sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

TOMAR A DIANTEIRA VAI DE FÉRIAS




Com todos os anos por esta época, Tomar a dianteira vai dar uma volta ao bilhar grande. Desta vez até à Ásia que, como os nossos leitores bem sabem, fica logo ali a seguir a Carvalhos Figueiredo, à esquerda. Porquê a Ásia ? Se fôssemos jesuítas, responderíamos como o outro -E porque não ? Posto que não somos jesuítas, confessamos que a viagem se destina, entre outras coisas, a acalmar a azia. Não a nossa, que não temos tido, felizmente, mas a de alguns leitores e dos senhores autarcas, que também têm direito -finalmente !- a 15 dias de sossego.
Se tudo correr bem (e não vale ficar a pedir que os aviões caiam), retomaremos o contacto com os nossos leitores a partir de 1 de Fevereiro.
Entretanto, apenas para ir abrindo o apetite, esclarecemos que o caso da projectada lavagem/limpeza da Janela do Capítulo não está resolvido, nem para lá caminha. Tomar a dianteira esteve no IGESPAR, em Lisboa, onde foi recebido cordatamente e teve ocasião de consultar diversos documentos, entre os quais o tal relatório do LNEC que alguém disse aconselhar a limpeza e o método que vai ser usado. Não é totalmente verdade e só não desenvolvemos agora a nossa crítica porque depois não estaríamos cá para as eventuais respostas. Ficará portanto para Fevereiro. Para já, citamos apenas duas afirmações desse relatório, datado de Janeiro de 2002, quanto a nós uma pequena maravilha. Ei-las: "Embora não se possa dizer que as superfícies de pedra se encontram muito degradadas, existem, contudo, numerosas situações em que se justificará executar algumas operações de conservação e restauro. Dado que não foi possível observar de perto toda a envolvente, é mesmo possível que a extensão dos danos se revele maior do que a que se pode antecipar pela observação efectuada." (Página 25)
"As áreas colonizadas sofrem perda contínua pelo que as superfícies não estarão estabilizadas e, por isso, podem estar mais reactivas e mais susceptíveis ao ataque pelos agentes exteriores. A aplicação de uma pátina artificial reduzirá a reactividade da pedra, pelo que daí resultarão vantagens para a estabilidade das superfícies expostas." (Página 28) Os negritos são de Tomar a dianteira.
Que temos nós andado a dizer aqui no blogue ? Que a construção manuelina não está degradada e por isso não necessita de qualquer limpeza/lavagem. Que as áreas cobertas de musgos e líquenes protegem a pedra das chuvas ácidas, que o relatório apelida de "agentes exteriores". Que seria uma aberração aplicar, após a inútil limpeza, uma ou várias camadas de substâncias protectoras, que o relatório designa como "pátina artificial". O leitor já imaginou a Janela do Capítulo com uma pintura nova, após cinco séculos de existência ? Não estarão a confundir a Janela com a Dona Lili Caneças ? Parafraseando o insigne filósofo/pensador Luís Filipe Scolari: "E depois o burro sou eu ?!"
Tenham muita alegria e muito céu azul, e até ao meu regresso, em 1 de Fevereiro. Se tudo correr bem !


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

ANALÍSE DA IMPRENSA REGIONAL DESTA SEMANA

COLABORAÇÃO CLIPNETO LDA.
A imprensa regional desta semana inclui títulos que denunciam o estado a que isto chegou, sem que a maioria da população de tal se dê conta, pelo menos aparentemente. N'O TEMPLÁRIO, manifestamente adjectivaram perifrasticamente esta contratação da autarquia. No nosso entender, em vez de conceituados, deviam ter escrito caros. Já no corpo da notícia, esta passagem é sobejamente clara: "Do lado da ParqT compareceu o advogado da empresa e do lado da Câmara, participou o presidente Corvêlo de Sousa, e vários advogados da sociedade PLMJ, entre os quais Nuno Morais Sarmento, ex-ministro da presidência e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD." Simples coincidência, pensamos nós. O facto da autarquia tomarense também ser dirigida pelo PSD, não deve ter tido qualquer influência. Assim, ainda que a câmara perca, sempre haverá gente do PSD a ganhar, e bastante, por mero acaso, obviamente !
Numa outra página interior, com a assinatura de Isabel Miliciano, algo de perturbador: "Procedimento da Câmara levanta dúvidas -QUINTA DO CONTADOR: UM CASO DE POLÍCIA ? Segue-se um longo texto, relatando as atribulações de um processo de loteamento, que já se arrasta há nove anos, nove ! Devidamente justificados, como sempre, que o arsenal jurídico deste país, quando destramente usado, dá para tudo e o seu contrário. Basta lembrar que o RGEU ainda em vigor data de 1951, salvo erro, e tem a assinatura do grande democrata Oliveira Salazar. É preciso dizer mais ?
Outros títulos d'O TEMPLÁRIO "Grave acidente provoca cinco feridos", "Idosa morre carbonizada" e "União de Tomar ameaça entregar as chaves". Esta última, apesar de duas leituras, deixou-nos baralhados. Não conseguimos perceber de que chaves se trata, pois ao que consta o clube nem sede tem, como também não é nada claro que a câmara, que o mesmo é dizer TODOS os contribuintes tomarenses, tenham alguma obrigação de pagar ou avalizar uma dívida superior a 100 mil euros, na qual não foram ouvidos, vistos ou achados. Uns comem os figos e outros rebentam-lhes os beiços ?


O MIRANTE é um excelente semanário, apesar de por vezes, como neste caso, não se dar conta de que está a chover no molhado. Então mas alguma vez alguma entidade deste país assumiu publicamente a sua responsabilidade nalguma argolada ? Era o que faltava ! E a dignidade das instituições ? E a infalibilidade dos chefes ? E a reputação dos funcionários todos ? Até parece que o simpático semanário de título verde não é escrito neste país à beira mar plantado.
"Médico transferido para Paialvo deixa dois mil utentes sem assistência em Tomar", "Câmara de Tomar alerta para burlão que vende folhetos promocionais" e "Câmara de Tomar garante água a família carenciada que não pagou factura", são outros títulos mirantinos.
Se o caso do médico coloca mais uma vez em evidência que quando a manta é pequena, se a puxam para um lado, destapam o outro, a actuação do burlão tende a mostrar que os políticos nabantinos, e outros, estão a fazer escola. Com o devido respeito, todos sabemos que também eles andaram "a vender" folhetos promocionais durante a campanha eleitoral, e agora não respeitam nada do que lá estava e está escrito. Exactamente como no caso do actual burlão, que por isso não merece castigo. A não ser que os autarcas também venham a ser castigados. Ou há moralidade, ou comem todos ! A propósito: em que partido terá ele votado ? É que não parece nada parvo e ainda por cima é empreendedor, o que nos tempos que vão correndo...

Aqui temos outro caso em que a anterior experiência dos autarcas da maioria pode vir a dar muito jeito. Segundo noticia CIDADE DE TOMAR, os serviços da autarquia estão a analisar a possibilidade de poderem afugentar estas aves que "Muitas vezes são vistas com as asas abertas expostas ao sol..." Se assim é, não só os competentes serviços autárquicos estão a desperdiçar tempo, como a prevista expulsão de tais visitantes até pode ser contraproducente. Dizemos isto porque, se realmente a intenção é mesmo afastar os corvos de forma definitiva, basta que os autarcas nabantinos procedam com eles com têm feito com os investidores, os habitantes e os turistas. É vê-los a dar corda aos sapatos. Neste caso às asas secas ao sol.
Cuidado porém ! "Com as asas abertas expostas ao sol", indica claramente que são turistas. E depois de andarem a propalar que pretendem desenvolver o turismo, os autarcas vão expulsar estes visitantes escandinavos, cujo alto consumo e poder de compra, são sobejamente conhecidos ? Nem parecem coisas do senhor vereador Luís Ferreira, o novo homem do turismo municipal.
Mas o principal título da edição desta semana do semanário vizinho da autarquia, é sobre as taxas municipais de urbanização, que vão ser reduzidas. "Indústria com cerca de 60% de redução, habitação com cerca de 30%". Falta explicar aos eleitores como são possíveis tais reduções, tendo em conta que não consta que as despesas da autarquia tenham sido reduzidas ou para aí caminhem. Por algum lado se tem de começar a fomentar a recuperação da cidade e do concelho, mas convinha ter a certeza de que os responsáveis têm plena consciência daquilo que estão a fazer, porque a economia é como a morte, mais tarde ou mais cedo, nunca perdoa. Muito cuidado portanto !
Bem diz MC, à cautela, na sua Crónica de campanha: É "O fim do mundo em cuecas"

INSÓLITOS TOMARENSES - 22

A oeste quase nada de novo. É certo que das bandas de Paialvo, pela antiga estrada de Torres Novas, se aparecer algum turista é porque se perdeu. E também é verdade que para o receber não há nada nesta entrada da cidade. Quase todas as placas de sinalização estão posicionadas para quem vem para poente, salvo aquelas duas do lado esquerdo, a indicar Lisboa e Coimbra. Assim, os hipotéticos visitantes perdidos têm três hipóteses: a)-apeiam-se e perguntam a qualquer transeunte, que provavelmente lhes indicará o turismo municipal, mesmo ali à frente; b)- continuam até ao fundo da rua, em busca de indicações, regressando uma vez chegados à rotunda; c) -a mais aconselhável, aproveitam as indicações IC3 Lisboa/Coimbra para se porem a andar daqui para fora quanto mais depressa melhor, porque uma terra que os recebe assim, não deve querer cá visitantes.


