quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não vá dar-se o caso...

Não vá dar-se o caso de haver cidadãos persuadidos de que as PPP e outros escândalos só acontecem em Portugal, o melhor é facultar informação actualizada sobre outros países europeus. Para já, sobre a Grécia, ainda mais encalacrada do que nós. O que não é nada fácil!

A multiplicação dos escândalos de corrupção perturba a coligação no poder em Atenas

A semanas do voto crucial do futuro plano de austeridade, uma investigação do ministério das finanças aponta ex-ministros como suspeitos de corrupção

"O primeiro ministro grego solicitou ao seu ministro das finanças, no passado dia 22 de Setembro, que transmita à justiça a lista de 32 nomes de políticos cujas contas bancárias, investigadas pela brigada financeira do fisco, SDOE, incluem movimentos de fundos suspeitos. O procurador do supremo tribunal vai encontrar-se, na segunda feira 24, com os inspectores da brigada, para iniciar o inquérito sobre o que para já se considera como "enriquecimento estranho".
Segundo um jornal de centro-direita, as suspeitas visam nomeadamente sete ex-ministros, quatro do PASOK (socialistas) e três da Nova Democracia (centro-direita). Estes últimos são, segundo o semanário dominical Real News, o actual presidente do parlamento e ex-ministro da defesa, e dois ex-ministros do governo conservador de Costas Caramanlis (2004/2009), o da cultura e marinha merxcante e o dos transportes e da cultura.
Segundo o mesmo semanário, a investigação incide sobre casos de "compra de imóveis e branqueamento de capitais". Os três arguidos negaram no passado domingo os factos de que são acusados e ameaçaram com o recurso aos tribunais contra todos os que os difamarem. A SDOE anunciou na passada primavera que ia passar a pente fino as contas bancárias de 500 personalidades políticas. Esta lista de 32 suspeitos é um dos primeiros resultados desse inquérito.
A inclusão na lista do presidente do parlamento embaraça o actual governo de coligação, semanas antes de um voto dos deputados sobre as novas medidas de austeridade, que continuam a ser discutidas com a troika. O actual presidente ascendeu a esse lugar após a vitória da Nova Democracia nas eleições legislativas de 17 de Junho. O seu antecessor, um outro deputado da ND, só presidiu durante 24 horas, pois o parlamento saído do escrutínio de 6 de Maio reuniu-se apenas para se dissolver, após constatar a impossibilidade de conseguir uma maioria estável. Mesmo assim, o efémero presidente deu que falar ao atribuir um bónus de dois milhões de euros aos empregados, para comemorar o escrutínio, tendo aproveitado também para mandar contratar a sua filha pelos serviços de apoio ao parlamento.
Os nomes de Liapis e Vulgarakis aparecem ligados a outros escândalos. Liapis, primo direito do ex-primeiro ministro Costas Caramanlis, foi citado no escândalo Siemens, mas nenhuma das personalidades políticas do Pasok ou da ND chegou a ser acusada no âmbito deste caso, revelado pela justiça alemã, que mostrou ter havido quadros da Siemens que pagaram "luvas" a vários políticos gregos.
A comissão parlamentar de inquérito então constituída não conseguiu chegar a acordo sobre a responsabilidade de cada um dos envolvidos. A imunidade parlamentar e os prazos de prescrição tornam extremamente difícil acusar antigos ministros.
Quanto a Vulgarakis, foi implicado no escândalo Vatopedi, uma operação de troca de terrenos entre o governo de Caramanlis e o Convento de Vatopedis, no Monte Athos, que se suspeita tenha beneficiado os frades e prejudicado o governo. A mulher de Vulgarakis foi a notária encarregada da citada troca, enquanto que o seu sogro era o advogado dos frades. O prior da abadia, o abade Efraim, passou vários meses em prisão preventiva, até ser libertado sob caução. Veio depois a ser susbtituído na sua cela da penitenciária de Korydallos, nos arredores de Atenas, pelo ex-ministro socialista da defesa Akis Tsohatzopoulos, que continua em prisão preventiva, suspeito de branqueamento de capitais e "luvas", na compra de submarinos alemães e mísseis russos. As suas actividades delituosas enquanto ministro já prescreveram, pelo que o trabalho dos inspectores se limitou a constatar que as suas contas bancárias, incluindo as da sua família, (a sua mulher, a sua filha e um primo estão já em prisão preventiva), revelaram transferências suspeitas, designadamente para sociedades offshore.
Os inspectores adoptaram a mesma técnica para seguir os movimentos financeiros de vários responsáveis políticos. A espectacular prisão de Akis Tsohatzopoulos, ex-adjunto de Andreas Papandreou -o fundador do Pasok e pai do ex-primeiro ministro Georges Papandreou- permitiu pôr fim a um tabu da vida política grega: nunca antes se vira um ministro ser preso."

