quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Afundar o euro para salvar o dólar

De acordo com as estatísticas do Google, Tomar a dianteira registou 563 páginas consultadas de anteontem para ontem, mas apenas 361 de ontem para hoje. Sinal de que os leitores tendem a diminuir quando os temas abordados são mais generalistas, por assim dizer. Indicação clara, também, de que muitos leitores ainda não se decidiram a votar, na consulta à opinião pública, à direita do ecrã. Vá lá minha gente! Está em causa o futuro desta nossa querida terra, dos nossos filhos, dos nossos familiares, dos nossos amigos! Vote e aconselhe os seus amigos a votarem! O voto é livre e totalmente anónimo.

Ao que nos tem sido dito, garantido e repetido, a nossa crise tem como causas principais a elevada dívida pública (106,5% do PIB segundo o FMI), o preocupante défice orçamental que urge reduzir, e sobretudo a má notação financeira daí resultante, que nos foi atribuída pelas agências especializadas, por acaso todas americanas. Estamos assim condenados a cada vez mais severas medidas de austeridade, enquanto o governo paga juros da ordem do 9%, nos empréstimos a 10 anos.
Sendo assim, uma vez que Alemanha, líder da zona euro, tem uma dívida pública de apenas 82,6%  do PIB, enquanto que a do Japão alcança os 225% do PIB, os alemães deveriam obter para os seus empréstimos taxas de juro comparativamente mais favoráveis que os japoneses. Pois é exactamente o oposto que se verifica. Enquanto o Japão obteve, no início de Novembro, o equivalente a 19,3 mil milhões de euros, a 1,025% (Le Monde - Economie, 22/11/2011, página 5), a Alemanha foi obrigada a aceitar 1,91% quinze dias mais tarde. Há aqui portanto algo que não bate certo com o que nos é dito e redito na comunicação social. Nitidamente em pior situação face à Alemanha, em estagnação há mais de vinte anos, o Império do Sol Nascente devia ser mais penalizado do que os germânicos, o que não está a acontecer. Que se passa então? A notação das agências financeiras não serve para nada? Andam a enganar-nos? O consagrado comentador Jean-Maria Colombani, antigo director do Le Monde, fornece uma explicação bem diferente:

"Os Estados Unidos pretendem afundar o euro para salvar o dólar

"Nicolas Sarkozy e Barack Obama lado a lado, para um quarto de hora de televisão, assim como quem reenvia o ascensor. À saída do recente G20, o presidente francês até estava agastado com tantos elogios prodigados pelo seu homólogo americano. Com um termo mágico "leadership"! E o aumento de popularidade nas sondagens não tardou, graças à hábil encenação.
Semelhante bênção pode levar a pensar que americanos e europeus enfrentam a crise unidos e solidários. A realidade é contudo mais brutal: na guerra das divisas que decorre, estão em causa  as posições respectivas do dólar, do euro e do yuan, que o mesmo é dizer dos Estados Unidos, da Europa e da China. Acontece que a combinação de uma ideologia e de um certo número de interesses (adiante referidos pelos termos genéricos de "Wall Street" e "City"), tudo fará para se ver livre da Zona Euro. Primeiro nunca acreditaram que o euro fosse possível, agora pensam que o fim da moeda europeia não deve tardar, fazendo todos os possíveis para acelerar a sua morte prematura. Trata-se, no fundo, de preservar o dólar americano como  moeda de reserva, repetindo práticas já conhecidas. No tempo de Georges Bush (pai), quando os Estados Unidos estavam traumatizados pela fulgurante ascensão comercial japonesa, acompanhada por uma cada vez maior importância do yen como moeda de reserva, desencadearam uma política de dólar fraco e uma contra-ofensiva comercial, que conduziram o Japão a um longo período de estagnação. Paralelamente, o yen deixava de existir enquanto moeda de reserva.
É um cenário como o japonês que espera os europeus, caso percam a batalha em curso. E quando respondem com a perspectiva de governança franco-alemã da zona euro, tocam no ponto mais sensível da City: o espectro de uma Europa-potência dominada pelo par franco-alemão, uma vez que os ingleses nunca aceitaram  a Europa senão como uma simples zona de comércio livre. Compreende-se assim muito melhor a recente peixeirada entre Sarkozy e o seu amigo David Cameron, por ocasião do recente G20, em Cannes.
No Verão passado, repentinos levantamentos nos bancos franceses, praticados pelos congéneres americanos, ameaçaram aqueles de falta de liquidez e provocaram uma aceleração da crise. A seguir, como nem a Grécia nem Portugal bastaram, surgiram os ataques contra a Itália. "Uma vez que a Itália está com dificuldades, a França também", disseram na Merrill Lynch. Foi aliás uma outra agência americana, Clearnet, que no princípio de Novembro desencadeou o  aumento das taxas de juro dos títulos da dívida pública italiana.
Vão-me responder que esta é apenas a tese-alibi da banca francesa. Será. Mas lá porque os bancos estão mal vistos, isso não significa que estejam enganados.
Oficialmente, tudo está óptimo entre Obama e Sarkozy. Este deverá contudo pensar duas vezes, antes de apoiar os Estados Unidos noutros terrenos estratégicos, tais como o Irão ou o Afganistão. Mas também é verdade que o próprio Obama perdeu a batalha contra Wall Street, que lhe é hostil e a cuja regulamentação já renunciou. Para a City como para Wall Street, a regulamentação é o inimigo principal!
Temos assim um Obama praticamente desarmado e agora mais preocupado com a zona Ásia/Pacífico, onde se situa o grande desafio: o frente a frente com a China. Quanto à Europa e para agradar à opinião pública americana, não hesitou em designar a zona euro com responsável pela persistência da crise. E quando apelou ao seu amigo Giorgio Napolitano (presidente Italiano) para o incentivar a ver-se livre de Sílvio Berlusconi, aproveitou para lhe aconselhar cautela em relação ao duo Merkel-Sarkozy.
Assim, a atitude americana é pelo menos ambígua. É do seu interesse que a Europa volte a crescer economicamente. Mas também que tal aconteça só dentro de alguns anos. Enquanto o dólar continuar a ser a principal moeda de reserva, o resto do mundo terá de continuar a financiar os abissais défices americanos..."