Do lado oposto, que é como quem diz a leste, ou em Espanha, há fartura e há falta de sinalização. Há fartura de indicações da bliblioteca municipal, que sendo uma honrada e acolhedora casa, não é a de Alexandria, do Vaticano, ou sequer a de Coimbra. Não deve, por isso, ter assim tantos leitores, ou a isso candidatos, que não saibam o caminho. Pois mesmo assim, para quem entre na cidade pela estrada da Serra, encontra uma primeira indicação logo a seguir à rotunda de Palhavã (foto acima), seguida de outra no cruzamento do antigo colégio (foto abaixo).

A quem se destinará esta segunda ? Aos visitantes vindos da estrada da Serra -os únicos que a vêem imediatamente na frente- certamente que não, pois já terão visto a anterior. Nestas condições, será só para mobilar, por assim dizer ? Se é o caso, tirem-na já e substituam-na por uma que diga Convento de Cristo, que é afinal e de longe o único objectivo de quem nos visita. Por enquanto, porque se isto continua assim...
Quanto à outra placa "estádio/pavilhão", deixem-se de enganar as pessoas. Um estádio é um recinto desportivo grande, vedado, com balneários, rodeado de bancadas em anfiteatro e com relva em condições. O actual campo da ex-Horta dos Graças não cumpre qualquer uma dessas condições, pelo que chamar-lhe estádio... E porque não um painel indicando "Ex-estádio 25 Abril, agora campo de treinos Eng. Paulino Paiva" ?


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

INSÓLITOS TOMARENSES - 21

A entrada sul é o principal acesso à cidade para quem venha da A 1/A 23/IC 3. E ainda bem que assim é, pois o local está uma verdadeira maravilha, conforme documenta a imagem. Tem até uma importantíssima atracção turistica, por enquanto infelizmente ainda não aproveitada de forma capaz, como de resto acontece com as outras. Trata-se da conhecida Aldeia de Férias La Gitana. Dado que até sabemos quem elaborou o processo de candidatura do Convento de Cristo a Património da Humanidade, vamos providenciar no sentido de se conseguir outro tanto neste caso. Argumentação não falta: Trata-se de preservar uma paisagem da ocupação humana na entrada das cidades, tal como havia na Europa entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a adesão dos países ibéricos para a então CEE, com a consequente vinda de milhares de milhões de euros. Como se vê, valeu a pena e não houve, pelo menois por estas bandas, nem esbanjamentos, nem custosas obras inúteis...
Gualdim, achas que isto está bem assim ? -Bem me queria parecer. Por isso lhes voltas as costas e te proteges com o escudo.


Aproximando-se um pouco mais do pomposamente designado núcleo histórico, os automobilistas visitantes lá conseguem vislumbrar enfim alguma sinalização. Pouco ou nada adequada ? Sejam pacientes, não se pode ter tudo assim do pé para a mão !
Leiria, Ourém, Ferreira do Zêzere, Convento de Cristo, parques de estacionamento ? Para quê ? Importante é o Convento de S. Francisco, monumento muito visitado e que está sempre aberto. Ou os terminais, que os visitantes, está-se mesmo a ver, chegam de automóvel, vindos da auto-estrada, para apanharem o comboio ou os autocarros, geralmente depois de serem julgados e absolvidos no tribunal de Tomar. Quanto à sinalização da "Comunidade Urbana", era absolutamente imprescindível. Basta pensar que terá servido, na melhor das hipóteses, apenas uma vez, a qualquer coisa como seis ou sete senhores autarcas, caso ainda não conhecessem Tomar. Extraordinário realmente ! E depois o pessoal é que é má-língua, quando -ó crime de lesa-autarcas- ousa escrever que regra geral os eleitos pensam sobretudo neles próprios e estão-se marimbando para quem neles votou, quanto mais agora para os que votaram nos adversários...

Qual milagre da multiplicação dos pães, sem qualquer indicação prévia, eis que se sumiram os terminais e o tribunal. Mas manteve-se a "Comunidade Urbana", a tal indicação indispensável, porque extremamente útil. E apareceu, vindo de nenhures e para ninguém, a sinalização do "Museu dos Fósforos". Só falta agora apurar, dada a ausência de sinalização anterior, como é que os visitantes vindos da A 23/IC 3 vão adivinhar que chegados ao cruzamento do Flecheiro devem cortar à esquerda e logo a seguir à direita, para então encontrarem a placa do Museu dos Fósforos. Que de nada lhes servirá, caso antes tenham conseguido vê-la, porque cortando outra vez à esquerda, vão encontar em frente o Convento de S. Francisco, mas continuarão a ignorar onde se situa afinal o dito museu, pois não há qualquer indicação na bifurcação. Resultado: uma vez livres de tais atrasos de vida, só cá voltarão a pôr os pés se obrigados. E mesmo assim, mesmo assim ! Mas Nosso Senhor tem lá muito para nos dar. Por isso, não vale a pena preocuparmo-nos, desde que o dinheirito continui a chegar pontualmente...
Segundo um jornal de hoje, Sócrates (o outro, não o que nos procura governar), terá escrito que o ideal para formar um casal feliz é uma mulher cega e um marido surdo. Exactamente o que temos tido na política aqui emTomar, desde há uns bons anos. Autarcas surdos e eleitores cegos. Ou não ?!


INSÓLITOS TOMARENSES - 20

As entradas da cidade, que se pretende de turismo de qualidade, são um dos problemas que envergonham os tomarenses. Resolvemos por isso inventariar o que nos parece estar mal em cada uma delas. Pode ser que assim...
Decidimos começar pela do lado norte. Não só por ser, apesar das óbvias desgraças a seguir enumeradas, a mais airosa, mas sobretudo para não perdermos o Norte. O que é cada vez mais difícil, na actual conjuntura.
Cabe destacar, antes de mais, a original rotunda-bébé, que seria o orgulho de qualquer aldeia, mas que naquele local... Afinal há ou não normas oficiais obrigatórias, que indicam o diâmetro mínimo de cada rotunda ? Se há, porque não foram respeitadas ? Por falta de espaço livre, não foi certamente.

Como uma desgraça nunca vem só, logo a seguir à rotunda-bébé temos este trambolho informativo. Não só está incompleto, uma vez que se fica sem saber, no caso do museu, de que arte se trata, como ainda por cima engana os turistas, por mais precavidos que sejam. No sítio onde está o suporte, os letreiros indicam os correios e o museu para o lado do Largo do Pelourinho. Não há volta a dar-lhe. Na realidade, esta sinalização está nitidamente fora do seu sitio normal, que seria na placa logo a seguir.

Por muito precavidos que sejam os visitantes, de pouco ou nada lhes vale, poir é bem sabido que não há duas sem três. Se, por mero acaso, ou mediante informação de algum habitante, conseguiram chegar até aqui, serão forçados a demandar outras paragens. Não há sitio para parquear o carro, nem qualquer indicação sobre o museu ou a estalagem. E quanto aos correios, só os respectivos painéis oficiais na fachada, um pouco mais longe.
Depois de, eventualmente, terem conseguido um lugar para o carro, e descoberto o indispensável endereço, chegados à porta do tal "museu de arte" -catrapuz ! Está fechado e sem qualquer indicação visível de dias e horas de abertura.
-E é assim que pretendem fomentar o turismo de qualidade ? Ou andam só a brincar aos autarcas ?



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

QUEM TEM MEDO POUPA

"Para além da sorte de poder descrever em directo um acontecimento histórico, os jornalistas de economia têm desde o início da crise uma outra satisfação. Quase uma vingança. São finalmente considerados entre os seus pares que trabalham noutros domínios muito mais nobres e prestigiados da profissão. As relações internacionais, por exemplo, são essenciais, bem entendido, uma vez que tudo é político, tudo é provavelmente ecológico mas, seguramente e definitivamente, tudo é económico. Incluindo as preocupações dos cidadãos. Americanos, chineses, russos, espanhóis, alemães, gregos, islandeses, dubaieses, para todos a economia também faz parte da mundialização. O pódio das chatices é o mesmo: 1º a economia, 2º a economia, 3º a economia.
Os franceses não constituem excepção. A sua primeira preocupação em 2010, de acordo com uma sondagem Harris Interactive/RTL, é o desemprego (69% dos interrogados). Seguem-se o aquecimento global (33%) e a ameaça terrorista (18%). Quanto às esperanças para o futuro, a retoma económica encabeça a lista, com 64% dos inquiridos -pobres infelizes que ainda não foram apanhados pelo crescimento negativo. Segue-se a subida do poder de compra -pobres infelizes que ainda não perceberam que doravante consumir é pecar. Seguem-se, lá muito para baixo, os problemas ecológicos, que antecedem uma hipotética vitória da França no Mundial de Futebol.
Podemos ver nesta hierarquia a confirmação deprimente de que o interesse pessoal leva a melhor em relação ao colectivo ou, pelo contrário, um sinal encorajador, como diriam os ingleses, de que a igreja é recolocada no centro da aldeia.
Afinal, os franceses consideram-se maioritariamente optimistas (60%) em relação a 2010. Optimistas mas cautelosos. Em 2009, a taxa de poupança das famílias aumentou dois pontos, atingindo 17% dos rendimentos, um nível nunca visto desde 1983. Prova suplementar de cautela, são os investimentos mais seguros (cadernetas de poupança e seguros de vida) os preferidos dos gauleses.
A primeira explicação é, naturalmente, o medo do desemprego, que incita a pôr dinheiro de lado, para a eventualidade de qualquer desgraça. Segunda pista, mais polémica, a acentuada subida da dívida pública, que poderá estar na origem desta poupança de precaução, fenómeno conhecido na ciência económica sob a designação de efeito Ricardo-Barro. Foi em 1974 que o economista americano Robert Barro publicou, no Journal of political economie, um artigo que provocou grande alarido: "Are government bonds net wealth ?"
Uma ofensiva vigorosa contra o activismo orçamental keynesiano, suposto estimular o consumo privado agravando os défices orçamentais.
Eis, muito resumidamente, o que escreveu Barro, retomando um tema esboçado por David Ricardo, no início do século XIX: os agentes económicos, que são racionais, antecipam que as despesas públicas, financiadas por empréstimos, implicarão mais tarde ou mais cedo aumentos de impostos. Assim, em vez de consumirem, aumentam a poupança para que eles próprios ou os seus descendentes (é o altruismo intergeracional) possam pagar os futuros impostos mais elevados. Nestas condições, os esforços governamentais para estimular o consumo das famílias graças aos empréstimos são neutralizados e as retomas keynesianas votadas ao fracasso. A dívida pública não pode permitir um crescimento da riqueza privada, pelo que não pode ter qualquer efeito positivo sobre o crescimento económico.
Desde que este teorema económico foi anunciado, há 36 anos, sucederam-se as controvérsias teóricas e as avaliações empíricas. Agora, com a crise dos "subprimes" e o seu carácter extremo, vamos talvez enfim saber um pouco mais sobre a sua validade. Entretanto, a poupança aumenta praticamente em todos os países industrializados. Nos Estados Unidos, a respectiva taxa passou de 0% na altura da falência de Lehman Brothers, para 7%, que é o nível mais alto desde há 15 anos. Na Inglaterra, saltou num ano de taxas negativas para 6%. Os franceses, estão por conseguinte muito acima, mesmo se bem longe dos chineses (50%), forçados a poupar para tudo: saúde, desemprego, reforma, etc.
De tudo isto podemos reforçar a ideia clássica de uma excepção francesa em termos de poupança, de uma França poupada e previdente, num mundo inconsequente, vivendo a crédito. Ideia realmente agradável, tendo todavia o inconveniente de não se confirmar nos períodos longos. A França alinha com os outros grandes países e os seus habitantes não são afinal mais formigas ou cigarras que os alemães ou os italianos. Porém, o mito da França do pé de meia é muito resistente. Até foi inculcado através dos manuais escolares, designadamente graças a uma figura simbólica -a de Sully, "mito do aforrador modelo", segundo a expressão do historiador Laurent Avezou, com os seus sucedâneos contemporâneos (Pinay, Balladur). Suprema consagração póstuma, o superintendente das finanças de Henri IV teve, a partir de 1939, o seu rosto nas notas de 100 francos.
No entanto, Michelet, observou que Sully foi sobretudo um homem de negócios modelo, "um restaurador admirável das finanças públicas, com uma extrema atenção para com as suas. Não, não roubou. Mas arranjou maneira de lhe darem muito". Muito antes de Ricardo e de Barro, Sully compreendeu as estreitas ligações entre as finanças públicas, a poupança e a criação das riquezas privadas."

