
Uma das duas lontras do Fluviário de Mora, numa fotografia de Miguel Manso/Público
Após a publicação do post anterior, chegaram-nos alguns comentários menos abonatórios sobre o autarca de Mora, que acusam de ser "um reaccionarão". Perante tal injustiça e para que os seguidores deste blogue possam fundamentar posições mais conformes com a realidade, resolvemos publicar na íntegra a reportagem do PÚBLICO de ontem, nsaturalmente com os nossos agradecimentos ao conceituado periódico.
"Ele tem bigode e ela também. O casal mais fotografado do Alentejo prepara-se para uma merecida festa. Depois de uma manhã passada a treparem às rochas e a mergulharem na água, nada melhor do que o recanto de palha seca para repousarem os pequenos corpos roliços e peludos, encimados por uns olhitos a brilhar de curiosidade.
Faz hoje três anos que Mariza e Cristiano Ronaldo se tornaram as estrelas da companhia. O casal de lontras asiáticas faz as delícias de todos quantos visitam o Fluviário de Mora, um oceanário dedicado à fauna dos rios que pôs definitivamente no mapa a pequena vila do Alto Alentejo. Ainda por cima sem um cêntimo que fosse do Governo Português. Único no país, tem atraído magotes de gente, que assiste maravilhada ao espectáculo proporcionado pelos peixes nos seus diferentes ecossistemas, da nascente à foz.
A brincadeira saiu cara aos comunistas que governam Mora. Foram anos a caminhar para Lisboa, a pedir autorizações aos diversos organismos de tutela, a exigir os milhões prometidos no tempo do executivo de Santana Lopes, e que acabariam por nunca chegar. Mesmo beneficiando de apoios comunitários, a autarquia teve de desembolsar 7,7 milhões de euros, uma fortuna para um concelho envelhecido que não chega sequer às 6 mil almas.
Os prémios arrecados pelo fluviário -distinguido em 2008 como o melhor museu português- acabaram por ser uma bofetada de luva branca na administração central. Ou, como um dia foi posta a questão, "uma espinha atravessada na garganta do governo". As palavras são de José Sinogas, o presidente de câmara que agarrou a ideia em 2001, depois de o vizinho Alandroal ter desistido dela. A escolha do atelier Promontório para conceber o edifício branco a lembrar os antigos celeiros alentejanos revelou-se também acertada. Disso são prova as distinções internacionais com que a obra foi galardoada.
A vida na terra, essa, ganhou outro fôlego. "É o talho que vende mais carne, o padeiro que vende mais pão...", exemplifica o sucessor de Sinogas, Luís Simão. Os restaurantes e as pensões do concelho são dos que mais têm lucrado com o filão do turismo, mas não são os únicos. Às três dezenas de postos de trabalho criados pelo fluviário , o autarca acrescenta a abertura de uma fábrica de embalagem de medicamentos, depois de o proprietário ter conhecido o concelho, por lá ter ido em peregrinação aos peixes.
Coisa pouca para os 450 mil visitantes que por aqui passaram até hoje ? O fluviário foi um ponto de partida. A partir de agora, a dinamização da economia local passa por criar complementos a esta oferta turística que façam com que quem, por enquanto, vem de passagem fique por estas bandas mais uns dias. Luís Simão quer criar um parque aventura e um centro de interpretação ambiental nas proximidades da casa dos peixes, bem como um roteiro das igrejas do concelho. Outra aposta forte da autarquia é a Estação Imagem... ...
Seja como for, é preciso resolver aquele que é visto como o principal problema da casa dos peixes: não ser suficientemente grande. O smal is beautiful pode fazer sentido quando se percebe que as espécies mais importantes do fluviário em termos de biodiversidade medem escassos centímetros -é o caso do minúsculo saramugo, um peixe que não existe senão no Guadiana-, mas são os hóspedes de maiores dimensões que enchem as medidas aos visitantes. Como a anaconda, uma cobra que triplicou de tamanho desde que aqui chegou à custa de uma dieta gourmet de codornizes, pitéu que exige que lhe seja servido ligeiramente aquecido no micro-ondas. Neste momento, o percurso que se desenvolve no fluviário é visitável em 45 minutos e depois disso pouco mais resta ao turista do que saborear a gastronomia alentejana -o que dificilmente será sequer uma opção para um terço dos visitantes, os miúdos das escolas.
