segunda-feira, 6 de maio de 2013

Leitura útil para as esquerdas que temos

"Mais um esforço sr. Presidente!"
"Desde a primeira crise do petróleo que a economia francesa deixou de ser suficientemente produtiva"

"Desçamos à terra. O fraco vigor da economia francesa não é uma criação europeia ou alemã. Já existia antes das políticas de austeridade que, adoptadas em toda a Europa, prejudicam a zona euro e são contestadas com toda a razão. Essa anemia económica não foi provocada pela "intransigência egoista" da Alemanha envelhecida, ou pela ortodoxia monetária dos seus dirigentes. Mesmo se, de acordo com o finlandês Olli Rehn, comissário europeu para os assuntos económicos e monetários, Berlim pudesse fazer um pouco mais em prol do crescimento económico. Também não é a herança envenenada do "sarkozismo", como pretende a esquerda, ou a prova do falhanço do "hollandismo", como proclama a direita. Seria ao mesmo tempo demasiado bom e demasiado simples!
Na verdade, o crescimento francês mirra desde há meio século. Era em média de 5% na década de 60, 4% na de 70, 3% na de 80, 2% na de 90 e 1% desde 2000. Desceu um degrau em cada ciclo, segundo Jean-Marc Daniel, no seu ensaio Ricardo reviens! Ils sont restés keynésiens, (François Bourin Editeur, 2012). E sobretudo, mesmo durante as fases de expansão, os défices estruturais foram-se acumulando. Até atingirem, em meados de 2011, 90% da dívida soberana francesa.
Apesar disso, a ala esquerda do PS e a esquerda pura e dura continuam a sonhar com "outra política". Mas nenhum dos relançamentos pelo consumo, tentados por Giscard d'Estaing e Jacques Chirac em 1975, ou por François Miterrand e Pierre Mauroy em 1985, conseguiu travar essa lenta descida para o inferno da temível situação que hoje conhecemos. Pelo contrário: temos uma acumulação de dívidas da ordem de um bilião 833 mil milhões de euros, praticamente sem crescimento económico (+ 0,1%).
Não podemos portanto esperar qualquer milagre resultante de mais uma experiência do mesmo tipo. Porque o relançamento pelo consumo num país como a França, que já não consegue responder à procura, prepara antes um futuro ainda mais sombrio. O défice comercial agrava-se; o fardo da dívida torna-se cada vez mais pesado; as taxas de juro ameaçam a subir, devido à incerteza dos investidores e dos mercados. "Marie-Noëlle Lienemann e Emmanuel Maurel, ambos à esquerda do PS, vão ter de me explicar como é que, no modelo alternativo de retoma, tipo 1981, que apresentam, o qual inclui investimento público massivo, financiado por mais um grande empréstimo, se conseguem evitar os 120 mil milhões de euros de défice em 2014, bem como a recessão. Vai ser divertido!", ironizou uma fonte próxima de François Hollande.
A urgência mora portanto alhures. Desde o primeiro choque do petróleo que a França deixou de ser suficientemente competitiva. O progresso técnico empanou. "Desde 1985, a produtividade global dos factores (a do conjunto capital+trabalho) progrediu normalmente na Suécia (mais de 20%), nos Estados Unidos (17%) na Inglaterra (11%) e na Alemanha (quase 10%) Em França [... ...], primeiro estagnou e depois começou a recuar, a partir de meados da primeira década deste século", escrevem Patrick Artus e Marie-Paule Virard, em Les apprentis sorciers, Fayard, 198 páginas, 16 euros, que exploram "quarenta anos de falhanços da política económica francesa".
A parte da indústria no valor acrescentado nacional, passou de 18% em 2000 para menos de 13% em 2011. Nesses dez anos desapareceram mais de 500 mil postos de trabalho. Posicionados na gama média, os produtos franceses são atacados por todos os lados. Para resistir à concorrência num mundo aberto, as empresas, que não podem jogar sobre os preços quando os custos de produção aumentam, reduziram as suas margens de lucro. Com as consequências agora conhecidas de todos: insuficiência de investimento na pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, ou de inovações de ruptura.
Ao nível macroeconómico, a apetência francesa pelo imposto paga-se cara: economia anémica, redução do investimento produtivo e dos ganhos de produtividade, nova perda de crescimento potencial...Um evidente círculo vicioso, tanto após a recessão de 1992-93, como a seguir à de 2008-09, por vezes agravado por políticas pró-cíclicas.
Apesar disso continua a ser necessário e urgente relançar a máquina. Mas encontrar um caminho de crescimento digno desse nome, numa conjuntura deprimida, é um exercício dos mais árduos. Supõe que se dê  prioridade durante vários anos seguidos à adaptação e ao restabelecimento do nosso aparelho produtivo. Apoiar os produtores antes dos consumidores? Uma verdadeira revolução para o PS! E a esquerda governamental ainda não terminou as suas penitências. Terá de usar as suas raras margens de manobra para criar uma envolvência favorável ao investimento, ao lucro, às empresas e assim ao emprego.
François Hollande já deu o primeiro passo nesse sentido, com o pacto de competitividade e o respectivo crédito de imposto ou, mais recentemente, aquando da conferência sobre empreendedorismo. Mas são necessários outros, já identificados em dezenas de relatórios oficiais que dormem nas gavetas do governo: melhorar a eficiência do Estado, reformar o sistema educativo, acabar com algumas rendas, reduzir o custo do trabalho, desengordurar na justiça e no mamute social, etc.
O chefe de Estado ainda dispõe de mais quatro anos. Exactamente o tempo necessário para conseguir os primeiros resultados de uma política da oferta. Se não a assegurar a longo prazo, os franceses terão apertado o cinto em vão e o empobrecimento do país atingirá em primeiro lugar os mais pobres, os mais frágeis e os jovens."

Claire Guélaud, Le Monde, 06/05/2013, página 8, guelaud@lemonde.fr

Em Portugal será diferente? Porque será que Francisco Louçã, economista, resolveu meter a viola no saco? A. J. Seguro e Jerónimo de Sousa terão uma ideia sequer aproximada sobre o trágico resultado previsível daquilo que andam a propor?
Estou só a perguntar!

1 comentário:

Alfredo Caiano Silvestre disse...

Fora do tema, mas, acho eu! suficientemente importante para merecer a atenção de todos os tomarenses, profetas da desgraça inclusos!

http://boasnoticias.sapo.pt/noticias_the-guardian-leitores-votam-o-melhor-de-portugal_15574.html