Título original "La France a peur, la France épargne". Autor Pierre-Antoine DELHOMMAIS, Le Monde
Para eventuais contactos com o autor delhommais@lemonde.fr
Tradução e adaptação de António Rebelo
lidiarrebelo@gmail.com

JUNTAM-SE AS ÁGUAS E DÁ NISTO...




São apenas três exemplos, colhidos aqui ao pé da porta, para poupar tempo. Há por aí dezenas e dezenas de outros. Alguns até são visíveis a partir do gabinete do senhor alcaide. Aquele mesmo à frente da antiga CGD, agora um serviço municipal, é o mais próximo.
Trata-se, como decerto os nossos atentos leitores já concluiram, de uma lamentável e inoportuna confluência de águas -a que metem alguns projectistas + a que metem alguns autarcas + a que metem alguns empreiteiros + a que metem alguns funcionários + a que metem alguns jornalistas +a que metem alguns blogues + a que metem os políticos em geral. Juntam-se todas com a da chuva, e dá nisto. Se acontecesse na Europa do Norte, já teria havido milhares e milhares de mortos. Na Holanda então...
Aqui pelas bandas do pacato vale do Nabão, os indefectíveis laranjas, nhurros até ao tutano, continuarão a proclamar que sem as obras do Paiva, o melhor presidente de câmara do país na sua época, agora estaríamos muito pior. Para não contrariar tão excelsas personalidades, apenas uma pequena frase mais, que as fotos são eloquentes: Pois pois, mas o melhor é mesmo ir comprando uns botins de borracha...


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

UM MUNDO MUITO COMPLICADO...


Um mundo realmente muito complicado. Enquanto ali na Pedreira, ao que reza a história, houve um habitante que foi ó Prado aos ditos sem nunca ter ido ao hospital, na Irlanda do Norte a esposa do actual primeiro-ministro fez o que vem nos jornais. Apesar dos seus sessentas passados, certamente porque lá em casa já faltavam os produtos agrícolas, vá de se fazer ao bife. Conforme agora confessou, preferiu a febra (ou o nervo ?) do filho do seu magarefe habitual, cujos têm apenas 19 anos, tantos como os do seu portador.
Aqui pelas bandas do Nabão é o que se sabe pois por aí consta sussurrado. Parece que o que falta a alguns líderes locais, para enfrentarem a crise local, é exactamente o mesmo que faltou lá em casa à senhora deputada Robinson. Produtos hortícolas originários do México.
Perante tudo isto, tendo visitado recentemente o Convento de Cristo e a cidade templária, a convite do Gualdim que como é sabido... o líder do PP espanhol, Mariano Rajoy, provável futuro primeiro-ministro espanhol, mostra-se na foto acima um homem prevenido, que isto uma boa imagem vale mais que mil palavras. Pelo menos cinco, já ninguém lhos tira -três na mão e presuntivamente dois en su sítio. Uns sortudos, nuestros hermanos. Quanto não vale um lider oposicionista que tem a coragem de proclamar publicamente Yo los tengo ! Olha lá se o do simplex alguma vez fez outro tanto ! Para não referir outros mais próximos da torre de S. João...
No fim de contas, é bem capaz de não ser por mero acaso que os espanhóis desafiam os touros sozinhos e a pé, enquanto os portugueses só a cavalo ou em grupo...

A PULGA E OS ELEFANTES

As posições de Michel Rocard, antigo primeiro-ministro francês, que constam dos dois posts anteriores, mostram que é abusivo comparar a crise portuguesa, e sobretudo a tomarense, com a crise internacional. Há, no entanto, pelo menos três aspectos comuns: todas resultam da falta de coragem para mudar de modo de pensar e da evidente falta de ideias fecundas; todas implicam necessariamente mudanças drásticas, sob pena de dramáticas consequências.
A nível internacional, a sucessão de desastres com origem próxima em bolhas especulativas. A nível nacional, as inevitáveis repercussões desses desastres. A nível local, a inexorável caminhada para o abismo da falência e do desaparecimento como comunidade relativamente autónoma. Com é óbvio, preocupa-nos sobremaneira a crise local. Conforme já aqui foi referido anteriormente, designadamente na série "Para tentar perceber a crise", do ano passado, a decadência tomarenses conheceu até agora duas fases: o lento definhamento económico entre o 25 de Abril e a primeira presidência de António Paiva; o vendaval Paiva e as suas consequências.
O lento mas constante definhamento da cidade e do concelho entre 1974 e Paiva resultou sobretudo da conjugação de dois factores primordiais -a drástica redução da componente militar e o costumeiro imobilismo/acomodamento/conformismo local. Terá sido esta irritante situação de facto que parece ter impelido António Paiva a desencadear o seu vendaval. Homem de acção, não conseguiu suportar sem agir a pasmaceira tomarense. Algo eufórico com os primeiros fundos europeus, mas não dispondo de projectos locais consistentes e articulados, remediou a situação à portuguesa -procurou desenrascar-se. "Fez" assim muitas obras, conseguindo convencer a maioria dos eleitores concelhios de que era um salvador, assim ganhando largamente as eleições e acabando por obter alhures um lugar de prestígio e bem remunerado.
Infelizmente para os tomarenses, Paiva errou em toda a linha, conquanto tenha agido convencido de que estava a proceder da forma mais favorável para as populações. E se caiu nas graças dos seu pares, terá sido unicamente porque a cultura política, económica e mesmo tout court, nunca foi nem é o forte dos nossos autarcas, salvo algumas excepções. Os que habitamos na cidade e nas freguesias rurais, percebemos agora que a maior parte da obras do período Paiva e posteriores apenas serviram para sacar fundos europeus e elevar a dívida camarária para níveis preocupantes.
Para mal dos nossos pecados, a actual maioria circunstancial 3+2 não dá mostras de ter planos ou sequer de almejar tê-los. É mais uma maioria de acomodados, que fará sempre o necessário para que nada mude, ou mude apenas o menos possível, não vá dar-se o caso de virem a perder as confortáveis posições que agora ocupam. Os três laranjas seguem as orientações do duo Relvas/Paiva, agora acossados pelo preocupante défice e pelo fim do maná de Bruxelas. Os dois rosas limitam-se a cumprir o acordo que assinaram, não para benefício das populações, mas apenas para obter vantagens pessoais. Não vemos assim, salvo imprevisto trambolhão, qualquer luz ao fundo do túnel para os próximos quatro anos. Até porque, pensando bem, nas últimas autárquicas, o único candidato que apresentou um programa minimamente adequado à actual envolvência política, foi Bruno Graça, pela CDU. Todos os outros alinharam pela clássica chapa 2 -o povo quer é comida, obras e festas. Que não haja dinheiro para custear tudo isso, não parece ter qualquer importância para a generalidade dos nossos políticos. Só a candidato da CDU teve a coragem de admitir implicitamente o b a bá da economia: para poder distribuir riqueza, primeiro há que produzi-la.
Enquanto os nossos concidadãos persistirem em não aceitar a realidade tal como ela é, teremos de continuar a afirmar que é impossível salvar o concelho sem os tomarenses, mas infelizmente também não se pode contar com os tomarenses para essa tarefa. Por enquanto ? Quase sempre o que tem de ser tem muita força.

