos acima das nossas posses.
Nesse ano, venderam-se em Portugal 16,3 milhões de bilhetes de cinema, 2 milhões de teatro, 6 milhões para espectáculos de música ligeira, 600 mil para música erudita e 300 mil para touradas, mas convém interpretar com cuidados estas cifras, pois por exemplo os espectadores da festa brava foram apenas metade dos de música erudita, mas renderam 5 milhões de euros, contra apenas 3,5 milhões para esta. Há portanto um vasto mercado a explorar, mas trata-se de uma tarefa bastante difícil. Na verdade, se há muitas cidades que vivem sobretudo da cultura, não o é menos que exploram apenas uma vertente dessa cultura, geralmente sob a forma de turismo. Temos assim Veneza, com o património e o romantismo, Salzburgo com a música, Marrakech com as tradições, Benares, Guadalupe, Lourdes ou Fátima com a religião, a Patagónia com os glaciares, etc etc. Em todos estes casos, há intensas actividades relacionadas com a procura turística e que facultam retornos superiores aos investimentos. Só assim é possível crescer -ou elevado retorno/unidade ou fraco retorno/unidade, compensado pela quantidade.
Em todo o caso, não há qualquer exemplo conhecido de um país que viva sobretudo da cultura. Sabe-se até que nos países de economnia estatizada, tanto nos ex como nos actuais, o esforço na área cultural nunca conseguiu resolver, nem de perto nem de longe, os problemas económicos. Os cubanos, herdeiros do humor corrosivo dos espanhóis, tem até um chiste para ilustrar esse problema. Contam eles que o fidelismo averba três grandes sucessos - educação, saúde, desporto- e três enormes malogros -pequeno almoço, almoço, jantar.
No nosso caso, o que parece, ao ler as propostas programáticas dos concorrentes às próximas autárquicas, é que se esqueceram da realidade envolvente: uma crise mundial, uma crise portuguesa e uma crise tomarense. Neste enquadramento, ficou demonstrado que a segurança social, o subsídio de desemprego, a relativa segurança de emprego e outros subsídios, o tal modelo social europeu, constituem excelentes amortecedores anti-crise, mas igualmente que os orçamentos de estado não conseguem financiar tais despesas durante muito mais tempo, excepto a Alemanha. Temos portanto que quaisquer propostas culturais terão de apostar sobretudo nos retornos transacionáveis em detrimento de tudo o resto, sob pena de estarmos a tentar apagar o fogo com gasolina. E foi este aspecto que até agora tem sido esquecido nas várias propostas já conhecidas. Doravante, além do quem paga, é necessário saber também que retorno faculta. E estamos a falar de retorno directo e negociável.

sábado, 8 de agosto de 2009

DESCOORDENAÇÃO NO BLOCO DE ESQUERDA?

Até já nos acusaram de odiarmos Francisco Louçã. Coisas para levar pouco a sério, posto que por estas bandas é costume arreigado atacar o autor, em vez de criticar o texto. Seja como for, a notícia supra, reproduzida da página 3 do Expresso de hoje, não deixa margem para dúvidas. Louçã está mesmo alarmado com o descalabro orçamental. Afirma mesmo que "Depois da crise económica e social virá a crise orçamental, para a qual o PS não apresenta uma proposta." Ou seja, depois de ter mandado fazer e afixar cartazes com "reforma por inteiro com 40 anos de descontos" e "quem tem lucros não pode despedir", chegou agora à conclusão de que o tempo das reivindicações mirabolantes acabou. Que agora é altura de defender um pacto com novas regras -"um crescimento anual da despesa não superior a 2%" e correcção de desequilíbrios "serviço a serviço para suprimir despesas supérfluas". (O jornalista escreveu "suprir" mas trata-se, obviamente, de uma "gralha", que vai ao arrepio do sentido das afirmações anteriores do líder do bloco.
Saudamos naturalmente esta viragem radical de Francisco Louçã, que vem o encontro daquilo que por aqui temos escrito -Após as eleições legislativas e autárquicas, quaisquer que venham a ser os resultados e, por conseguinte, o futuro governo, vamos ter mais um período difícil e prolongado, em que teremos de "apertar o cinto", quer concordemos ou não. Não estranharíamos, por exemplo, se o 14º mês viesse a ser pago em títulos de tesouro, ou mesmo suprimido. Ou até que o IVA inchasse para 21/22%. É só esperar para ter certezas.
Nestas condições, apoiando embora a nova posição realista do BE, não podemos deixar de estranhar o programa que os seus militantes tomarenses apresentaram oportunamente, e que foi publicado no Cidade de Tomar. Tendo por título "O Bloco de Esquerda apresenta a cultura como factor de desenvolvimento" (Cidade de Tomar de 31/07/09, página 12) o citado documento propõe, designadamente, a construção de um Centro de Artes e do Espectáculo, com condições técnicas para exibições de música, bailado, teatro e ópera; a criação de companhias de dança e de teatro, "bem como uma orquestra profissional de crescimento e consolidação graduais"; "Construir um novo Complexo/Parque desportivo, na zona das Avessadas, que sustente um Centro de Estágio e Formação..."; "Promover um Centro de Investigação sobre as grandes manifestações vivas da Bacia do Mediterrâneo e Europa... ...criar um Centro Internacional de Lusofonia... ...criar o Museu da Fiação, ...criar o Museu da Festa dos Tabuleiros (ou do Espírito Santo, para ser mais abrangente)... ...Criação de uma Pousada e uma Casa que seja um espaço de criação e de divulgação de teatro, dança, artes plásticas, fotografia, cinema, artesanato, escultura, pintura, banda desenhada, grafitti..."
Perante tudo isto a pergunta impõe-se: Trata-se realmente de um programa eleitoral? Ou de um texto poético? Qualquer que seja a resposta, a total falta de coordenação entre o proposto aqui em Tomar, e por Louçã a nível nacional, é por demais evidente. Tão evidente que nos leva a pensar que os autores do documento devem estar convencidos da veracidade daquela frase popular, segundo a qual "Deus Nosso Senhor (neste caso o orçamento de estado, directamente ou via autarquia) tem lá muito para nos dar." O pior é que não tem e, como é sabido, pode haver autarquias pobres num país rico. Autarquias ricas num país pobre, é praticamente impossível.
O ideal será, por conseguinte, ir tentando descer à terra em vez de tentar enganar os eleitores. Mesmo com a melhor das intenções, como é certamente o caso.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

