quarta-feira, 24 de abril de 2013

A propósito das quimeras seguristas

"Alemanha isolada na sua linha dura"

"Rumo a "outra política" europeia?" 

"Há cada vez mais dirigentes protestando para que a Europa modere o dogma imposto por Berlim de um retorno rápido ao equilíbrio das contas públicas, que a mergulhou na recessão"
Os ministros das finanças da Alemanha e da França

"Se continuam a insistir ainda resolvo pagar-lhes a viagem de comboio para o Bundestag (parlamento alemão), disse-nos um conselheiro de Pierre Moscovici, (ministro das finanças francês), farto do oportunismo político dos que defendem "outra política", como Arnaut Montebourg. Não dizem mais do que aquilo que já estamos a pedir aos nossos parceiros europeus, acrescenta a mesma fonte. E que não é nada fácil de obter. A França pede mais tempo para conseguir baixar o seu défice público para 3% do PIB, sem afundar a economia na recessão, duvidando consegui-lo sem crescimento. A Alemanha porém, apoiada por alguns países do norte, como a Finlândia ou a Áustria, repete sem cessar que crescimento e consolidação orçamental não são coisas contraditórias.
Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão, voltou a repeti-lo junto do secretário do tesouro de Barack Obama, que fez uma viagem de ida e volta para com ele trocar impressões. O motor do crescimento económico será a procura dos consumidores, pelo que, nos países com tal capacidade, serão úteis medidas de apoio à procura, disse Jack Lew. Em vão. O consenso de Berlin, explicou-nos Jacques Cailloux, economista de Nomura, substituiu  o inflexível consenso de Washington, em nome do qual o FMI impunha a austeridade e as privatizações na América Latina e em África, nos anos 90 do século passado. Pouco importa portanto que a Europa se afunde na recessão. Antes das eleições legislativas alemãs de Setembro, nada levará Berlim a transigir. Apesar de estar cada vez mais isolada. Tanto o FMI como a OCDE, numerosos economistas e personalidades como Georges Soros, pedem à Europa que reveja a sua política. A disciplina orçamental era um factor importante para a saída da crise do euro, quando os países deixaram de poder financiar-se nos marcados, mas já não estamos nessa fase, declara o economista alemão Fabien Zuleeg, do think tank European Policy Centre, com sede em Bruxelas. Chegou a hora de olhar para as outras pistas para resolver a crise.
Se calhar, a Europa devia inspirar-se, como acaba de admitir sibilinamente Mário Draghi, presidente do BCE, naquilo que se está a fazer nos Estados Unidos, ou mesmo na Japão. Estes dois países, proporcionalmente muito mais endividados e deficitários que a zona euro no seu conjunto, não sofrem com a mesma receita de austeridade. É verdade que os Estados Unidos se comprometeram a equilibrar as suas contas, mas muito lentamente. O objectivo declarado visa estabilizar o ratio dívida pública/PIB até 2017 o que, graças ao gaz de xisto e à retoma cíclica da economia, é algo muito mais moderado do que aquilo que se pratica agora na Europa. sublinha Sylvain Broyer, economista de Natixis.
Sobretudo, a Reserva Federal Americana, com o apoio do Tesouro público, comprou massivamente as dívidas de risco na posse da banca, saneando assim rapidamente o sistema financeiro, o qual se encontra agora de novo com capacidade para emprestar às empresas. O que continua a não suceder na Europa do sul, onde o investimento não pode arrancar.
Quanto ao novo governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, acaba de anunciar um programa massivo de recompra de dívida pública, o que permite que Tokyo não se preocupe com o seu défice público abissal. Trata-se de uma política arriscada. Ou até perigosa. Em qualquer caso, é uma experiência radical que destoa. E dá à Europa infectada um ar de nítida falta de audácia.
No entanto, pela calada, a zona euro adapta-se. Pouco a pouco, a Alemanha tolera o aumento dos salários e fala-se já em baixar os impostos. Paralelamente, a conta gotas, a Grécia, a Espanha, Portugal, a Irlanda, e em breve a França, a Holanda ou a Eslovénia, conseguem mais tempo para equilibrar as suas contas. Mas para ir mais longe, há que ultrapassar a desconfiança -que continua a ser muito forte- da Europa do norte em relação à do sul. Aquela não acredita na firmeza desta para reduzir a dívida pública e restabelecer a sua competitividade. Uma desconfiança que pode muito bem vir a focar-se na França. Razão mais do que suficiente para manter a linha das reformas estruturais e da austeridade orçamental."

Sophie Fay, Nouvel Obs, 18/04/2013, página 30

2 comentários:

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Os economistas burgueses, representantes "científicos" do capitalismo financeiro internacional, outras eminências pardas, bem como muitos pequeno-burgueses, constantemente sacudidos entre o Capital e o Trabalho, tentam convencer-se - e convencer-nos - de que a história acabou com o advento do sistema capitalista. Chegámos ao fim da linha!

Mentira!

Estas dívidas dos Estados intervencionados não vão ser pagas. Os povos não as vão pagar. Só perde quem tem. E quem tem vai baixar a bolinha para não ser levado ao patíbulo. Sabendo disso, vão todos renegociar, alargar prazos, baixar juros, perdoar nalguns casos. Para não serem comidos vivos.

E a crise, pouco a pouco, devagar devagarinho, como quem não quer a coisa, vai desaguar na Alemanha, o país que mais tem especulado com as dívidas soberanas, o maior credor, milhares de biliões... O maná do céu das dívidas soberanas esvair-se-á.

E a Europa caminhará vertiginosamente para uma associação federalista - para que a Alemanha não leve na cabeça como levou por duas vezes no séc. XX.

Está escrito!

O melhor de tudo isto: não vai haver guerra na Europa, os países do Sul arreganharão os dentes e serão os grandes concorrentes da Alemanha no mercado internacional. Que é o que ela não quer.

E Portugal retomará o Ciclo Histórico iniciado com os governos de José Sócrates, e todas esta camarilha que nos governa terá o mesmo destino que Miguel Relvas - a sarjeta!



António Rebelo disse...

Fica porém por saber como vamos ultrapassar a austeridade e reduzir o desemprego. Ou serão apenas pequenos detalhes?