domingo, 10 de janeiro de 2010

CRISE ECONÓMICA: O QUE AINDA ESTÁ PARA VIR - 2

Tradução da 2ª parte da entrevista de Michel Rocard ao semanário NOUVEL OBSERVATEUR de 06/01/10. para melhor entendimento, recomenda-se a leitura da primeira parte, no post anterior.
"-Quer dizer que ainda não aprendemos nada com esta crise ?
-Pois não, porque isso implica pensar as coisas de outro modo. Teremos de aguardar talvez mais vinte anos. As novas explosões do detonador financeiro vão agravar tanto a desorientação como o desemprego. E acentuar os desequilíbrios sociais, dando assim um bom impulso à reflexão intelectual. Após mais três ou quatro agravamentos súbitos, acabaremos todos por compreender.
-Significa que só depois de mais três ou quatro crises como esta é que haverá mudança do programa económico ? (ver nota 1 no final)
-Não o desejo, mas temo que sim. A análise da crise ainda está por fazer. Para a parte bancária e financeira, diz-se que houve falta de ética e desaparecimento da moral. É uma conclusão repousante. Se houver retorno à moral, não haverá necessidade de mudar outras regras e tudo passará a correr muito bem.
Mas é falso. Impõe-se regressar às causas da estagnação económica. Os friedmanianos tinham postulado desregulamentação >diminuição de impostos >facilidades de crédito para estimular a economia. Já vimos onde isso nos levou. A verdadeira análise implicaria condenar as teses do senhor Milton Friedman e de 13 outros prémios Nobel de economia da mesma escola de pensamento. Acontece, todavia, que em todos os países desenvolvidos, a selecção dos conselheiros dos gabinetes ministeriais, dos dirigentes da banca e dos especialistas em economia, foi feita no âmbito do politicamente correcto em relação a tal doutrina. Acontece assim a esse monumento chamado "Ciências económicas", o que aconteceria na Medicina, caso se viesse a concluir que Louis Pasteur era um impostor. E esta autêntica derrocada intelectual é uma derrocada de homens de muito poder e de grande reputação até agora. E que continuam no vértice das várias pirâmides hierárquicas. Temos de convir que não é nada cómodo para eles.
-Mas devia ser feito pela social-democracia, que inventou o modelo dos "Trinta gloriosos" (ver nota final 2), mas veio a sofrer um acentuado apagamento intelectual e ideológico, devido à concomitante subida dos neo-conservadores e dos friedmanianos. E que agora não beneficia do refluxo de tal paradigma, precisamente porque não se mostra capaz de inventar o mundo que aí vem.
- Assim tratada, coitada da pobre social-democracia ! Em 1920, quando o camarada Lenine tomou o poder na Rússia e lhes disse -"Sigam-me", a social-democracia retorquiu-lhe "Não, primeiro a liberdade". Mas necessitou de mais vinte anos para concluir o raciocínio: o enraízamento na economia de mercado. E ao mesmo tempo foi sempre proclamando que o mercado não se auto-equilibra, sendo necessário corrigir as desigualdades sociais. Não se trata de macro-economia. É um postulado político em matéria de macro-economia. Segundo imperativo -a regulação. Recomendada pelos sociais-democratas por razões éticas, é igualmente o que há de melhor no domínio da macro-economia, como agora se tornou bem claro. Aliás, a social democracia até anunciou a crise: basta ler o relatório do antigo primeiro-ministro dinamarquês Nyrup Rasmussen, em 2006.
Apesar disso, ninguém ouve a social-democracia porque o paradigma mudou. Durante os anos do grande crescimento regulado, o tópico eleitoral da direita era -vote capitalista, terá algumas hipóteses de chegar à riqueza graças ao seu trabalho. O novo sonho dos últimos decénios já era outro -vote capitalista, porque assim poderá enriquecer rapidamente na bolsa. E aí o sistema não aguentou. Porque não pode aguentar. Engendra bolhas especulativas que rebentam umas após outras. Nada de grave. Continua-se a embarrilar o povo -vote capitalista e pode enriquecer a especular na bolsa. A opinião pública europeia apoiou tal paradigma, como se viu nas eleições europeias. Vamos portanto continuar na mesma. E como a esfera financeira entretanto se reconstituiu tal como era antes da crise, incluindo a sua explosividade, não tarda muito vamos ter outra crise.
-A irrupção da questão ambiental em pleno debate sobre o crescimento económico, é um factor de aceleração da tal mutação, ou uma dificuldade suplementar ?
-Trata-se de uma coincidência histórica agravante. E um dos sub-produtos dos excessos do desenvolvimento não regulado. Devia-se ter tratado desse aspecto mais cedo, caso a ideia de planeamento e regulação tivesse continuado nas mentes. Ao mesmo tempo, inviabiliza a esperança de sair da crise graças ao retorno ao anterior modelo de crescimento. O que nos traz novamente à questão da social-democracia.
Nesta crise, até agora foram os sociais-democratas aqueles que menos sofreram. Nos grandes combates do século passado -120 milhões de mortos- havia quatro forças: comunismo, fascismo, capitalismo puro e duro, social-democracia (a mais pequena de todas). A social-democracia acabou por se juntar ao capitalismo contra os outros totalitarismos, porque a liberdade está enraizada na economia de mercado. Mas a social-democracia continuou a proclamar que não deixaria o mercado resolver os problemas de igualdade entre os cidadãos. A nossa identidade é portanto a regulação. É difícil encontrar algo mais actual.
Há dez anos, a moda era afirmar que o modelo escandinavo estava a dar as últimas. Mas eles salvaram-no, um pouco mais abaixo. O âmago do processo deles é a ética da protecção social e da redução das desigualdades. É por aí que entram no sistema económico. E souberam preservá-lo. E depois trata-se de verdadeiras democracias. Os países escandinavos, que têm os impostos mais elevados do mundo, são também aqueles onde todas as sondagens indicam a melhor relação opinião pública/governo. Porque a social-democracia é antes de mais um método de escuta do outro. Um enraizamento na liberdade pelo mercado, acompanhado por uma forte regulação e santificado por uma capacidade democrática para convencer o povo a endossar tudo isso. Repare como a Dinamarca sai da crise ! A social-democracia é antes de mais uma metodologia da acção política, na qual a limitação das desigualdades constitui a entrada ética na organização social. O mercado livre, mas vigiado. O que é válido igualmente para o ambiente. A saída da crise passa inevitavelmente pela social-democracia.
A partir daqui, Michel Rocard respondeu à pergunta "O PS francês é social-democrata ?", com uma dissertação de trinta linhas, que obviamente interessa sobretudo aos franceses, a qual concluiu desta forma: "Qualquer militante socialista de base sonha com a unidade da esquerda, pelo menos nas eleições. Daqui resulta a tendência para usar o palavreado da extrema-esquerda, o que tem elevados custos eleitorais. Mas vou ficar por aqui. Trata-se da minha família política. Comemorei o mês passado 60 anos de filiação. Não me levem a mal se prefiro preservar a nostalgia para mim próprio."
-A sua visão da crise do modelo capitalista torna-o pessimista ?
-De modo nenhum ! É uma aventura absolutamente prodigiosa no plano intelectual, como nunca houve outra desde a Libertação, em 1945. É agradável constatar que afinal aquilo que pensávamos há cinquenta anos, não era assim tão estúpido. Ser de novo portador de futuro. Quando vejo pessoas que não são propriamente imbecis, como Obama ou Sarkozy, usar os nossos instrumentos analíticos, fico mais descansado. O relatório sobre os instrumentos para medir a economia, solicitado a Fitoussi, Stiglitz e Sen, é algo importante, muito importante mesmo. E é um produto da crise. Creio, no entanto, que vamos levar 20 ou mesmo 30 anos a ultrapassar esta crise. E o teatro de operações é antes mais o campo de batalha intelectual."
Entrevistadores Dominique NORA e Dennis OLIVENNES. Título original da entrevista "Comment je vois l'avenir". Título, tradução, adaptação e notas de António Rebelo. Para os francofalantes a entrevista integral está disponível em nouvelobs.com
Nota 1 - Os jornalistas usaram o termo "logiciel" =software, neste caso = software mental
Nota 2 - A expressão francesa "Les trente glorieuses" refere-se aos 3o anos de constante crescimento económico robusto, entre 1945 e 1975.