HOJE COMO ONTEM



Já aqui foi referido anteriormente, de forma sucinta, mas valerá a pena aprofundar um pouco, pois afinal está em causa o nosso devir colectivo. Refiro-me à pertinência dos investimentos autárquicos ou, mais simplesmente, à questão do essencial e do acessório ou supérfluo.
Quando aqui se criticou ou critica a política de obras seguida por António Paiva, tem-se em vista exclusivamente evitar que tais erros se repitam. Para isso é indispensável, julgamos nós, explicar exemplificando com factos, de forma a não restarem dúvidas de que apenas nos guiamos pelo concreto e não por construções ideológicas.
Mesmo os menos versados em História saberão, sem dúvida, que há dois mil anos havia aqui na Península Ibérica povoados e até municípios integrados numa grande e brilhante civilização -O Império Romano. Essas localidades tinham sempre, de acordo com o que agora sabemos, elaborados sistemas de abastecimento de água e respectiva rede de esgotos. Um dos melhores exemplos do grande esforço feito para assegurar o abastecimento de água é o imponente Aqueduto Romano de Segóvia, que chegou até nós bastante bem conservado, de tal forma que é hoje uma das principais atracções e o orgulho daquela cidade espanhola.
Como qualquer outro império, o romano cresceu, atingiu o apogeu, declinou e desapareceu da península. Séculos mais tarde, em 1160, os templários decidiram instalar a sua sede em Tomar e aqui se mantiveram, após breve interrupação já com o nome de Cavaleiros de Cristo, até 1834.
A chamada Casa da Ordem sempre foi das maiores e mais ricas do país, de tal forma que foi graças aos seus recursos que o Infante D. Henrique, nomeado seu governador e regedor, em 1420, iniciou a empresa dos descobrimentos.
Sucessivamente, tivemos o Castelo e a freguesia de Santa Maria do Castelo, os dois claustros e os Paços do Infante, o Coro Alto, a Casa do Capítulo e os Paços de D. Manuel, o enorme (5 claustros) Convento Novo e os Paços de D. Catarina. Ou seja, 400 anos de construções, tudo na vanguarda das épocas respectivas. E no entanto, aquando das Cortes de Tomar, que aclamaram Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel I e sobrinho de Dª Catarina, com rei de Portugal, em 1581, o Convento de Cristo não dispunha de água corrente. Tinha magníficos dormitórios, grandes claustros, dois grandes refeitórios, a obra-prima do manuelino, várias cisternas e poços, mas água canalizada não.
O novo soberano e a sua corte, que oficialmente apenas decidiram fazer cortes em Tomar ao saberem que em Lisboa grassava a peste, terão sofrido tanto com a falta de água, em quantidade e em qualidade, que o rei resolveu mandar fazer um aqueduto para abastecimento do Convento, ainda antes de regressar a Espanha. Encomendada ao italiano Filipo Terzi, a obra que hoje conhecemos viria a ficar concluída em 1613/14.
Temos assim que, mais de dez séculos após o auge do Império Romano, das suas fontes e dos seus balneários, uma das mais ricas e mais poderosas casas do país, habitada por cerca de 200 pessoas de forma permanente, e por mais do dobro em ocasiões especiais, quando aqui se encontrava a corte, ou havia capítulo geral, viveu entre 1160 e 1613 sem água corrente. E foi necessário que um rei estrangeiro aqui tivesse parado acidentalmente para que se conseguissse um sistema de abastecimento permanente de água corrente.
Como claramente resulta do que acabamos de apresentar, a tendência para preferir o vistoso, o grandioso, o monumental, o espalhafatoso ao útil, não é de hoje nem de ontem. Tem séculos e forte probabilidade de fazer parte da nossa herança civilizacional. O Centro Cultural de Belém, a Expo 98, os estádios do Euro, a nova basílica de Fátima, ou o TGV não são meros frutos do acaso. É por isso importante, neste ano de eleições, em que atravessamos uma grave crise cujo fim ainda se não vislumbra, que os tomarenses pensem muito bem antes de decidirem onde colocar a cruz. Em particular nas eleições autárquicas de Outubro próximo. O paleio vai ser, tudo indica, mavioso mas oco, como habitualmente. Os eleitores devem portanto insistir no sentido de que pretendem linguagem concreta, substantiva, simples, entendível por todos, chã; e não programas, discursos ou intervenções cheios de ideias gerais, onde cabe tudo e mais alguma coisa, que são autênticas avenidas rumo ao poder pessoal, sem qualquer hipótese realista de controlo pelos seus pares. Nunca esquecer o que já nos aconteceu, particularmente durante os mandatos dee António Paiva. É mais fácil e vale mais prevenir que remediar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