Alain Salles, Le Monde, 25/09/2012, página 6

Esta sucessão de ocorrências -submarinos, luvas, offshores, familiares, enriquecimentos estranhos, prescrições, imunidades...- levou-me a pensar noutros países. Mas deve ser defeito meu, ver prevaricações por todo o lado. Ou não?

2 comentários:

tomarense d disse...

Prof Rebelo

-Cá em Portugal tudo o que seja investigação criminal aos órgãos do poder e associados, dá em arquivamento por motivos vários. EXS: BPP; BPN; FREEPORT;SUBMARINOS; GRANDES DESVIOS NOS VALORES FINAIS DAS GRANDES OBRAS PÚBLICAS, entre muitas outras que não são de conhecimento público.
- Como facilmente se percebe em Portugal a justiça tem dois pesos e duas medidas, não tendo o poder politico interesse em mudar isto.
-Agora é a investigação às PPP, vai uma aposta que dentro de algum tempo é tudo arquivado e não se fala mais nisso.
-O Povo português ou ganha juízo definitivamente ou está desgraçado com toda esta gente que nos desgoverna.

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Em crises sociais como a que vive a Grécia (e também Portugal), a luta pelo poder atinge dimensões radicais inimagináveis. Vale tudo. Uma das armas é destruir o caráter dos adversários para desviar atenções de outros crimes e de outros interesses em disputa -, naturalmente económicos e de poder. É preciso cuidado. A justiça não condegue julgar neste ambiente e quando julga, normalmente erra. Está manipulada.

A história é rica em ensinamentos nesta matéria. Muitos políticos exploram, nestes momentos de decadência e desilusão, os desejos de vindicta de estratos das sociedades, e muitos líderes honrados foram mortos na praça pública pelas populações pelo simples lançamento de rumores.
Nos dias de hoje, instrumentalizam a justiça politizada e os mídia para vinganças e abates de caráter.

Curioso é verificarmos que em Portugal uns tantos roubaram milhões de milhões de euros, que estão a ser pagos pelos nossos bolsos, e é como não se tivesse passado nada. Nestes períodos vive-se uma espécie de eminência de guerra civil, com a violência a manifestar-se no abate de caráter de muitos políticos, com as pessoas a serem empurradas para um lado ou outro, com pouca racionalidade.

O paradoxo chega a isto em Portugal: os que não quiseram o entendimento em torno do PEC IV, preferindo obedecer a expetativas de ganhos de poder, sabendo a desgraça que isso representava para o povo, vêmo-los agora à frente do povo indignado como elite avançada, fingindo que lutam contra aquilo que afinal desejaram e muito trabalharam para isso.

Chegam a destruir um Primeiro Ministro e a pedir a intervenção externa, submetendo a pátria a estatuto de Protetorado,e ainda dão graças a deus por isso.

Quando o mais alto magistrado da nação, tido como eminente economista..., acha natural receber juros de capital absolutamente anormais, decididos por um amigo, que mais ninguém obtinha, e, ao ser criticado por isso, faz um discurso de posse que despoleta uma crise política como esta.......

Só que estas práticas deixam sempre contas por ajustar, um "NÓ" por desatar....Como, não sabemos, porque não somos adivinhos.

Veremos.