CRISE ECONÓMICA: O QUE AINDA ESTÁ PARA VIR

John Maynard Keynes

Milton Friedman

Nota prévia:
Michel Rocard é um dos grandes pensadores políticos franceses actuais. Produto da prestigiada ENA, que forma desde 1945 a élite dos dirigentes gauleses, foi inspector de finanças, fundador do PSU, primeiro-secretário do PS e primeiro-ministro. Ultimamente tem elaborado relatórios sobre assuntos sensíveis (taxa carbono, grande empréstimo) para o presidente Nicolas Sarkozy, seu adversário político.
As declarações que a seguir reproduzimos são de leitura difícil e exigem, para o seu cabal entendimento, uma bagagem prévia que nem todos possuímos, mas que poderá ser complementada com a ajuda da internet. Basta ter a paciência de googlar com cada um dos nomes mencionados e saber ler os resultados. Permitem igualmente perceber quão grande é a distância que nos separa das "grandes cabeças" do nosso tempo, a qual nos impõe a maior humildade possível perante os homens e as coisas.
"-A crise já está ultrapassada ?
-Deve estar a brincar ! Ainda vamos sentir alguns solavancos antes de extrairmos conclusões do que estamos a viver. O mundo capitalista conheceu uma profunda revolução desde há trinta anos. E é isso que agora é posto em causa. Não se anda para trás. Após a segunda guerra mundial, três grandes estabilizadores económicos foram instalados. A segurança social: um terço dos rendimentos das famílias em França ( um quinto nos Estados Unidos), passa pelas transferências sociais; por conseguinte, as crises económicas deixaram de ser trágicas, já ninguém morre de fome e Steinbeck já não escreve outra vez "As vinhas da ira". Segundo estabilizador: a intervenção económica do Estado. É Keynes. Os governos utilizam os poderes monetários e orçamentais para corrigir as oscilações do sistema. Enfim, terceiro estabilizador, a política salarial. É Henry Ford e a sua célebre tirada "Pago bem aos meus operários para eles poderem comprar os meus automóveis". A forte distribuição do poder de compra às famílias apoiou o consumo e alimentou a poupança, permitindo financiar o investimento.
-E foi tudo isso que derrubaram a pouco e pouco durante os últimos trinta anos ?
-O fenómeno mais visível foi a expansão da esfera financeira. Em 1971, o dólar americano desliga-se da referência ouro. As paridades entre as diferentes moedas começam a flutuar. Para se protegerem, as empresas solicitam aos bancos e às seguradoras que inventem instrumentos de protecção contra os riscos de câmbio. Dez ou doze anos mais tarde, tais instrumentos transformam-se em produtos financeiros sofisticados -os chamados produtos derivados- que se podem vender e comprar livremente, para especular. Em 1970, quando circulava no mundo um dólar para as operações da economia real, circulava outro dólar para a economia financeira. Trinta anos amis tarde, a mesma relação é de 1 para 120 ! Uma loucura total, os mercados virtuais onde se começam a construir fortunas em total desconexação com a economia real, e mesmo podendo brutalizá-la. As revoltas da fome em África, em 2008, são o resultado da irrupção dos produtos derivados nos mercados do trigo e do leite. Ao mesmo tempo, tais produtos permitem ao sistema bancário deixar de se preocupar com a solvabilidade dos devedores, o que aumenta ainda mais a liquidez virtual e a bolha especulativa. Empresta-se a qualquer um, proclamando "todos proprietários, todos capitalistas, todos investidores na bolsa, fim da luta de classes". É o discurso do presidente Bush filho. Inventam-se veículos financeiros nos quais se disfarçam alguns créditos duvidosos, no meio de créditos seguros. E retira-se tudo dos balanços dos bancos. A crise explode quando em conjunto os bancos se apercebem de que deixaram de poder avaliar a cada momento a fiabilidade dos seus parceiros bancários. Deixaram de emprestar mutuamente e foi o bloqueio geral do crédito, incluindo a letra ou livrança de fim do mês do comerciante da esquina. E foi assim que a crise passou da esfera financeira para a economia real.
-Mas porque é que as economias reais são tão sensíveis aos choques financeiros ?
-Porque sofrem de forte anemia. O aumento do desemprego começou em 1972, com o choque petrolífero. É o outro aspecto desta revolução du capitalismo. Escavacaram o motor "salário" do crescimento ! Os accionistas tomaram o poder. Até ao princípio dos anos 70, os dividendos eram fracos e os accionistas os prejudicados do sistema. Mas quando começaram a ser representados por fundos de pensões, de investimento, de arbitragem, passaram a exigir rentabilidades bem mais elevadas das empresas. Começou então a "externalização" de praticamente todas as funções de mão-de-obra intensiva. Os construtores automóveis, por exemplo, limitam-se agora à montagem final do produto. Fabricam 20% do valor acrescentado daquilo que nos vendem, contra 70 a 75% há 25 anos. Daqui resulta a subida vertiginosa do trabalho precário e do desemprego. É muito poder de compra a menos. Bem como a origem do afrouxamento do crescimento e da terrívrel situação social. As proporções entre desempregados e precários variam. No universo anglo-saxónico, mais precários = menos desempregados. Na Europa, exactamente o contrário. De qualquer forma, são por todo o lado 25% dos trabalhadores. E é por isso que temas a constante estagnação económica.
Por outro lado, o estabilizador "Keynesiano" foi pulverizado. Milton Friedman recebeu o Prémio Nobel de Economia em 1976. Foi o triunfo da doutrina económica segundo a qual o mercado se auto-equilibra, sem qualquer intervenção estatal, e este equilíbrio é o mais perfeito. Este sistema de pensamento tomou conta do FMI, do Banco Mundial, dos governos americano, japonês, inglês... Posto que os mercados se auto-optimizam, quanto menos estado melhor. Foi a doutrina Reagan-Thatcher. Baixaram os impostos, aumentaram os défices, provocaram a explosão da dívida pública..."
(Conclui no próximo post)

Tradução e nota prévia de António Rebelo
Fotos Nouvel Observateur

sábado, 9 de janeiro de 2010

ALTERADO ECO-SISTEMA DA MATA

Conduta para levar a água do aqueduto até ao tanque junto à Torre de Dª Catarina



Nascente antes abastecida pelas águas provenientes do laranjal, que agora seca logo no início da Primavera

Tanque da Horta dos Frades, o mais pequeno da Mata, vazio desde que o aqueduto deixou de trazer água

Aquilo que até aos anos 80 do século passado foi um engenhoso e muito útil processo de rega por gravidade, deixou de funcionar por manifesto desmazelo, quando o Seminário das Missões, que ocupava parte do Convento de Cristo, foi indemnizado e saiu. Como era o pessoal do Seminário que assegurava a manutenção e a fiscalização do aqueduto dos Pegões, porque dele precisava para regar, a partir de então foi o descalabro total.
Com início no tanque da Cadeira d'El-rei, que marca a sua entrada na antiga cerca, o sistema implementado em princípios do século XVII abastecia não só os lavatórios do Cruzeiro e do Claustro Principal, mas igualmente a cozinha, a Sacristia Nova, a fonte ornamental do referido claustro, o chouso, o laranjal, a bica do actual jardim da Porta do Sol, indo terminar no tanque junto à Torre de Dª Catarina. A partir daqui, dada a constante rega do laranjal, ia alimentar por infiltração a nascente situada mais abaixo, (com uma curiosa abertura que muitos acharão parecida com determinada zona anatómica feminina), depois o tanque da Horta dos Frades, a referida horta e finalmente o Ribeiro dos Sete Montes e o curso do Nabão.
Além deste percurso complexo, havia um outro entre o tanque da Cadeira d'El-rei, o tanque grande, a antiga horta e o Ribeiro dos Sete Montes. Actualmente, exceptuando a nascente da Charolinha e a episódica nascente acima referida, graças à abundante pluviosidade do presente Inverno, tudo o resto deixou de funcionar, precisando agora de adequadas reparações, antes de voltar a ter a sua antiga e manifesta utilidade. Até os tanques se têm mantido vazios durante o Verão, se calhar porque será mais barato, em caso de incêndio, usar água da rede e helicópteros a trazerem-na do rio. Ou estaremos enganados ? Há por aí tantas opções estranhas que uma pessoa já nem sabe...

MUDANÇA DE PLANOS

Escrevemos no post de ontem que iríamos hoje tentar demonstrar que o agora aparentemente inútil aqueduto dos Pegões faz na realidade muita falta. Entretanto houve leitores que se lastimaram de não entenderem muito bem o tipo de construção com a cobertura naquele estado, e de não saberem como são as abóbadas de berço. Desde sempre adeptos da elasticidade mental, resolvemos alterar os planos. Assim, voltamos a falar mais detalhadamente da mãe-d'água da Porta de Ferro, nos Brasões, ficando aquela demonstração para logo à noite. Estamos certos de que os nossos leitores compreenderão, mais a mais tendo em conta o preço da assinatura do nosso blogue, não é verdade ?
Pois aqui temos então a construção já referida, com a abertura de acesso encimada por um frontão triangular. Tem igualmente uma forte e interessante porta de ferro, do princípio do século XVII, tal como o edifício, a qual está permanentemente aberta. Em cima, pode ver-se que duas primitivas frestas foram posteriormente tapadas, certamente para evitar a entrada de aves, designadamente nocturnas, nos tempos idos em que a porta de ferro ainda funcionava.


E aqui temos a abóbada de berço, ou semicircular, neste caso sem caixotões, que estavam muito na moda naquela época. Repare-se que as infiltrações começam a ser importantes, o que nem é de admirar tendo em conta aquele coberto vegetal exterior, onde deviam estar lajes ou telhas. A eventual decoração da abóbada, como acontecia nas outras casas da água (ver post anterior), essa se existiu, há muito que se sumiu.



Com o aqueduto, património do Estado, que o mesmo é dizer de todos nós, ao abandono há décadas, cada qual tem-se amanhado como pode, usando aquela velha máxima segundo a qual "a tropa manda desenrrascar". Lisboa é lá longe, o IGESPAR provavelmente nem sabe que isto existe e a autarquia acha que, não sendo a gestora, também não é nada com ela. Até já aconteceu, há anos atrás, que um pacato cidadão ali da zona resolveu deitar abaixo um troço do aqueduto, para assim poder chegar com o tractor a uma pequena parcela agrícola. Tanto quanto sabemos, a situação mantém-se e nada lhe aconteceu até agora. E também já houve um outro que se veio queixar, numa das reuniões públicas da câmara, de que um vizinho estava a roubar a água do aqueduto. Quando lhe perguntaram como é que sabia isso, respondeu candidamente -É que antes roubava-a eu, mas ela agora já não chega ao "endireito" da minha fazenda... Sem comentários.
Praticamente em regime de autogestão, a água que através do aqueduto devia chegar ao convento e à velha cerca, corre agora em abundância num regato ao lado...enquanto no convento se consome água da rede pública, mesmo para as casas de banho e para regar os jardins. Somos na verdade um "ganda" país. E rico, ainda por cima !

