segunda-feira, 15 de outubro de 2012

HÁ MESMO OUTRO CAMINHO ???

"Agressão sem pacto"

"Não é agradável, mas é preciso dizer que as propostas da extrema-esquerda, PCP, BE e CGTP, são um disparate. Rejeitar o "pacto de agressão", como lhe chamam, e renegociar a dívida iria não reduzir a austeridade, mas aumentá-la imenso.
Isto não significa impedir essas forças de afirmarem o que quiserem e, muito menos, sugerir punição por fazê-lo. É preciso cautela, porque elas estão sempre prontas a fazer-se de mártires, acusando de antidemocrático quem se atreva a criticá-las. Ninguém as quer perseguir. São movimentos legítimos, que devem ser levados a sério e avaliados pela seriedade do que defendem. Têm todo o direito de dizer o que quiserem, tal como existe o direito de livremente as comentar.
É evidente que têm toda a razão em repudiar a austeridade. Aliás nisso estão como todos os partidos e orientações. Ninguém em Portugal gosta ou deseja sacrifícios. O facto de a sua rejeição ser mais sonora e violenta não significa maior desaprovação, só menos cortesia.
O que os distingue é a forma como reagem aos sofrimentos que afectam todos. Se rejeitássemos a dívida externa e abandonássemos os credores teríamos, é claro, um benefício imediato, eliminando os juros e ónus dessa dívida. Mas o que nos levou a pedir ajuda externa pouco teve a ver com isso.  A causa aflitiva vinha de os mercados se terem fechado a novos empréstimos, impedindo os financiamentos de que o Estado precisa para sobreviver. O problema dos países em dificuldades financeiras, como o das pessoas, é menos o que já devem do que aquilo que precisam de continuar a pedir emprestado.
O pacote de ajuda aprovado a 17 (Econfin) e 20 (FMI) de Maio de 2011 trazia consigo 78 mil milhões de euros até final de 2013, quase metade da nossa dívida pública directa à data do acordo. Esse enorme empréstimo de último recurso foi feito com condições, a famigerada austeridade, porque é preciso resolver o desequilíbrio que gerou a situação.
Aliás, o mais irónico é que a austeridade pouco tem a ver com a dívida. Ela serve para curar o défice, uma sangria que teremos de resolver, haja ou não dívida. Rejeitar juros e reembolsos não curaria a doença, só adiaria os sintomas.
Se Portugal, como querem essas forças, tivesse rejeitado as condições, o efeito seria uma travagem brusca do financiamento externo, ficando o país entregue à sua sorte. Isso daria uma austeridade maior e imediata. O que a troika quer que façamos em três anos, teríamos de o fazer de um dia para o outro, por absoluta falta de fundos. Nesse caso, as pensões e salários públicos entrariam em ruptura, perdendo não dois, mas muitos meses. Os impostos seriam elevados muito acima do que se prevê que venham a subir. Haveria cortes brutais em todos serviços e sistemas públicos.
Isso não é o pior. Enveredando por um caminho de rejeição das suas responsabilidades internacionais, o nosso país tornar-se-ia então um pária mundial, junto com Irão ou Coreia do Norte, pior do que a Grécia. Ganharíamos amigos em certos cantos do mundo, mas à custa do corte com os nossos parceiros e aliados, queda dramática das exportações, investimentos e outros fluxos. Era o colapso.
Assim, as propostas que esses movimentos apregoam com tanto afinco constituem, em poucas palavras, um disparate monstruoso., que qualquer pessoa sensata coraria de sugerir. Não estão em causa opções ideológicas, que raramente têm efeito na contabilidade e nas finanças, mas simples bom senso. Isto são coisas evidentes, que todos entendem.
Sendo assim, porque razão pessoas inteligentes propõem tais ideias de cabeça erguida? Precisamente porque sabem que ninguém as seguirá. Fingindo ter alternativa, que realmente não existe, capitalizam todo o descontentamento a seu favor, enquanto a "troika de direita" (PS, PSD, CDS) paga a despesa política de salvar o país. Por detrás de uma máscara de linha doutrinal está, realmente, um descarado oportunismo. Os outros que façam o que é preciso, debaixo de uma impiedosa chuva de insultos, enquanto eles aproveitam para subir nas sondagens à custa da desgraça nacional."