Prometido há bastante tempo mas sempre adiado, o alargamento do fluviário está agora previsto para daqui a um ano. Custa mais um milhão e a autarquia conta arranjar outra vez fundos comunitários. "Penso que desta vez também vai ser apoiado pelo Estado Português", observa o presidente do Turismo do Alentejo, Ceia da Silva, que elogia a "perspectiva visionária" da autarquia quando, em 2001, arriscou o investimento. "Este é talvez dos projectos públicos mais conseguidos nas últimas décadas na região". salienta, "e o equipamento mais visitado de todo o Alentejo. O que a região terá de fazer é aproveitar este fluxo de turistas". Ali tão perto, o mercado espanhol ainda não foi devidamente explorado.
"As câmaras têm de virar-se para estes modelos de desenvolvimento económico", defende Ceia da Silva. O presidente da câmara de Mora fala com menos rodeios: "Não é o dinheiro que se atribui aos clubes de futebol que desenvolve um concelho". Na terra, nem mesmo um dos seus adversários políticos, o vereador socialista Catarro Simões, se atreve a censurar a aposta. "O fluviário tem é que crescer, para não cair na monotonia", vai avisando. "E a ampliação deve merecer o apoio da administração central."
Alterações no projecto científico e pedagógico deverão setr discutidas no mês que vem entre os responsáveis do fluviário e técnicos do Instituto de Conservação da Natureza, que ali se vão deslocar. Mário Silva, um dos directores deste organismo, explica que uma aposta ainda maior nas espécies autóctones pode grangear ao local um prestígio científico acrescido -ainda que o seu encanto para os visitantes fique à partida muito aquém do dos espécimes exóticos, como a anaconda ou as lontras asiáticas. Aquários mais pequenos podem fazer, no entanto, com que os minúsculos saramugos ganhem o protagonismo que os seus vizinhos tropicais teimam em roubar-lhes por serem mais coloridos.
"Esta foi uma grande pedrada no charco numa região deprimida como o Alentejo", diz o presidente do fluviário, o vereador Manuel Pinto. "Contribuiu para atenuar substancialmente a situação social e económica do concelho."
"Deve ser a única empresa municipal que dá lucro em todo o país", refere, por seu turno, o presidente da Câmara de Mora, assegurando que, apesar de ter pedido três milhões emprestados à banca para financiar o projecto, a autarquia continua de boa saúde financeira. No primeiro ano de funcionamento, parte dos proveitos do fluviário foi usada para oferecer uma ambulância aos bombeiros. No segundo, as crianças do 1º ciclo do concelho receberam computadores Magalhães. "Se calhar, o Governo viu com maus olhos ser Mora a ter este projecto, e não uma câmara socialista", discorre o presidente da autarquia. Depois, enterra o machado de guerra: "O que mais me agrada no fluviário ? As lontrazinhas. São muito queridas".
ana.henriques@publico.pt
Nota final de Tomar a dianteira
Homem cauteloso, o autarca morense não disse nem uma palavra sobre um aspecto essencial da excelente e proveitosa experiência de turismo cultural -a maneira muito eficaz como o fluviário tem sido promovido junto do mercado potencial. Não vá o diabo tecê-las, é realmente melhor nunca esquecer que o silêncio é de ouro e que o segredo continua a ser a alma do negócio.
Tomar a dianteira sabe como as coisas têm sido e continuam a ser feitas. Apesar disso, tendo em conta o respeito, a consideração e a admiração que nos merecem os autarcas comunistas (apesar de não sermos da cor), nada diremos também sobre assunto tão sensível. Quem quiser bolota que trepe !