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

HÁ COISAS REALMENTE ESTRANHAS

Este é o magnífico aqueduto dos Pegões, ou Pegões Altos na linguagem popular. Orgulho da freguesia arrabaldina de Carregueiros, sucessora da freguesia de S. Martinho, mais tarde S. Miguel de Porrais, a imponente construção data do chamado período filipino, ou dos reis espanhóis. Foi edificado entre 1596 e 1613, para resolver o problema do abastecimento de água corrente ao Convento de Cristo, naturalmente graças aos rendimentos da opulenta Ordem de Cristo, de longe a mais rica do país. Classificado como Monumento Nacional desde a primeira metade do século passado, é parte integrante do Convento, e infelizmente uma espécie de enteado do IGESPAR, a entidade que administra a antiga casa da ordem. Certamente apenas por desconhecimento, e não por desmazelo ou desprezo, a referida entidade tutelar insiste de forma estranha na ideia de proceder à limpeza/lavagem da Janela do Capítulo, iniciativa cujas vantagens estão por demonstrar, quando no mesmo monumento há situações de bradar aos céus, a necessitar de providências urgentes.


É certo que para os menos conhecedores, o aqueduto já há muito deixou de ter qualquer utilidade para o Convento, até porque a água que nele deveria correr é agora desviada pelo caminho. Trata-se, contudo, de uma visão superficial das coisas, conforme pretendemos demonstrar no próximo post.
Para já, fiquemo-nos por este tristérrimo aspecto parcial do interior da primeira "casa da água", a contar da velha Cerca do Convento. Datada no exterior de 1613, com uma excelente porta em ferro forjado e esta magnífica abóbada em meia esfera que se vê na fotografia, encontra-se há décadas de porta escancarada, à mercê de todos os vandalismos. A antiga e bela decoração pintada, de tipo geométrico, cujos indícios ainda são visíveis, é agora praticamente irrecuperável na totalidade. A própria abóbada, vítima do tempo e da incúria dos homens, um dia destes fará a sua derradeira viagem, rumo ao solo. Seguir-se-ão os habituais lamentos, do tipo "ninguém previa uma coisa destas", ou "eu bem avisei, mas ninguém ligou nenhuma..."

Uns quilómetros mais adiante, a grande casa da água e nascente da Porta de Ferro, junto aos Brazões, uma construção de 1610, com abóbada de berço e um engenhoso sistema de repartição das águas, está neste estado miserável. Parece um edifício colonial abandonado, numa qualquer planície africana ou sul-americana. O que aqui vemos são duas paredes exteriores e a respectiva cobertura. Onde devia estar um telhado de telha romana, ou de canudo, há um autêntico bosque do tipo mediterrânico. Deverá ser o resultado do tal desconhecimento do IGESPAR. O que se compreende. Apesar de relativamente perto do Convento, não há qualquer estrada decente que chegue até aqui. Tem de se andar um bocado a pé, depois de perguntar o caminho à reduzida população local. E em tempo de chuva sujam-se os sapatos, situação sempre aborrecida, já que ninguém gosta de passar por borra-botas. Quanto a sinalização para turistas, nem falar ! Se até na cidade há falta dela, estavam à espera de quê, aqui no meio de uma mata rural, onde os turistas nunca chegam ?


É GUERRA, É GUERRA ! Resposta ao cidadão Veloso

Exemplo de uma recente intervenção, por técnicos credenciados de conservação e restauro, neste caso na Ermida da Conceição
Resolveu o respeitável cidadão Veloso lançar, em CIDADE DE TOMAR, página 23, uma disfarçada catilinária contra os signatários do apelo a favor da preservação da Janela do Capítulo, com o seu aspecto actual de obra de arte com 500 anos. Como fui um dos primeiros signatários de tal documento, sinto-me na obrigação de lhe responder. Entre outras razões, porque fiz e faço parte daquelas centenas de milhares de portugueses que não fugiram. Foram treinados para a guerra e fizeram a guerra em África, muitos sem com ela concordarem, e de manta às costas. Outros tempos, que oxalá não voltem !
Tem o cidadão Veloso a coragem de exercer o seu direito de cidadania, expondo publicamente os seus pontos de vista e assinando, neste caso à cabeça. Louvo-lhe tal atitude. Docente do ensino politécnico tomarense, cuja qualidade é geralmente reconhecida a nível nacional; cujos alunos são, como se sabe, de primeiríssima escolha; e cujos métodos de recrutamento do corpo docente têm constituído um verdadeiro paradigma de transparência e da igualdade de todos os cidadãos perante as leis do país, está o citado cidadão naturalmente acima de qualquer suspeita, em termos de declaração de interesses.
É certo que a empresa IN SITU Conservação de bens culturais, Lda, que foi contratada para a primeira fase da limpeza e tratamento da nave manuelina, por ajuste directo, (o que quer dizer sem concurso público), afirma ter colaboração com o Departamento de Arte, Conservação e Restauro, do Instituto Politécnico de Tomar, onde justamente o cidadão Veloso exerce em parte o seu ofício de historiador encartado. É igualmente verdade que uma das técnicas especialistas da referida empresa, que até apresenta no seu currículo aquela desgraça que foi a intervenção no exterior do Corredor do Cruzeiro do Convento de Cristo, foi baptizada como Maria Madalena Pinto Veloso.
Serão apenas meras coincidências, até porque se acaso fossem outra coisa, o respeitável cidadão Veloso não teria deixado de fazer a sua prévia declaração de interesses, de forma a não induzir os seus numerosos e dedicados leitores em erro, não é verdade ? Simples coincidências, portanto, mas ainda assim pouco ou nada oportunas, mormente quando se escreve, designadamente isto -"Vamos já fazer abaixo-assinados a exigir que os técnicos de restauro se limitem...a olhar".
Se pretendesse ser cruel, diria que em muitos casos, na verdade, se os técnicos de restauro se têm limitado a olhar, os monumentos intervencionados estariam agora bem melhor. E posso apresentar exemplos devidamente documentados. Só o não faço agora para poupar espaço e a paciência dos leitores.
Para além da involuntária baralhação raciocinal do cidadão Veloso, pois o património não existe para dar trabalho aos técnicos, estes é que se formaram para servir o património, só onde e quando seja inquestionavelmente necessário, avultam duas outras questões. No meu modesto entendimento, de mero cidadão apenas alfabetizado, o respeitável cidadão Veloso, até pela sua excelsa formação universitária, em vez de lateralizar a questão num texto vagamente sarcástico, andaria muito melhor se completasse a sua frase "Os monumentos degradam-se:" com uma demonstração e exemplos claros e inequívocos de que tal degradação resulta da pretensa sujidade e, sobretudo, que as projectadas limpezas/lavagens os deixaram ou vão deixar menos degradados e mais protegidos. Como diz o povo ao qual pertenço -Isso é que era obra !
Um último tópico. Não nasci em berço de ouro, bem pelo contrário. Vim ao mundo ali no hospital da Rua da Graça e fui baptizado em S. João Baptista. A minha mãe era lavadeira e nunca foi à escola. Como me formei em Paris, acredito que tal situação incomode seriamente a autoproclamada "boa sociedade" tomarense. Ou pelo menos uma parte. Dito isto, sem ponta de orgulho, mas igualmente sem sombra de vergonha, recuso incluir-me no âmbito da quanto a mim infeliz frase do cidadão Veloso: "Porque nós, os legítimos nativos, é que sabemos !"
Ser tomarense de nascimento e de vivência, poderá não ser uma qualidade. Mas também não é, de certeza, um defeito. Tal como acontece com os metecos, desde que não abusem ! Caso contrário, é como exclamou, a dada altura, a filha do "venerando" -Ora essa ! É guerra, é guerra !
António Rebelo

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ANÁLISE DA IMPRENSA DA ZONA ESTA SEMANA

COLABORAÇÃO DA PAPELARIA CLIPNETO LDA.
Além do tema anunciado em manchete, valerá a penas ler n'O TEMPLÁRIO "A saga de um investidor" e "Como se perdem investimentos em Tomar", ambos da autoria de Isabel Miliciano. Trata-se da velha questão do funcionamento da autarquia, mais precisamente do Departamento de Administração Urbanística. Os cidadãos queixam-se de que os processos demoram uma eternidade, alguns eleitos alegam que os técnicos dominam demasiado e alguns destes contrapõem que há eleitos que não sabem coordenar. O velho óbice lusíada -São todos culpados, menos eu ! Igualmente no semanário dirigido por José Gaio, ficamos a saber que cabe a Luis Ferreira, na qualidade de vereador da cultura, a responsabilidade pelas comemorações dos 850 anos da fundação do castelo, os 100 anos da república, os 200 anos da 3ª invasão francesa e os 500 anos da janela do capítulo (Será por isso que lhe querem lavar a cara ?). Miguel Relvas tinha aventado a hipótese de Carlos Trincão, como comissário para as ditas comemorações, mas se calhar ficou tudo em águas de bacalhau. Como já vai sendo costume.
Luís Ferreira anunciou já, refere O TEMPLÁRIO, a edição de um livro com a tradução do chamado Foral Novo, concedido por D. Manuel I em 1510. Pela nossa parte, teríamos preferido que se restabelecesse a primitiva via de acesso à vila de Tomar, pela Porta da Almedina. O foral manuelino tem um interesse muito relativo, posto que há dezenas deles obedecendo ao mesmo "padrão jurídico". Mas a César o que é de César, para evitar que venham por aí com a questão dos técnicos. Os senhores formados em história que tenham a amabilidade de se pronunciarem...
O médico Bento Baptista continua a demonstrar que "não tem frio no rosto". Em declarações ao MIRANTE, mostra-se descontente com a actual maioria relativa do PSD, que acusa de ter perdido as eleições por culpa própria e de ter negociado mal com os socialistas tomarenses. Em relação a Tomar o referido semanário pouco mais publica. Há, porém, uma reportagem sobre o muito badalado projecto "Ofélia Club", em Abrantes, com um investimento anunciado de 60 milhões de euros e a prevista criação de 500 postos de trabalho. Afinal, no início de Dezembro, esgotou-se o prazo para levantar o alvará da obra, sem que alguém o tenha vindo levantar...e pagar. Querem ver que a doença que tem atacado os projectos turísticos tomarenses também já chegou a Abrantes ?! Se calhar é do mesmo tipo do nemátodo dos pinheiros, que nada nem ninguém consegue curar.