João César das Neves, professor de economia na Universidade Católica, naohaalmoçosgratis@ucp.pt Diário de Notícias, 15/10/2012, página 54
A cor azul, para destacar, é de Tomar a dianteira.

8 comentários:

Leão_da_Estrela disse...

Bom dia caro professor,

Ainda que mal pergunte, terá sido por isso que o PS alcançou maioria absoluta nas eleições regionais dos Açores?...

(o João César das Neves, também me saiu cá um "intruja"...)

Cordialmente

Leão_da_Estrela disse...

Bom dia caro professor,

Ainda que mal pergunte, terá sido por isso que o PS alcançou maioria absoluta nas eleições regionais dos Açores?...

(o João César das Neves, também me saiu cá um "intruja"...)

Cordialmente

FSM disse...

Parece que alguém andará a fazer fretes ao governo.
Há alternativa e não é a do 8 ou do 80 como ele quer fazer crer. A alternativa é negociar com os credores uma extensão muito mais dilatada do prazo de reembolso, com redução de juros (ou mesmo a sua eliminação). Só que para essa negociação é preciso gente que tenha capacidade negocial e diplomática e prestígio internacional. São qualidades para as quais não adianta pedir «equivalência». Ou se têm ou não se têm. Neste caso, não têm.

Relembmro que já estivemos à beira da bancarrota antes. Era primeiro ministro o Mário Soares, que de economia não percebia a diferença entre milhares e milhões, e alguém se lembra de o FMI nos ter imposto alguma coisa parecida com o que estamos a passar agora? Não recebemos na altura o 13º mês, mas recebemo-lo em obrigações do Estado, a render juros elevadíssimos. Claro que o Mário Soares deu várias voltas ao Mundo nessa altura, o que fez com que a direita trauliteira, reacionária e imbecil (precisamente aquela que agora nos governa) o insultasse, mas conseguiu fazer perceber aos credores que a austeridade excessiva levaria à recessão e a recessão levaria ao incumprimento definitivo dos pagamentos. Não é preciso ser de esquerda ou de direita para entender isso. É apenas preciso bom senso. Quando não há… o resultado está à vista!

António Rebelo disse...