Jean-Marie Colombani, L'EXPRESS, 22/11/2011, página 33

Nota final de Tomar a dianteira

Enquanto isto, Martin Wolf, o conhecido colunista do Financial Times, pensa que até agora a dupla Merkel-Sarkozy se tem limitado a "fazer apenas o necessário, só quando necessário", o que doravante é pouco. Conclui dizendo que "A época do demasiado pouco, demasiado tarde, acabou. Agora o que se impõe é "demasiado e imediatamente". A potência implica responsabilidade. A Alemanha é uma potência. Tem de assumir as suas responsabilidades". (Le Monde Economie, 22/11/2011, página 2)

3 comentários:

cantoneiro disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Já votei, embora meu voto não conte.

E votei pela continuação do executivo camarário até ao fim do mandato.

Daqui até lá - e está na hora de actuar - espera-se que apareça uma alternativa credível à direita PSD/CDS, formada no quadro partidário tomarense. Cabe ao PS liderar a construção dessa alternativa ampla e amiga do povo.

Conheço uma pessoa do concelho de Tomar, nasceu e viveu em Santa Cita, que daria um excelente presidente da câmara e ganharia as eleições. Arrasava!!!! E é bem conhecido em todo o concelho.
Não revelo o nome porque sei que não iria gostar. Só o revelaria ao PS, desde que solicitado oficialmente e sigilosamente.

Quem quer a bolota, que trepe...

António Rebelo disse...

Peço-lhe que me faça o favor de publicar o nome desse tal vencedor de arrasar. Como sou tomarense, tomara eu que apareça alguém capaz de merecer o meu apoio. Caso contrário, ainda acabo por ter de me candidatar, hipótese que não me agrada por aí além, a encarar apenas por dever de cidadania. Mas se tiver de ser, irei e procurarei cumprir. Tal como fiz durante o serviço militar obrigatório

cantoneiro disse...

DE: Cantoneiro da Borda da Estrada

Este post inspirou-me este comentário:

Já por duas ou três vezes aqui referi a "Seisachtheia" , um programa do Legislador SÓLON (há 2600 anos), da Grécia Clássica, uma Legislação que visava o "Perdão de Dívidas", "Alijar do Fardo" para os credores, na maioria dos casos, à altura, pequenos agricultores, muitos destes, para pagarem as suas dívidas, submetiam-se à condição de escravos dos seus credores para toda a vida, trabalhando as terras que antes eram deles; outros fugiam (emigravam), o que na altura representava uma desgraça, abrindo mãos de todos os direitos cívicos então reconhecidos só na sua terra.

Como deve ser do conhecimento de todos, à altura, mesmo documentos como este, eram escritos em verso.

Cito um fragmento importante desses versos da tal "Seisachtheia" (Perdão de dívidas", "Alijar do Fardo"):

("Horoi"significa marcos de hipoteca")
-----------------
"Mas eu, dos objetivos com que reuni
o povo, algum há que deixei por atingir?
Pode testemunhá-lo na justiça do tempo
a mãe suprema dos deuses olímpicos,
a melhor, a Terra negra, de quem eu, outrora,
os "horoi" arranquei, por todo o lado enterrados:
dantes era escrava, agora é livre.
Muitos a Atenas, pátria fundada pelos deuses,
reconduzi, vendidos ora injustamente
ora com justiça. Uns, ao jugo
das dívidas fugiam - e já nem a língua ática
falavam, por tanto andarem errantes;
outros, na própria casa servidão vergonhosa
sofriam, trémulos aos caprichos dos senhores:
eu os tornei livres"


Nestes versos, o Legislador está a fazer a apologia das suas reformas, afirmando ter cumprido tudo quanto havia prometido ao demos

Duas lições para Tomar:

1 - A tal alternativa à direita PSD/CDS em Tomar deve prometer o que, após estudo, é capaz de realizar e nisso jogar a sua honra.
2 - Assumir atitude tão radical na defesa das comunidades, do povo, como aquela de SÓLON:

Exemplo contrário: os actuais trafulhas e oportunistas que chegaram a S. Bento através de mentiras e traições, procurando impôr uma "socialização financeira" pondo os trabalhadores a pagar as percas das wall streets deste planeta.

Só mais uma nota: agir para fazer RENASCER o nosso sistema partidário, e nada melhor para o conseguir que no poder local.

(Aconselho a leitura de "Sólon-Ética e Política" de Delfim Ferreira Leão - ed. Gulbenkian - 480 pgs.. É bom visitar os clássicos nesta altura).