CIDADE DE TOMAR aparece esta semana todo cheio de genica, pelo menos na forma e na variedade. Além da acutilante manchete, a confirmar o que aqui escrevemos há dias, (que não é necessário tentar encravar os actuais autarcas, que eles encravam-se sozinhos), até conseguiram apurar que a árvore mais velha da Mata é um carvalho com cerca de 700 anos. Na verdade, embora a maior parte já tenham sido transformadas em cavacas, pelos anteriores guardas, julgamos que ainda por lá haverá algumas oliveiras um pouco mais velhas. Diríamos até coevas da fundação do castelo, ou mesmo anteriores.
Sobre o "encravanço" camarário de 11 milhões (oito da ParqT e três da Tomarpolis), cabe lembrar a velha máxima da avó tartaruga: "Devagar que estou cheia de pressa !", que os portuguese transformaram em "devagar se vai ao longe". Em qualquer caso, mais uma amostra dos inconvenientes da gestão tipo carga de cavalaria, sistematicamente praticada por António Paiva e nunca contrariada pelos seus anteriores vereadores.
Curiosa, mesmo curiosa, é a página 5 do decano da imprensa local -"Cinco novas unidades hoteleiras e um campo de golfe" "Se o ano de 2010 correr muito bem para Tomar..." O pior vem a ser a maldita conjuntura económica local, nacional e internacional. Até o actual embaixador de Portugal na OCDE, o antigo ministro Manuel Maria Carrilho, que é filósofo, julgou necessário fazer uma análise económica, no Diário de Notícias de hoje. Diz ele que foi o facto de todos terem abusado do crédito a verdadeira origem da crise. Acrescenta que é tempo de mudar de estilo de vida, contentando-se com menos e moderando os consumos, pois não é de todo viável uma vida a crédito. A autarquia tomarense, encravada até às orelhas, o que terá a dizer a esta perspectiva tão sombria ? Continua como até aqui ? Ou vai pensar no assunto ?
(Ler igualmente o post anterior "Dão-me licença que vos ofenda ?"


DÃO-ME LICENÇA QUE VOS OFENDA ?

Da edição desta semana de "Cidade de Tomar", com a devida vénia ao jornal e ao autor, publicamos parte do texto supra-identificado, naturalmente sem comentários, que não deixarão de vir a seu tempo. Talvez por ocasião do próximo carnaval, por motivos que na altura tencionamos explicitar.
"Tenho que me penitenciar por utilizar aqui uma expressão policial e, ainda por cima, norte-americana, mas inspirei-me no atraso de vida que por aí vai. Vejo a crescer uma preocupação em congelar toda a acção, por medo puro de fazer alguma coisa... Segundo parece, tudo quanto quebre a rotina em que mergulhámos conduzirá a perigos inimagináveis...
Na verdade, folheando a imprensa local ou navegando pela Internet, fico com a impressão de que, suavemente, deslizámos até à borda de um pântano de paralisia. E dou alguns exemplos:
Os monumentos degradam-se: é preciso evitar perigosíssimas intervenções que lhes pretendam limpar as crostas da idade que, afinal, vejam bem, os protegem das chuvas ácidas. Deus velará pela sua conservação, mais ainda se se tratar de monumentos ao Seu serviço... Vamos já fazer abaixo-assinados a exigir que os técnicos de restauro se limitem ... a olhar. Porque nós, os legítimos nativos, é que sabemos !"
Esclarecimento de Tomar a dianteira: O cidadão Veloso, mestre em História, exerce como professor coordenador no Instituto Politécnico de Tomar, há longos anos.

BURACOS E BOAS NOTÍCIAS - 2

Sendo as boas notícias aqui em Tomar quase tão raras como a chuva no deserto de Atacama, quando aparecem, convém agarrá-las logo pelos cabelos, não vão elas sumir-se sem deixar rasto. Neste caso dos buracos nas ruas, o pessoal rezou às santas e aos santos, não tendo rezado a Deus porque se encontrava a banhos alhures. Vieram depois do ano novo reparar o buraco da Rua Aurora Macedo, mas limitaram-se a entulhá-lho. Novas rezas, para dizer que um dia destes tudo voltaria à primeira forma.



Eis senão quando, maravilha das maravilhas, (íamos a escrever milagre, mas não se pode que é pecado), as nossas rezas foram ouvidas. Como mostra a fotografia, voltaram esta manhã os trabalhadores camarários e, pela primeira vez na história recente, em vez de calcetarem e ficarem a aguardar novos buracos nos mesmos sítios, escavaram, encontraram as lajes que cobrem o colector de esgotos, acompanharam as juntas e outras fendas detectadas, para finalmente voltarem a cobrir e calcetarem. Exactamente como aqui tínhamos dito. Excelente trabalho, portanto. Para agradecer ? Claro que não. Quem cumpre as suas obrigações não nos faz nenhum favor. Ou estamos enganados ? Estamos ?! Nesse caso, muitíssimo obrigados, pois mais vale prevenir que remediar, e candeia que vai à frente alumia duas vezes... Dizem !

UM CASO EXEMPLAR - 2


O caso do prédio em construção na Rua da Fábrica, cujo proprietário pretenderia agora obter licença de habitação, para poder fazer as escrituras referentes a algumas fracções já vendidas, tem dado algum movimento aqui ao blogue. Posteriormente baptizado "Caso Ervilha", por pelo um dos nossos comentadores, levou-nos a perceber que alguns, se não nos mandaram à fava, pele menos terão ficado enchicharados. Fica tudo no domínio das leguminosas, sendo que, até prova em contrário, o que aqui escrevemos anteriormente poderá ser tudo menos parvoíce. Adiante.
Perante as reacções convergentes, resolvemos fazer o óbvio: como nos velhos tempos, pegámos no cântaro e ala que se faz tarde, rumo à fonte. Agora é só despejar.
Tudo devidamente verificado, o referido construtor não tem nem nunca teve licença de construção. Apenas uma autorização inicial, a qual lhe foi passada unicamente porque os prédios confinantes ameaçavam desabar parcialmente. Com "as costas quentes", a pessoa em questão entusiasmou-se e foi indo por aí fora, todavia sem qualquer suporte legal. Curiosamente, conhecedora da situação, a autarquia também nunca recorreu à figura jurídica do embargo, atitude para a qual os eleitos terão, bem entendido, uma explicação cabal. Só não sabemos é qual. Viremos as saber ?
Neste momento a situação parece-nos transparente -Está a ser elaborado um plano de pormenor para toda aquela zona, desde o ex-estádio até ao Açude de Pedra, o qual, uma vez aprovado, permitirá então motivar uma decisão final sobre o citado imóvel em construção. Quando é que o plano de pormenor estará pronto e aprovado ? Neste momento ninguém parece estar em condições de responder com precisão a tal pergunta. Vamos andando e vamos vendo...


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

UM COMENTÁRIO MUITO INTERESSANTE


Ora aqui está um comentário muito interessante. A vários títulos. Desde logo, porque se nota perfeitamente ser obra de alguém "inside" (para os modernaços), "do serralho" (para os clássicos) ou "do ventre do monstro" (para a oposição ao actual executivo). Depois, porque permite ficar a saber que a tal entidade jurídica proprietária do prédio em construção da Rua da Fábrica, se chama Ervilha, certamente por alcunha. Como não conhecemos o referido cidadão, ficamos na mesma. A não ser que o tal apodo de Ervilha seja afinal uma maneira (extremamente polida, cumpre reconhecer) de por antonomásia nos mandarem à fava. Mas não, reflexão feita, estes modos refinados são mais de exímios cultores das letras, o que manifestamente não é o caso, apesar do estilo escorreito do citado comentário.
Resta a matéria mais substantiva, mais técnica, digamos assim, que nos parece ter dois andamentos e uma informação útil. Primeiro os andamentos. Resulta curioso que "o amigo Rebelo usualmente peca", em "moderato cantabile", se tenha transformado, algumas linhas mais abaixo em "as parvoíces que o sr. às vezes escreve neste blog ! Porque pouco me interessa...", manifestamente em "allegro molto vivaccio". Haja calma, senhores ! Afinal ninguém vos ofendeu deliberadamente e as exaltações encurtam seriamente a esperança de vida. Cuidado com os AVCs !
Se quiséssemos azedar esta troca de ideias, diríamos que, em matéria de parvoíces, como aliás está à vista, quem nunca pecou que faça o favor de atirar a primeira pedra. Mas não vamos por aí. A cidade precisa é de entendimento e de concórdia, resultantes de políticas fecundas e de verdade. Não de estéreis quezílias pessoais.
Vamos, por conseguinte, à informação substantiva: "Basta consultar o atendimento do DAU". Pois não deixaremos de tal fazer um dia destes, pelo que seria muito útil se tivessem a amabilidade de acrescentar "e pedir para falar com...", naturalmente seguido do nome do responsável em questão. Que nestas coisas, por vezes é como na tropa, antigamente -é sempre melhor falar com o comandante ou com o oficial responsável, mas há casos em que os sargentos é que "dominam o esférico"...
De qualquer forma, isto de tentar obter informações publicáveis, para respeitar o princípio do contraditório, tem dois óbices. Um consiste no facto de aqui no blogue não haver jornalistas profissionais ou amadores, pelo que nos limitamos, seguindo a escola francesa de jornalismo, a publicar "a verdade tal como a vemos", o que naturalmente nos dispensa do tal contraditório, visto que a nossa verdade é praticamente igual à nossa opinião, pelo menos neste caso da informação.
O outro óbice é bem mais obstrutivo, como passamos a explicar com um caso concreto. Há meses e meses que procuramos obter acesso a um processo e a umas actas dos anos 70/80, do século passado. Pois até agora nada. O município de Tomar até guarda um velho livro de actas do século XV, do tempo do Senhor Infante D. Henrique, mas, apesar da disponibilidade em tempo útil manifestada pelo senhor presidente, não consegue, ao que nos dizem, encontrar livros de actas de 1978/83, nem o processo referente à doação do Convento de S. Francisco, e posterior venda de uma parte dele. Há coisas...
Por tudo isto, parece-nos ser claro que a atitude municipal nem sempre é assim muito colaborante com quem pretende exercer os seus direitos de cidadania. O que naturalmente nos leva a evitar, tanto quanto possível, incomodar os senhores funcionários, como sucedeu até agora neste caso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LAVATÓRIO TIPO MULTIBANCO

Na noite de ano novo publicou-se neste espaço um quebra-cabeças com três fotos, de outros tantos motivos tomarenses. Certamente devido à natural euforia daquela noite, ninguém pareceu muito interessado na questão. Antes assim. É sinal de que vão tendo vidas felizes e bastante ocupadas. Em todo caso, pedimos licença para insistir a propósito desta foto. Trata-se do lavatório manuelino da sala do capítulo do Convento de Cristo. Sim ! E depois ?, indagarão os habituais cépticos.