Infelizmente para si e para todos nós, as coisas não são assim tão simples. Nem coisa que se pareça. Convinha a todos que fossem, mas não são. Antes de mais, nas anteriores crises portuguesas os outros países europeus do sul não estavam em crise mas em crescimento. Nós éramos a excepção, a ovelha ranhosa. Depois, não estávamos na UE nem ligados por uma moeda comum. O que nos permitiu ir desvalorizando até recuperar a competitividade, sem que os trabalhadores e os sindicatos disso se dessem conta, pois como muito bem diz, os aumentos e outras benesses puderam continuar. O dinheiro é que valia cada vez menos no exterior. A esperteza saloia da desvalorizção, que fornecia a máscara ideal, agora não é sequer imaginável. Com ou sem Mário Soares; como ou sem exímios negociadores. E quanto ao alargamento de prazos, "hair cut" e redução ou supressão de juros, será preciso que os credores concordem. Atitude impensável, visto que até a srª Merkel se opõe, por já ter percebido que é indispensável "fazer sangue" para que os povos do sul mudem de mentalidade e de hábitos. Quer agrade ou não, doravante vai ser cada vez mais difícil viver à custa dos outros (orçamento do Estado, RSI, economia paralela, pensões sociais sem nunca ter descontado...).
No meu entender, não se trata de uma crise mais ou menos longa. Estamos perante o parto doloroso de um novo mundo, com novas formas de produção, bem como outras normas sociais e políticas. Infelizmente, lamentar-se-ão os instalados. Pois é. Mas tudo tem um fim.
Para terminar, mesmo que os credores fossem na conversa, o serviço actual da dívida custa quase tanto como o orçamento do Ministério da Saúde = 8 mil milhões de euros. Por ano! E tende a aumentar. Logo, dilatando o prazo...não é preciso fazer-lhe um desenho, pois não? Basta ter em conta que mesmo com a presente austeridade a dívida pública continua a crescer, devido aos crónicos défices orçamentais. Assim sendo, se actualmente para pagar a dívida ao ritmo de mil milhões de euros/ano já seriam necessários 178 anos, acha razoável pedir aos credores uma consolidação? Vai-me dizer que mil milhões por ano é pouca coisa para um país como o nosso. Será. Mas se não conseguimos nunca, desde que estamos no euro, um saldo orçamental positivo, mesmo de um euro que fosse. Mesmo com a economia a crescer, de onde viria o dinheiro para reembolsar a dívida?
Convém não iludir as pessoas, pois se até o governo de Chipre, que é comunista e com um primeiro-ministro comunista, também já pediu auxílio à troika, onde está a alternativa? Serão os comunistas portugueses mais espertos que os cipriotas?

FSM disse...

Repito: A alternativa é negociar com os credores uma extensão muito mais dilatada do prazo de reembolso, com redução de juros (ou mesmo a sua eliminação).

António Rebelo disse...

Pode repetir as vezes que entender, que isso não vai comover e muito menos convencer os credores. Se você fosse credor aceitaria renunciar a uma parte ou à totalidade dos juros? Se afirmativo, a troco de quê? De uma ida futura para o Paraíso?
Quanto à dilatação, de quantos anos vamos precisar para reembolsar 178 mil milhões de euros, que aumentam à média de 10 mil milhões por ano?
Se já andamos a colocar dívida pública para pagar os juros, quer-me parecer que vai sendo tempo de mudar de rumo. Por muito que nos custe, Holanda, Finlândia, Dinamarca e Alemanha têm razão: se nada se alterar, os países do sul continuarão a ser poços sem fundo.

tomarense d disse...

Prof. Rebelo

-Nem Portugal nem qualquer outro País paga a sua dívida por completo.
-O problema da Europa é que a dívida chegou a valores incomportaveis e tem de ser REDUZIDA, e não paga na totalidade como menciona no seu artigo.
-Garantidamente que não é do interesse dos investidores o pagamento integral da divida, pois assim "não ganhavam" para sustentar as vidas burguesas de muitos deles. É dos poucos pontos onde concordei com o Sócrates, se bem que ele não geriu nada, apenas desbaratou e viveu e vive à grande.
-Agora como disse e bem o Santos Pereira este orçamento é a factura das "borgas" do PS e seus compinchas.
-O que não quer dizer que não haja outro caminho, pois ele existe, apenas não interessa às elites partidarias e aos seus boys. Neste ponto irá encaixar-se a breve tempo a impossivel redução do nº de municipios no País. Os Boys e as elites partidárias no País não irao permitir, vai uma aposta!?
Como deve saber, até melhor do que eu, os dirigentes nacionais são eleitos pelas elites regionais em congresso, daí...

FSM disse...

Não pretendo entrar em discussões inúteis nem lembrar que enquanto vivos teremos sempre caminhos alternativos.
Contudo gostaria de deixar o esclarecimento de que na primeira mensagem de 18/10 (das 18H21), o último parágramo deveria ter ficado entre aspas pois é a trancrição de um comentário de um amigo com quem partilhei o artigo do JCN. Aliás esclareço que nem me lembrava do recebimento do 13º mês em obrigações do Tesouro, pois ainda não estava no mercado de trabalho.