AS COISAS COMO ELAS SÃO...

Uma vez realizadas as eleições para o Parlamento Europeu, cuja pré-campanha já começou, as diversas formações políticas iniciarão uma longa campanha, visando obter bons resultados, tanto nas legislativas como nas autárquicas. Em ambos os casos, distribuirão pelo eleitorado milhares e milhares de impressos, geralmente muito vistosos e com uma linguagem atractiva. No âmbito autárquico vão até, com toda a certeza, publicar aquilo a que chamarão "programas". Tratar-se-á, na melhor das hipóteses, de meras listagens de (boas) intenções, que supostamente serão executadas durante o mandato, caso ganhem as eleições, caso haja cabimento orçamental, caso a União Europeia subsidie...
No que se refere ao nosso concelho, qualquer dos tais "programas eleitorais", ou de candidatura, deve ser lido e interpretado com todas as cautelas, nunca esquecendo que alinhar argumentos e boas intenções é extremamente fácil. No passar à prática é que aparecem os problemas, em quase todos os casos inultrapassáveis.
O primeiro e enorme obstáculo é o cabal conhecimento da situação da autarquia, condição indispensável para que os redactores dos citados documentos possam produzir trabalhos credíveis. Acontece, todavia, que neste momento ninguém sabe ao certo, nem mesmo a actual maioria PSD que nos governa a nível local, qual é o verdadeiro panorama local em termos de estruturas, eficácia, custos e benefícios dos serviços autárquicos, incluindo os SMAS. Tal "fotografia", ou série de "fotografias", só poderão ser elaboradas após auditoria a todos os serviços. Não uma auditoria do tipo sindicância, visitando apurar responsabilidades, mas uma acção informativa previamente preparada e orientada para a abtenção das respostas que se pretendem. Sem nunca perder de vista que, regra geral, só se encontra aquilo que se procura.
Por motivos que a generalidade dos cidadãos eleitores e pagadores não entendem, basta falar em auditoria para que os responsáveis interessados comecem logo a tentar mudar de assunto, a assobiar para o lado, ou a fingir que não ouviram ou não perceberam nada. Porque será?
É óbvio que tal iniciativa implica gastos relativamente avultados, numa altura em que a situação económica da autarquia pode ser tudo menos brilhante. De qualquer modo, é evidente que sem dados precisos e actuais, qualquer documento eleitoral não passará de mera propaganda, tendo em vista unicamente intrujar os eleitores, apesar de, naturalmente, os seus autores garantirem o contrário, até com as mãos postas, se for preciso.
Perguntarão os leitores, incluindo os autarcas e responsáveis partidários -Mas uma auditoria para apurar o quê? Embora sabendo de antemão que uma vez lido este texto, praticamente todos garantirão que "estava-se mesmo a ver que era assim!", "melhor o gajo estivesse calado!", aqui vão algumas pistas.
Antes de mais, determinar quantos são os funcionários, onde estão colocados, que tarefas desempenham realmente e qual é a cadeia hierárquica, desde quando e porquê. Depois, fazer o rastreio das instalações, serviço a serviço, gabinete a gabinete. A seguir, elencar os edifícios ou parcelas alugadas e respectivas afectações, bem como os imóveis propriedade da autarquia e para que servem concretamente. Finalmente proceder aos cruzamentos necessários para obter custos mensais e anuais, bem como as receitas cobradas. Sem pelo menos isto, nada feito! Subsistirá sempre a desculpa sacramental -"Sabe, nós bem tentámos, mas as dificuldades foram tantas que resolvemos aguardar por melhores dias." Que nunca mais virão, se nada for alterado entretanto. E o progresso não pára, nem os outros concelhos vão ficar à nossa espera...