E depois trata-se de um lavatório à portuguesa, ou lavatório tipo máquina multibanco. Dado que na altura, e ainda durante mais um século, não havia água corrente no convento, uma vez que o aqueduto dos Pegões é de 1613, quando os senhores comendadores da Ordem de Cristo, de longe a mais rica do país, pretendiam lavar as mãos ou beber água (o que era bem raro), dirigiam-se a este lavatório. A curiosidade reside no tipo de abastecimento, que não era nenhuma nascente, mas apenas a água previamente despejada pela criadagem na cavidade um pouco acima, do lado direito. Exactamente como nas máquinas multibanco -para sair dinheiro pela frente, alguém tem de previamente alimentar a máquina pelo outro lado. Os senhores autarcas, os senhores técnicos superiores e dirigentes de colectividades, não perderiam nada se meditassem um pouco neste exemplo. Sobretudo numa época em que há cada vez mais eleitores cansados de despejar água para que outros possam beber ou nela lavar as mãos. Como Pilatos ?


UM CASO EXEMPLAR




UMA MÁQUINA MULTIBANCO COM PERNAS E DIREITO A VOTO ?
Escrevemos ontem sobre a nefasta política da autarquia tomarense, que em vez de atrair os potenciais investidores, parece tudo fazer para os afastar. Com os nossos leitores decerto se recordam, anteriormente tínhamos mencionado alguns indícios da chamada prática fundamentalista -apresentar dificuldades para depois negociar facilidades. Como sempre, houve quem discordasse destes nossos pontos de vista. Efeitos dos óculos partidários. Fomos por isso à procura de casos concretos e encontrámos este, sem qualquer esforço da nossa parte.
Ali na Rua sa Fábrica, frente à sede do PSD, determinada entidade jurídica, que desconhecemos, solicitou licença de construção. De negociação em negociação, de acordo transitório em acordo transitório, a referida entidade acabou por ceder gratuitamente ao município uma cave, com entrada pelo parque de campismo, com uma superfície útil de cerca de 400 metros quadrados. Ao que conseguimos apurar, o local assim obtido destinava-se a sede de uma colectividade concelhia, quando ainda se tencionava mudar o campismo para outro lado.
Além da cedência gratuita da citada cave, a mesma entidade pagou 149 mil euros de licença de construção, ou seja a bonita soma de 29 mil e 800 contos. Um excelente T 3, em suma.
O tempo foi passando e agora a tal entidade, com o prédio em vias de conclusão, tem necessidade de obter a licença de habitação, para poder efectuar as escrituras de alguns apartamentos já vendidos, assim conseguindo liquidez para prosseguir com os acabamentos. Pois não senhor ! Têm sido dificuldades e mais dificuldades. E porque tem de vedar convenientemente o r/c; e porque tem de mandar calcetar o passeio; e porque aquilo ainda não está concluído; e porque mais isto e mais aquilo.
O lado curioso da questão, que até seria cómico se não fosse trágico, é que a gerência da entidade em causa, ao que parece, até costuma votar laranja, já tem "ajudado" o PSD, e faz parte das amizades pessoais de certo autarca da actual maioria. Integra portanto o tal grupo dos que já têm a cabeça cheia de galos, mas continuam às caroladas na parede, por ignorarem que essa é a origem dos galos. É caso para dizer -olha se calha a ser da oposição !
Porque a triste verdade é esta: Ao longo de todo o processo o tal gerente tem sido tratado pela autarquia como uma simples máquina multibanco com duas pernas e direito a voto.
Tudo legal ? Sem dúvida ! Não houve qualquer processo intencional de arranjar dificuldades para vender facilidades ? Pois certamente que não. Mas lá que parece, parece !
Provavelmente todos os intervenientes em nome do município terão agido e estarão a agir com a melhor das intenções e com o máximo respeito pelas leis em vigor. Mas parece não se darem conta de que a informação sobre estes casos se propaga na cidade e na região como um rastilho de pólvora. E em tal contexto, quem quer investir em Tomar ? Dizem alguns empresários cá residentes que só se for algum maluco vindo da Patagónia.
Há falta de bom-senso, é o que é !

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

É PENA, MAS ESTÁ TUDO ROTO...




Estas três fotografias, tiradas hoje, mostram o estado dos telhados de outros tantos edifícios, propriedade do município. Estão todos rotos e a precisar de substituição urgente. Convento de Santa Iria, Central eléctrica e Fundição tomarense, três ilusões nabantinas. Para o convento, constou que havia interessados e mais nada. Para a ex-fundição e para a central, fala-se do tal museu polinucleado, sem que se perceba minimamente quem assumirá os custos do seu funcionamento, caso chegue sequer a ser concluído.
Escreveu-se no post anterior que os nossos actuais autarcas são, simultaneamente, tão boas pessoas e tão fraquinhos politicamente que se encravam sozinhos. É realmente triste -e doloroso de escrever-, porém inteiramente conforme com a realidade. A actual maioria e a oposição, não têm nem nunca tiveram ideias, planos ou estratégias minimamente adaptados à realidade envolvente. Daqui resulta, em linguagem de futebol, para mais fácil entendimento, que não têm domínio de bola nem poder de finta, que lhes permita conduzir o jogo. E não conduzindo, tanto na política, como no desporto, na diplomacia, na guerra, ou no amor, é-se conduzido. Exactamente o que vem acontecendo em Tomar, de há uns bons anos para cá. Eleitos e eleitores vão ocupando os seus lugares, procurando não fazer ondas, na expectativa de que algo ou alguém lhes venha resolver os problemas quotidianos, ou os de curto, médio e longo prazo. Agora aguardam que a crise acabe. Como se a crónica crise local tivesse alguma coisa de substancial a ver com a situação do País, da Europa ou do Mundo.
O grande drama local consiste em que os nossos eleitos, ao não terem o amparo de programas de acção sólidos, estão igualmente desprovidos de real experiência política e de capacidade de liderança. Nestas adversas condições, não é preciso chamar especialistas de política local para perceber que a carripana nabantina deixou de andar desde há muito, porque lhe faltou e falta um motor eficaz e rodas que não sejam quadradas. Sem estes dois quesitos, está-se mesmo a ver que não sairá do mesmo sítio. Só com muitos a empurrar, se e quando os houver. Nas actuais condições, ninguém está para isso. Preferem dar corda aos sapatos, rumo a poisos mais clementes e alegres.
Aos tomarenses em geral, autarcas incluídos, falta-lhes vivência, falta-lhes experiência, falta-lhes mundo, para poderem fazer comparações. Se não fora assim, já teriam intuído que a actual atmosfera nabantina, com gente triste, encafuada, calada, desorientada, caga na saquinha, sempre a tentar escafeder-se dos problemas, é muito semelhante ao clima reinante na RDA ou na Polónia, nos anos 70 do século passado. E compreendido igualmente que um tal clima doentio, de desconfiança, de represálias encapotadas, de alergia às críticas, de oportunismo rasteiro, de subserviência, é totalmente inaceitável para candidatos ao investimento. Não há abertura, não há franqueza, não há sossego interior, não há real paz social. Tudo condições, sem as quais é vão aguardar pelo progresso. E sem progresso...
Para cortar cerce qualquer ideia de eventuais ajudas governamentais, passamos a citar parte da entrevista do ex-ministro da economia, o socialista Daniel Bessa, no PÚBLICO de hoje. Instado a justificar o seu apoio a uma política de redução da despesa pública, o ex-ministro do governo Guterres, não hesitou: "Não tenho dúvidas de que será necessária porque a alternativa, por via fiscal, para reduzir o défice, seria impossível. Se eu quisesse resolver as coisas através de um aumento do IVA, a taxa normal teria de ir para 35 %. Se quisesse resolver só com o IRS, a taxa máxima teria de subir até aos 87 %. Um pacote usando os dois impostos, dava um IVA de 23 % e um IRS de 52 %. São medidas muito violentas e portanto não há alternativa à redução da despesa pública." Mas cortar onde ? perguntou-lhe o jornalista. "Não há verdadeira redução da despesa que não passe pela privatização de alguns serviços. Porque as outras alternativas é mandar embora funcionários públicos ou reduzir nominalmente os salários. Os países que enfrentaram esta questão com bons resultados, fizeram-no privatizando escolas e hospitais. As escolas continuariam de pé e os hospitais também, mas o estado sai e os particulares vão ter de pagar, com políticas de apoio para os mais baixos rendimentos"...
É neste contexto que os autarcas tomarenses, sem o dizerem, continuam a confiar nos hipotéticos fundos de Bruxelas e de Lisboa para sairmos da cepa torta. Já la dizia o outro: um homem no fundo de um poço vazio olha para cima e julga que o planeta se resume ao pequeno círculo que vê. A tal falta de mundo...