
É do conhecimento geral que Estaline ordenou massacres de milhões de seres humanos. Além disso, ordenou que se reescrevesse a história, de forma a expurgá-la de todos os que lhe não eram benquistos. No quadro dessa limpeza da história, chegou-se ao cúmulo de "corrigir" fotografias, apagando quem não convinha.
Estaline morreu há muito e a sua União Soviética implodiu. Todavia, a herança estalinista ainda por aí aflora de tempos a tempos, até nos mais insuspeitos documentos. A ilustração supra é parte do desdobrável promocional do próximo Congresso da Sopa. Nele se pode ler que "O Congresso da Sopa nasceu em 1994, pela iniciativa do município. Numa altura em que a proliferação de congressos grassava pelo país, pensou-se...". Trata-se, sem a menor dúvida, de uma nova versão da história, que assenta numa redonda mentira. Não se pensou coisa alguma, não havia pelo país fora qualquer vaga de congressos e o município não teve qualquer iniciativa. Foi Manuel Guimarães, beirão, tomarense pelo coração, professor, jornalista, director hoteleiro, gastrónomo e promotor da biblioteca municipal, com a ajuda de António Cartaxo da Fonseca, que teve a ideia do 1º Congresso da Sopa. Vai daí, solicitou o patrocínio da autarquia, obteve-o sem dificuldade e passou à prática, com um sucesso que agora todos reivindicam. Que certas coisas não sejam do agrado de quem neste mandato gere no município os destinos do concelho, é natural. Que haja discordâncias entre os parceiros da circunstancial aliança para governar, aceita-se. Que se tente falsificar a história local, atribuindo-se qualidades que nunca existiram, não é digno de pessoas de bem.
O ex-ministro da economia e finanças do governo Sócrates, Campos e Cunha, escreveu no Público de hoje uma opinião que nos parece particularmente adequada à tragédia tomarense, e que termina assim: "Quando o Titanic se afundou, por incúria e soberba do comandante, a orquestra continuou a tocar. Foi um gesto tão heróico quanto inútil e, por isso, ainda o recordamos. Desta vez, também a banda continua a tocar, enquanto o País se afunda, como se nada se passasse. Desta vez não é heróico, é ridículo e trágico."
Onde está comandante ponha-se actual maioria. Onde está País, escreva-se Tomar. Depois é só voltar a ler e sacar as respectivas conclusões. Quando se começa a tentar emendar a história, algo vai mal na democracia que vamos tendo.