sexta-feira, 18 de novembro de 2011

FESTA DOS TABULEIROS: Mais achas para a fogueira


Nos "Temas da Semana" foi enfim possivel começar a esclarecer que afinal a tradição da Festa dos Tabuleiros não passa de uma argumentação para perpetuar o modelo implementado em 1950 por João Simões, assaz diferente da tradição anterior. Tal foi possível graças ao notável contributo do nosso conterrâneo Luís Ribeiro, que conseguiu desencantar a preciosidade acima reproduzida. Uma revista de 1 de Julho de 1887 (há 124 anos!), com a descrição e ilustrações da Festa dos Tabuleiros. Que era naquela altura anual e uma procissão. Só em 1950 é que passou a cortejo, realizado de dois em dois anos, ao mesmo tempo que deixou de ser uma festa das colheitas/cortejo de oferendas, com tabuleiros de promessa, para passar a constituir uma feira de vaidades, com beija-mão frente à Igreja Matriz, com quase tudo pago pela autarquia. Até 1974, para tentar legitimar um poder local nomeado pelo governo de Lisboa. Após o 25 de Abril para alardear e para respeitar a tal tradição... que afinal já nem sequer é o que era. Entretanto conheceu periodicidades diversas, primeiro de 2 em 2 anos, mais tarde de três em três, depois de quatro em quatro anos. E, a manter-se o actual modelo organizativo, corre agora o risco de passar a ser de cinco em cinco anos, ou até de dez em dez, que a crise é grave, ainda ninguém sabe quando ou como será ultrapassada, nem se chegará sequer a ser...e a cadela não pode com tanto cão.
Há no entanto algo bem mais curioso na ilustração referida. Antes da edição 2011 da Festa Grande tomarense, um dos dichotes locais consistiu em perguntar ao mordomo qual seria a sua atitude se aparecesse um par de gays a querer levar tabuleiro no cortejo. O bom do João Victal apressou-se a esclarecer que a tradição é um cortejo com pares mistos -uma mulher, portadora do tabuleiro e o seu ajudante masculino. Ficou naturalmente por saber se seria possível a integração do citado par uni-sexo, um (a) com vestimenta feminina, outro (a) com vestimenta masculina. E ficou-se nisto, até que surgiu o oportuno texto de Luís Ribeiro.
Certamente para grande surpresa do defensores da tradição e dos pares exclusivamente mistos, a ilustração que figura na primeira página da revista em questão não deixa dúvidas. Naquela época, os tabuleiros não eram assim tão normalizados como agora se pretende fazer crer, nomeadamente no que se refere ao remate superior -a coroa. Mas o mais extraordinário, porém, é ver-se um homem com um tabuleiro à cabeça, como mostra a ilustração infra, simples ampliação da anterior. E esta hein?!?!
Aproveitando o ensejo, uma vez que se trata de tradições, convirá talvez anotar que as raparigas portadoras de tabuleiros usavam uma fita à cintura, mas não em diagonal sobre peito, tal como vestiam blusas de fralda e saias de duas barras, algo diferentes portanto daquilo que agora se impõe.

4 comentários:

emege disse...

Não se deixe enganar pela falta de rigor desta GRAVURA, se reparar na original publicada no Blog TOMAR, A CIDADE verá que se trata de um tabuleiro em posição mais atrasada e portanto de menores dimensões, que o ilustrador fez coincidir com a cabeça do homem. De contrário como justifica que o homem fosse de chapeu na cabeça a levar um tabuleiro ?.

Cumprimentos

Mgil

António Rebelo disse...

É uma interpretação possível, com a qual não concordo. Baseio-me em dois factos: 1 - A ilustração de TaD não padece de qualquer falta de rigor, dado tratar-se de uma ampliação do original a que se refere; 2 - Mesmo com óculos e cheio de boa vontade, não consegui vislumbrar o chapéu do homem. Apenas a sombra do rebordo do cesto do tabuleiro.
De qualquer maneira, considero tratar-se de mera curiosidade, sem grande importância ou futuro. Ao contrário da realização anual, essa sim com um grande futuro, parece-me a mim.

emege disse...

Quanto ao facto da festa dever ser anual, não poderia estar mais de acordo, até porque será a meu ver a maneira mais inteligente de se trabalhar a pressão de assistentes do atual modelo, arranjando-lhe igualmente um modelo viável que nos liberte do pagamento de tal fardo, sem recebermos nada em troca.
Quanto à gravura, insisto, a copia que apresenta no seu blog é uma versão muito degradada da do TaD, nessa tudo o que refiro é muito claro.
Mesmo que fosse como afirma, tratar-se de um homem a levar o tabuleiro, seria por certo um fenómeno, pois a pessoa que o transportava fá-lo-ia com uma mão pendente (a esquerda) e a outra dentro do bolso...impossivel, não acha?.

Mgil

António Rebelo disse...

Nesse detalhe já concordo consigo. É realmente estranho.