domingo, 26 de maio de 2013

A esquerda não consegue convencer

Peer Steinbrück, candidato a chanceler pelo SPD, durante o recente congresso em Augsburg. Baviera, agradecendo a ovação após o seu discurso. No púlpito a palavra de ordem SPD: Decidir em conjunto. Foto Hannibal Hanschke/DPA/Le Monde

"Que projecto para a social-democracia?"

"A criação da Aliança progressista poderá significar um novo discurso sobre a Europa e a mundialização."

"Tem-se assistido à vitória da direita devido à incapacidade da esquerda para convencer."

Jean-Michel De Waele, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Livre de Bruxelas

"Os principais interessados procuram minimizar a sua importância, mas ainda assim, a criação à margem da Internacional Socialista de uma "Aliança progressista" é o sinal evidente de que a social-democracia europeia se questiona e tenta elaborar uma doutrina, um projecto, uma iniciativa minimamente federadora.
O SPD alemão está na origem da iniciativa, que terá já conseguido a adesão de 70 outras formações políticas. Pode-se até estranhar que tenha sido necessário tanto tempo aos dirigentes socialistas para se sentirem incomodados pelo facto de a "sua" Internacional ter dado abrigo durante anos ao tunisino Ben Ali ou ao egípcio Hosni Mubarak. Até à "primavera árabe", que a social-democracia europeia também não tinha previsto, nem o SPD nem os outros europeus se sentiram molestados por tão estranha situação. Apesar de a mesma ser "terrível, inimaginável para os progressistas e democratas", refere Jean-Michel De Waele, da Universidade Livre de Bruxelas, que está a escrever, junto com outros autores um Manual para a social-democracia na Europa, a publicar em Setembro, em Londres.
No norte da União Europeia, o projecto político da Aliança progressista é mais claro: trata-se de se distanciar dos partidos do sul, vistos como arcaicos, mas igualmente de questionar a adesão, amiúde sem reservas, ao funcionamento de uma Europa que deixou de ser considerada como um motor da democracia, para se transformar no seu oposto -uma ameaça à democracia. "Nenhum politólogo conseguiu ainda explicar-me que uma democracia agrupando 500 milhões de habitantes num território tão diverso seja imaginável", nota René Cuperus. Historiador holandês, Cuperus colabora com a fundação Wiardi Beckman, o grupo de reflexão do Partido Social-Democrata Holandês-PVDA e com Policy Network, uma instituição britânica que, através de uma iniciativa designada Amsterdam Proces, ambiciona reinventar a mensagem da social-democracia.
"A Europa afirma ser um escudo contra a mundialização, mas no fim de contas não passa de uma correia de transmissão", referiu recentemente Cuperus à revista belga Knack. Daí a sua crítica ao facto de, para a social-democracia europeia, a adesão à Europa se ter transformado  "numa ideologia de substituição". Para eles "quanto mais europa melhor, mas na prática os sociais-democratas apoiam assim um projecto neoliberal, que vai contra a democracia e não encontra apoio nas bases. Uma situação totalmente esquizofrénica", conclui Cuperus.
Em vez de favorecer a esquerda, a crise económica e financeira evidenciou as suas fraquezas, analisa o professor De Waele: "A esquerda não soube capitalizar a sua crítica do neoliberalismo. Na realidade, as crises não são boas para a esquerda. É capaz de partilhar os frutos do crescimento económico, mas não os efeitos da crise. E é igualmente incapaz, salvo raras excepções, de elaborar uma alternativa para os vencidos da mundialização. Por outro lado, deve igualmente admitir que o quadro europeu que defende não é protector". Para este professor belga, as recentes eleições italianas mostraram bem as carências actuais da social-democracia. "Assistiu-se a uma vitória da direita unicamente devido à manifesta incapacidade da esquerda para convencer. E não me venham com a treta de que resultou só do talento comunicacional de Berlusconi!"
Mais genericamente, para De Waele, "a social-democracia tem muita dificuldade para incorporar nas suas análises as transformações do mundo moderno. Não consegue renovar a sua teoria sobre a mundialização, nem sobre os grandes temas contemporâneos: envelhecimento da população, migrações, segurança, solidão, política da cidade..." Reflexão que conduz este social-democrata ao âmago do próximo livro: "Onde mora a indispensável utopia da esquerda? E a "sociedade da felicidade" que nos prometiam? iPad barato e trinta horas semanais de trabalho?"
Por seu lado, René Cuperus insiste: sem questionar um projecto europeu "que já não é maioritário", a social-democracia falhará definitivamente. "Enquanto trouxe bem-estar e progresso, a Europa era tolerada. Logo que se transformou em fonte de problemas e de desemprego, o apoio popular é mais fraco", acrescenta o historiador.
Que aliás até surpreendeu os seus próprios camaradas ao apoiar o recente discurso do primeiro-ministro conservador britânico, David Cameron,  sobre a Europa. Porque este insistiu a necessidade de "retomar o contacto com a população", a propósito do projecto europeu. E também porque questionou "uma fábula eterna", segundo a qual a Europa só pode sobreviver num mundo globalizado mediante a tranferência de "todo o poder para Bruxelas".
Jean-Michel De Waele não vai tão longe. Deplora contudo que a social-democracia dê a impressão de já não ter "nem referências, nem ideias, nem debates". Nem verdadeiros líderes, de resto. "É fora de dúvida que a direita ganhou aquilo a que António Gramsci chamava a "batalha cultural", mas na realidade não está nada melhor que a esquerda. Estamos portanto doravante confrontados com uma crise do sistema democrático." O seu confrade holandês, por sua vez, antevê o mesmo problema até na Alemanha, onde "o choque entre a elite e o povo ainda não ocorreu. Quando e se tal vier a acontecer, o que será da Europa? Uma ideia angustiante, segundo Cuperus".

Jean-Pierre Stroobants, Bruxelas, Le Monde - Géo & Politique, 23/05/2013, página 5

2 comentários:

Porto da Lage disse...

Tenho visto que é uma pessoa muito interessada por Tomar e pela sua história, parabéns pelo seu blog. Atrevo-me assim a pedir-lhe ajuda que não tenho encontrado em várias pesquisas que tenho feito.Procuro dados sobre João Torres Pinheiro. Sabe dizer-me se existe alguma biografia sobre este autarca, entre outras coisas, tomarense? Fico-lhe muito agradecida pela resposta. MFM

António Rebelo disse...

Também não conheço qualquer obra sobre João Torres Pinheiro. Caso ainda não tenha ido por aí, julgo que seria útil procurar nas actas camarárias, uma vez que ele fez parte da autarquia. Obtidas as datas será a altura para consultar a imprensa local da época, na biblioteca municipal.

Cordialmente,

A.R.