domingo, 16 de setembro de 2012

Sem saída alternativa

A quem tenha a coragem de enfrentar a realidade -as coisas tal como elas são, sem maquilhagem ideológica- a Europa oferece neste momento um espectáculo desolador, por assim dizer a preto e branco. A branco no norte, a preto no sul. De Lisboa a Atenas e de Nicósia a Bruxelas impera agora um clima de crescente austeridade, de preocupante ausência de outras soluções viáveis e menos dolorosas
A bem dizer, parece estar agora a acontecer nos países do sul algo semelhante ao ocorrido em 1989 com a queda do Muro de Berlim e as sucessivas implosões dos regimes ditos comunistas. Por essa altura, os leninistas ocidentais constataram horrorizados que acabara finalmente o mito da sociedade perfeita: agora todos iam ficar a saber aquilo que antes era um segredo bem guardado entre os sacerdotes do marxismo: o "socialismo real", saído da Revolução de Outubro e a seguir à 2ª guerra exportado pela violência para os países do Pacto de Varsóvia, não passava afinal de um monumental falhanço, de um gigantesco embuste.
Duas décadas mais tarde, os defensores do Estado Social Europeu estão numa situação praticamente homóloga: o Estado Providência está ruir por todo o lado, sob os golpes dos governantes sem recursos financeiros para o alimentar. E ninguém sabe por enquanto quando e onde irá acabar o desmantelamento forçado do proteccionismo social europeu.
Em Portugal, onde tal como nos outros países do sul a palavra é demasiado abundante e a acção cada vez mais rara, cada político procura mobilar o seu obrigatório discurso com os melhores tarecos conseguidos pelos assessores de ideias. Louçã proclama implicitamente que não devemos pagar a dívida; Jerónimo sustenta que as sucessivas e gravosas medidas de austeridade são um roubo; Seguro enfim não se cansa de repetir que "há outro caminho", mas tendo sempre o cuidado de não explicar qual. Quanto ao governo PSD/CDS lá vai procurando, sob a imperativa batuta de Garpar, dar a beber aos portugueses o xarope da troika, cujos resultados finais toda a gente ignora. Mas como também ninguém aponta alternativas realistas...
Enquanto isto, em Tomar continua a haver um executivo camarário legal e uma Assembleia Municipal saída de um sufrágio livre, mas não se encontra um único cidadão (excepto naturalmente e por razões óbvias os senhores eleitos) capaz de explicar para que servem na verdade. A actividade económica local praticamente parou, os investidores foram-se, em busca de melhores paragens, os trabalhadores deram corda aos sapatos, que por aqui não há emprego, os jovens emigram. A autarquia nada diz e um grupo de nabantinos (alguns nascidos, criados e residentes alhures), decidiu organizar um Congresso de Tomar, para o qual -pasme-se- as comunicações deverão ser previamente entregues aos organizadores, que depois as lerão ou não aos espectadores/participantes. Exactamente como nos bons tempos do comunismo russo, quando os camaradas convidados a falar durante os congressos eram praticamente forçados a debitar documentos previamente censurados, mas de regresso aos respectivos países de origem protestavam energicamente contra a censura, com toda a razão de resto...
Pelos vistos, em Tomar, ao contrário do versejado por Camões, mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades. Oxalá, apesar de tudo, surjam comunicações daquelas tipo fecundo e meia hora pelo menos à frente do futuro. Oxalá!

6 comentários:

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Lá haverias de vir ao Congresso de Tomar, para o qual termina hoje o prazo de aceitação de comunicações ao Congresso. Quem não participou que esteja calado, que o anúncio das condições de participação foi bem dilatado... Mas ainda tens oportunidade, o Congresso é escancarado, como convém, e, lá, podes botar faladura - e seres aplaudido e bater palmas.

Bem me esforcei por levantar a lebre aqui no blogue do Dr. Francisco António Rebelo, mas este fez ouvidos de mercador, quem sabe se ainda na esperança de ser distinguido com um pedido para fazer uma comunicação ao Congresso, organizado à sorrelfa dos tomarenses.

"Daniel Cohen, economista, professor na Escola Nomal Superior e vice-presidente da Escola de Economia de Paris", no teu post anterior, garante que a Europa atravessa "uma crise existencial".

Mas, meu caro Dr. Francisco António Rebelo, esta crise geral há-se ser também resultado de crises existenciais individuais...

Parafraseamdo o autor deste Blogue: "Ou estou enganado?".

Ou ainda foste aluno do dito professor de... esquerda?

(talves vá lá debitar qualquer coisa nesse post)

António Rebelo disse...

