terça-feira, 28 de agosto de 2012

"O declínio do Ocidente?"

"Crescimento zero, sobre-endividamento, desemprego endémico, sofrimento social. E se o grande problema das economias desenvolvidas anunciar afinal o fim da sua supremacia? E se os empregos perdidos para os países emergentes nunca mais regressarem? Tal é a tese provocadora do consultor britânico Jon Moynihan, 64 anos, presidente executivo do gabinete de consultores londrino PA Group, fundado em 1943.
Moynihan é diplomado de Oxford e do MIT, tendo feito uma conferência sobre o declínio do Ocidente na London School of Economics.
Para os anglófonos: www.paconsulting.com/declineofthewest.

N.O. - O que o leva a pensar que o Ocidente corre para a catástrofe?
J.M. - A principal explicação reside em dois números: 135 dólares é o salário diário médio de um trabalhador na zona OCDE; 12 dólares é o salário diário médio de um trabalhador das zonas urbanizadas chinesas ou indianas. Esta enorme disparidade de rendimentos é a chave do perigo que nos espreita. Numa economia mundializada, é impossível preservar os empregos bem remunerados para os trabalhadores ocidentais. Porque razão se deverá continuar a remunerar os 500 milhões de trabalhadores do mundo desenvolvido dez vezes mais caro que os 1,1 mil milhões de trabalhadores das zonas urbanizadas do mundo em desenvolvimento, que estudam e trabalham mais e melhor?
N.O. - Mas não é verdade que os salários dos países emergentes se vão aproximando um pouco dos do Ocidente?
J.M. - Tem razão. Os salários têm vindo a aumentar nas regiões mais industrializadas dos países emergentes. Acontece porém que os empresários desses países começam a transferir as fábricas para as respectivas zonas rurais, ou para países de menores custos, como por exemplo o Vietname. Não esqueça que existe nessas zonas rurais  um outro reservatório de mão de obra barata, da ordem de 1,3 mil milhões de adultos que vivem com menos de dois dólares por dia.
A redução de salário dos trabalhadores ocidentais menos qualificados é inevitável. Nesta altura, um americano sem o 12º ano já ganha menos em termos reais que o avô...
Penso que em 2025 o salário ocidental médio talvez já tenha sido dividido por dois, fixando-se em 60 dólares. Nomeadamente através da inflação e da desvalorização monetária. Em qualquer caso, o paradigma do século XX, que nos assegurava um crescimento anual médio de 2% em termos de emprego e de 3% nos salários, acabou. Desde 2001 que estes dois indicadores são negativos.
N.O. - Quer dizer que os empregos destruídos pela crise nunca mais voltarão?
J.M. - Os empregos deslocáveis vão todos emigrar. Já aconteceu com várias indústrias: a siderurgia ou a electrónica de grande consumo, por exemplo. Agora é a vez da indústria automóvel, depois será a aeronáutica. Veja a economia americana, apesar de bem mais flexível que a europeia: aquando das anteriores recessões, recuperou o anterior nível de emprego ao fim de quatro anos. Desta vez ainda lhe faltam 6 milhões de empregos para recuperar o nível de 2007. É simples: em 1955, a maior capitalização de Wall Street, a General Motors, tinha 500 mil trabalhadores nos Estados Unidos e 80 mil no estrangeiro. Agora, o campeão é a Apple. Mas emprega apenas quatro mil pessoas nos Estados Unidos e 700 mil nos seus fornecedores asiáticos..."

Conclui no próximo post.

Entrevista conduzida por Dominique Nora, Nouvel Observateur, 23/08/2012, páginas 48/50

2 comentários:

templario disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Gostei de ler.

Peimeira questão: porque fogem de um lado para o outro esses grandes empresários?

Segunda questão: pois sim, fogem, fogem até ao Vietname... - e depois para onde vão fujir?
(por acaso ali no Vietname, lembro-me, houve quem fugisse borrando-se pelas pernas abaixo)

O que é interessantíssimo é verificarmos (já o sabíamos) que eles andam a fujir por aqui e por ali. Quando digo "eles", estou a referir-me ao Capital. E fojem para o Vietname para serem bonzinhos para os vietnamitas? É evidente que fojem para onde possam auferir os mesmos lucros. Ou estarei enganado?

E uma pergunta final.

Onde é que isto irá parar?!

Parece-me que o entrevistador não se debruçou sobre esta magna questão socio-política e económica.

tomarense d disse...

"Onde é que isto irá parar?!.."

Com toda a certeza teremos à vista a 3ª guerra mundial no seguimento da actual económica e financeira.

Culpados!?
-Com toda a certeza os Bancos, as Bolsas mundiais e os Politicos com a sua magistral incompetencia e manifesta incúria na forma como gastaram dinheiro nos ultimos anos