Meu prezado amigo:
Se não te importas, o meu nome é António Francisco Rebelo.
O Daniel Cohen meu professor? Quando frequentei a universidade ainda ele andava no primeiro ciclo do ensino básico. Tem menos de 50 anos.
Sobre o congresso, nada posso por agora acrescentar, a não ser que vou estar atento aos resultados.
Também sou capaz de ir lá dar umas espreitadelas, mas quanto a apresentar um trabalho, nem pensar. A casamento ou baptizado, não vás sem ser convidado.
A concluir, esclareço que o meu silêncio sobre o assunto se deveu a dois factos. Por um lado, há na organização quem tenha dado a entender na imprensa local que não estarei bom da cabeça, num escrito intitulado "António Rebelo e o seu estado de saúde", que está agora a aguardar decisão judicial, e todos sabemos que não convém mesmo nada aturar loucos em congressos. Por outro lado, tenho a impressão que confundes o Congresso de Tomar com o "Congresso Internacional Judaico", ou coisa parecida.

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Peço desculpa por ter trocado o teu nome.

Julgo que há uma explicação de natureza poética, que tem a ver com a métrica, o ritmo e a musicalidade, que me levou a este lamentável lapso.

Quando no futuro escreverem um poema épico sobre ti e a tua intervenção pública nabantina neste blogue, dava jeito que te chamasses Francisco António Rebelo e não António Francisco Rebelo.

Por exemplo, neste verso:

Oh! herói Francisc'Annio Rebelo!,

tem musicalidade e ritmo mais equilibrados, ocupa melhor o espaço, tem vantagem em relaçã a

Oh herói Annio Francisco Rebelo,

porque às três sílabas seguidas, bem abertas, das três primeiras palavras (sem contar com "Oh"), segue-se um palavra com duas sílabas mudas, sendo a do meio muito fechada e só com dificuldade se pode abrir, prolongar, estender...; além disso "Francisco Rebelo" tem 5 sílabas fechadas, a bem dizer mudas; ora, "António", no meio, comunica música e ritmo às restantes. O "OH! fica-lhe mesmo a matar no conjunto. Fala aí com um músico ou cantor de ópera. Nunca é tarde para mudar de nome -o Vasco Pulido Valente, que, como o Relvas, também estudou no C. Nuno Álvares, mudou..., tinha 16 anos, não gostava do nome, provavelmente por isto mesmo. O seu nome de batismo era Vasco Correia Guedes, trocou pelo actual que tem muito mais nice(e sangue mais puro...). Podia ter trocado para "Vasco Guedes Correia" e ficava mais equilibrado....

No primeiro caso isso não acontece.

Ora recita lá um e outro caso...., acentua e prolonga bem as tónicas....

Outra vez..... - Vês! O primeiro verso resulta melhor.

Me perdoarás.

Estou a brincar contigo...

(Isso dá-se com o meu próprio nome: o que lhe dá vida é uma flor no meio...)

Unknown disse...

Boa tarde professor

esta serve para lhe dizer que vou aum congresso em Outubro em que tive que entregar um resumo longo para ver se era aceite. Fui aceite. Depois disto tenho que entregar antes do congresso o texto bem como as fotos. Será por isto que apelidarei o encontro como sendo organizado nos moldes do comunismo? E como se organizaria um encontro de ideias se alguém, no momento, ao vivo e a cores, viesse propor que os prédios de Tomar fossem pintados às bolinhas amarelas? Não acredito que os organizadores façam algo que vá contra Tomar. E, além disso temos os moderadores que são figuras idóneas, caso do Appio Sottomayor.
Cumprimentos do Ernesto Jana

António Rebelo disse...

Caro Ernesto Jana:

Lamento não poder concordar consigo. Percebo que seja necessário submeter um resumo prévio e mais tarde o trabalho integral, em encontros de índole científica. Agora em congressos de aldeia, para mais de índole política?! E onde é que já se viu serem os organizadores, ou intervenientes por eles designados, a ler os trabalhos apresentados?
Como sabe, não nasci ontem e o mundo universitário, tal como o dos congressos, não me é propriamente estranho.
Nunca esteve no meu espírito a ideia de duvidar da idoneidade dos organizadores ou dos moderadores. A minha dúvida é outra, mas ficará para depois do evento.

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

MEU PRIMEIRO COMENTÁRIO EM 16/9/2012
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Aquele comentário terminava no segundo parágrafo, "à sorrelfa dos tomarenses".

Como tinha ensaiado elaborar outro para outro post, de que desisti, "colei" tudo e deu no que deu.

Peço desculpa.

Felizmente... que não veio nada de mal "agarrado"...